Maio 08, 2021

A dança como fio condutor de uma vida

A dança como fio condutor de uma vida

Um professor vocacionado e um comunicador com carisma. Quando fala, em aula ou em eventos de sua área de atuação, os olhos brilham, revelam um homem dotado de paixão pelo que faz.

Marco Aurelio da Cruz Souza, coordenador do curso de licenciatura em dança da Universidade Regional de Blumenau (Furb), o primeiro nesta área em Santa Catarina, é o homenageado do 11º Múltipla Dança – Festival Internacional de Dança Contemporânea que ocorrerá inteiramente on-line entre 24 e 30 de maio, com 35 convidados e uma série de ações.

O desempenho e o envolvimento deste pesquisador, também doutor em motricidade humana - especialidade em dança e mestre em performance artística-dança, se projetam para além de Santa Catarina e chamam a atenção.

Como alguém nascido em Blumenau, em 1977, e morador de Gaspar, pequeno município do Vale do Itajaí hoje com cerca de 70 mil habitantes, faz uma opção pela arte? Marco Aurelio ainda vive no lugar da infância, “cidade onde um menino fazer aula de dança não era bem recebido”, conta ele.

Especializado em dança educacional, integrante de diferentes grupos de pesquisa, como Arte e Estética na Educação (Capes-CNPQ) e o projeto Folk Covid, coordenador do projeto de extensão Grupo de Danças da Furb, é autor e organizador de livros, bem como de inúmeros artigos científicos na área da dança, formação e experiência estética, e formação de professores. Atualmente integra o conselho da Associação Nacional dos Pesquisadores em Dança (Anda) e atua como vice-presidente da Associação Profissional de Dança do Estado de Santa Catarina (Aprodança).

Entre os trabalhos coreográficos premiados, estão “Respeito: Sou Mulher, Sou Negra, Sou Brasileira”, “Saudação a Iemanjá”, "Ye Ye Iberi Dshum”, “Singkill”, “África Tribal”, “Cúmbia, Ritmo Colombiano” e “Oktoberfest, Jeden Tag ist Ein Fest”. Diretor coreográfico dos espetáculos “As Avessas”, “Nos Tempos da Brilhantina” e “Meia-Noite em Paris”, realizado pelos cursos de dança, teatro, música e artes visuais da Furb.

Atua como jurado, cursista e palestrante em eventos de dança em Santa Catarina e no Brasil. Consultor do currículo do novo ensino médio de Santa Catarina (2020) e membro do coletivo de artes para criação dos insumos para PNLD2019, MEC.

Nesta entrevista, produzida com a ajuda da jornalista Néri Pedroso, Marco Aurelio compartilha um pouco de sua vida, de seu jeito de ser e pensar. “Sempre fui uma pessoa muito determinada e com foco para conquistar o que eu queria; desde pequeno. Eu colocava uma coisa na cabeça e enquanto não conseguia, não desistia”, diz ele.

Deu no que deu. Uma imensidão – um educador, um pensador, um militante em favor da dança contemporânea de Santa Catarina e do Brasil.

 

Recebendo em Florianópolis, o 6º Prêmio Desterro conquistado com o espetáculo “Singkil”, do Grupo de Dança do Departamento de Cultura de Gaspar, em 2015.

 

 

Quem é Marco Aurelio?

Marco Aurelio da Cruz Souza - Nossa, pergunta difícil (risos). Acho que poderia dizer que sou uma pessoa de garra e obstinada. É uma boa definição. Olho para a minha história de vida pessoal e profissional, que de certa forma sempre estiveram atreladas uma na outra, e vejo que sempre fui uma pessoa muito determinada e com foco para conquistar o que eu queria; desde pequeno. Eu colocava uma coisa na cabeça e enquanto não conseguia, não desistia. Sou assim até hoje.

Se não tivesse sido assim, não teria me envolvido com a dança e tornado isso minha profissão. Lembro que eu adorava tirar notas boas na escola e que, aos dez anos, fui sozinho na única escola particular de cidade e fiz minha matrícula, pois eu queria mais cobranças. Depois comuniquei a meus pais que eles tinham que ir pagar e pegar a lista de materiais (risos). E assim foi, em cada etapa da vida, definia o objetivo e ia por ele (na área acadêmica: graduação, especialização, mestrado e doutorado; na área profissional; viagens, etc.)

 

Como um menino nascido em Gaspar, faz uma escolha pela dança?

Marco Aurelio - Aconteceu, pois, tinha que acontecer, mas minha irmã Luciane (quatro anos mais velha que eu) foi a grande responsável pelo meu envolvimento com a dança.  Lembro dela dançando lindamente e com grande paixão em cada movimento. Ela se tornou professora de dança aos 13 anos e ministrava aulas nas cidades da redondeza (Brusque, Blumenau, Timbó e Pomerode).

Quando as aulas eram em Gaspar, assistia quase todas, bem como das outras professoras contratadas que vinham de Blumenau trabalhar na academia dela. Assistia, pois, para uma cidade pequena como Gaspar, um menino fazer aula de dança não era bem recebido.

Certo dia, durante um dos ensaios para o tão esperado espetáculo de fim de ano, uma das alunas de um grupo intermediário, que também era modelo, foi chamada para um trabalho em São Paulo e não poderia participar do evento em Gaspar. Minha irmã ficou meio desesperada pois teria de reorganizar todo o trabalho coreográfico, e só faltava uma semana para o espetáculo. Disse a ela e ao grupo que eu poderia substituir a menina, mesmo sem nunca ter feito nenhuma aula, mas como assistia a todas elas, eu sabia a coreografia toda. Foi engraçado, ensaiamos todos os dias para eu entrar na coreografia. Meu corpo não respondia tecnicamente aos movimentos, mas eles saiam no tempo certo e super coordenado. Penso que era porque eu jogava vôlei e praticava ginástica olímpica. Tinha a coordenação motora bem desenvolvida. Aí não parei mais, entrei no Grupo de Danças Alemãs da Furb, na master academia para aulas de jazz, dança de rua e ginástica aeróbica, o hit do momento na época, comecei a fazer cursos em eventos de dança.

 

Em que momento percebe sua vocação profissional? Como envereda para a dança?

Marco Aurelio - Tudo nesse período, no final do ensino médio. Depois da apresentação no espetáculo da academia de minha irmã, fui chamado para trabalhar na própria escola particular em que estudava. No terceirão de manhã e, à tarde, dava aulas para as crianças pequenas de até dez anos.

Aí aconteceu a escolha por cursar educação física, uma vez que em Santa Catarina não tínhamos curso superior em dança, que era o que eu queria fazer profissionalmente, pois já estava ganhando dinheiro com isso. Trabalhava sem formação alguma. Só curiosidade mesmo. Eu não parava, passei a fazer muitos cursos de dança e educação. Saia de casa às 6 da manhã para estudar e raramente chegava antes das 22h, por conta de tudo o que eu fazia (vôlei, ginástica, danças, aula de violão, trabalho).

Sempre foi assim. E não é diferente hoje, só que com outras atribuições. Sempre soube que queria ser professor e coreógrafo, nunca tive vontade de ser bailarino/artista da dança.

 

O que é dominante no percurso e no fazer artístico: a criação propriamente dita, a educação, o pensador/pesquisador? O que mais mobiliza?

Marco Aurelio - Em todo processo formativo em dança, realizado de forma consciente, o ato educativo se faz presente, e para ser um bom professor necessariamente o ato investigativo será acessado.

 

Como recebe o tributo do 11º Múltipla Dança? Como vê o fato de estar num rol de nomes expressivos de Santa Catarina, como Alejandro Ahmed, que recebeu a homenagem em 2013, Diana Gilardenghi, em 2015, Ana Luiza Ciscato, em 2016 e Ida Mara Freire, em 2017?

Marco Aurelio - É incrível. Fiquei muito feliz quando Jussara Xavier me comunicou. São profissionais que admiro muito por suas trajetórias artísticas. Nem sei se mereço tal honraria, mas recebo com o coração transbordando de alegria.

É o reconhecimento de anos de luta pela dança. Luta que passa por várias instâncias: ultrapassar o preconceito de meninos na dança, falta de valorização da área, busca pela profissionalização, entendimento da dança como área de conhecimento, participação de associação de classe em minha cidade para dar oportunidades a crianças e adolescentes em vulnerabilidade social, aulas de qualidade e de forma gratuita, participação de eventos, criação de espaços para que a dança tivesse maior visibilidade no Vale do Itajaí, para além dos espaços tradicionais como o teatro, e mais recentemente a criação do curso de licenciatura em dança na Furb, no qual estou como professor e coordenador, e consultoria na criação do currículo do novo ensino médio de Santa Catarina.

 

Como situa o Múltipla Dança, cujas características o tornam quase único no Sul do Brasil?

Marco Aurelio - É um grande evento. Ocupa um lugar importante no cenário da dança no Sul do Brasil por apresentar perspectivas profissionais para a área da dança.

Possibilita a apreciação estética e artística de trabalhos de companhias e artistas profissionais da dança dos contextos nacional e internacional, abre espaço para o diálogo entre artistas, pesquisadores, professores e o público, bem como oferta de oficinas, palestras, formação de plateia e outras ações que compõem a programação, além de um olhar atento para a dança catarinense.

 

Qual o papel da arte num tempo disruptivo? A arte serve para o que diante de tanto sofrimento?

Marco Aurelio - A arte assumiu já diferentes papéis e funções em muitos contextos e tempos. Penso que nesse momento de tanto sofrimento por conta da pandemia e atuações desastrosas de nossos governantes, a arte acaba por tocar num lugar que lhe é próprio, mas que parece ser melhor entendido no agora, que é a sensibilidade, possibilitando além da fruição estética, momentos de reflexão e reação.

 

Como tem sido a sua experiência como coordenador do curso de licenciatura em dança na Furb? O que é mais difícil nesta atuação, tendo em vista o caráter inédito de sua criação no Estado?

Marco Aurelio - Encaro como mais um grande desafio, mas que me dá muito orgulho em poder fazer parte. Os desafios são inúmeros e constantes.

O curso é pago, e perante a crise econômica e política que temos atravessado nos últimos anos, período em que o curso foi criado, acaba dificultando a captação de novos alunos e manutenção dos que temos, mesmo com a oportunidade de muitas bolsas pela universidade e principalmente do governo do Estado; a situação de toda equipe de professores (que é incrível) ser substituto, ou seja, não ter estabilidade, a não regulamentação da profissão da dança, hoje qualquer pessoa sem formação pode atuar como professor, a predominância da formação da área da educação física, o não entendimento da dança como arte... mercado de trabalho, desvalorização da profissão.

Mas, ao mesmo tempo, com todas as dificuldades, os resultados com os estudantes nos enchem de alegria. Temos conseguido no Vale do Itajaí ampliar o diálogo com as prefeituras e conscientizá-los na criação de concursos públicos específicos para o professor de dança, e ainda, possibilitar que os licenciados em dança possam assumir as vagas de professor de arte nas escolas, conforme o Parecer CNE n° 22/2005 e Lei Federal 13.278/2016. Este ano conseguimos ampliar para as escolas estaduais também que já recebem nossos estudantes. É um grande passo.

 

Nem todo o artista percebe a importância de sua participação e representatividade junto as entidades de classe. Poderia falar um pouco da sua atuação na Anda e Aprodança? É possível ensinar na escola a questão da resistência, da luta e de uma atuação mais política no campo da arte e da cultura?

Marco Aurelio - Penso que a escola de educação básica é o lugar próprio para o desenvolvimento do pensamento crítico, político e democrático, de ampliação da visão de mundo e de possibilitar experiências que auxiliem na concretização da cidadania. Temos uma longa caminhada a seguir...

Quanto a participação da Anda e Aprodança tenho aprendido muito. Este lugar de aprendiz sempre me fascinou. Essas associações de abrangências nacional e estadual exercem papel fundamental na discussão para construção de políticas públicas, na luta em prol da dança em diferentes contextos formais e não-formais de ensino, de estar atento aos desmandos de nossos governantes para poder agir prontamente, de nos instigar a sermos corpos políticos, que entendam seus deveres e direitos e que lutem por eles.

 

 

O que você não fica sem: arte

O que mais admira: pensamento crítico e justiça social

O que abomina: injustiça

Um lugar no mundo: são tantos os lugares que visitei e que me constituíram como pessoa. Penso que ficaria com Lisboa e Cracóvia.

Uma saudade: da época em que fui estudar dança na Europa

Uma bebida: gin

Uma comida: frutos do mar

Palavra: revolução

Uma frase: “Um amor, uma carreira, uma revolução: outras tantas coisas que se começam sem saber como acabarão.” Jean-Paul Sartre

Um ídolo: meus pais

Um livro: “Ensaio sobre a Cegueira”, de José Saramago

Melhor viagem: mochilão na Europa em 2002.

Na pandemia eu... trabalhei muito

Sonho: presenciar a efetivação da dança na escola como área de conhecimento autônoma

 


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Yula Jorge

Yula Jorge
Jornalista graduada pela UFSC. Antes disso estudou e viveu quatro anos entre o Canadá e os Estados Unidos e quando retornou a sua terra natal, Goiânia, graduou-se pela PUC em Secretariado Bilíngue. 
Logo mudou-se para Florianópolis, ingressou na Universidade Federal, e da ilha não saiu mais. Atua como colunista desde 2012, assinou uma coluna diária no jornal Notícias do Dia por alguns anos, e, paralelamente, foi repórter da RICTV Record e Record News. Traz todos os dias o que rola de especial em Floripa: sobre quem acontece, empreende, se engaja em causas legais. O que inaugura, as festas bombásticas, as melhores casas, restaurantes, os shows, as ações bacanas e o voluntariado.

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