Abril 23, 2021

A DOR DOS OUTROS

A DOR DOS OUTROS

À medida que envelhecemos vamos colecionando não só dores no joelho, no ombro e em todas as articulações do corpo, como também dores emocionais. As perdas se acumulam. Perdi meu pai quando ainda era criança, minha mãe partiu quando eu já estava na maturidade, mas me senti criança de novo; as irmãs dela - que também foram um pouco minhas mães- estão se despedindo a cada ano. Das sete irmãs, restam duas tias queridas. Comecei a perder também amigos da minha idade, uma tristeza indescritível.

Quero, porém, falar de outro tipo de perda. Nunca tive animais de estimação, a não ser um gato e um rato. Tom era um gato preto de rua, desses que ia e vinha para nossa casa quando bem queria. Chegou por conta própria e se instalou sem pedir licença. Comia, bebia e ia embora. Às vezes voltava todo arranhado e sangrando, depois de passar a noite na boemia. Um dia, Tom não retornou. Nunca soubemos se tinha morrido ou casado com alguma gata da vizinhança. Partiu como chegou, sem aviso.

O rato era um segredo de adolescente. Deus o livre se minha mãe soubesse que eu alimentava um camundongo que aparecia na nossa área de serviço. Era desses cinzentos, bem feinho. Eu colocava pedaços de comida perto do ralo onde Rufus – nome retirado de um livro que estava lendo na época – aparecia. Assim como Tom, o rato Rufus simplesmente desapareceu.

Essas relações passageiras não deixaram nem de longe as marcas que presencio seguidamente entre meus amigos e familiares. Desconheço essa dor imensa descrita por quem perdeu seu cão ou seu gato, companheiros cotidianos deles por muitos anos.

Uma dor desconhecida

Não conheço, mas respeito. Vejo a tristeza dos donos, muitas vezes seguida da promessa “ não quero outro, dói demais”. Pouco tempo depois descubro pelas fotos nas redes sociais que já adotaram um novo amor.

Poderia  até falar sobre a única coisa que me incomoda nesse tema. É quando essa relação é comparada àquela entre humanos :” meu cachorro não me pede nada, meus gatos não me decepcionam, nunca fui traída por um cão...”. Mas, aí já seria outra crônica e nesta de hoje quero apenas louvar a amorosidade entre humanos e seus bichos de estimação (expressão muito mais bonita que pet , né?) .

O que toda essa reflexão me traz é o respeito à dor dos outros. Não é porque não me afeta que ela não existe. Entre os muitos memes sobre o menosprezo à dor alheia, o melhor que li nos últimos tempos foi : “Mamãe, o que é mimimi ? É o que não dói na gente, meu filho”.

(Brígida De Poli)

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DICAS

SÉRIES

Modern Love – 8 episódios – Prime Vídeo

Não sei se não presto atenção, mas encontro poucas  comédias românticas seriadas que valem a pena. Esta traz um super elenco e merece uma chance : Tina Fey, Dev Patel e Anne Hathway , Andy Garcia e mais um monte de nomes conhecidos. A idéia é ótima: cada uma das histórias é baseada em casos reais, escritas para a coluna Modern Love do jornal The New York Times. Temas contemporâneos como relacionamentos amorosos, solidariedade, doenças e morte estão em episódios únicos. Como toda produção episódica, algumas são melhores que outras. Apesar do investimento, alguns críticos acusam a série de ser melosa demais e que mostra um amor romântico “ classe média”. Li em algum lugar que é apenas “uma série para aquecer o coração”. Veja e tire sua própria conclusão.

 

O Inocente – 8 episódios-  Netflix (30/04)

A Espanha se tornou grande produtora de séries, principalmente depois do mega sucesso de La casa de papel. Esta semana chega mais uma. Diz a chamada de O Inocente: começar de novo seria a única salvação possível, mas nenhum deles pode. A história gira em torno de Mateo que há nove anos intercedeu uma briga e acabou se tornando um assassino. Além dele, Olivia, Lorena e Aguilar são os protagonistas desta série de suspense baseada no livro de Harlan Coben. A conferir, a partir de sexta,30/04.

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FILMES

Radioactive: Marie & Pierre Curie –direção: Marjane Satrapi – 2020- Netflix

Esta não é a primeira cinebiografia sobre a grande cientista polonesa, Marie Curie. Desde a primeira, em 1943, até “Radioativo”, houve outros filmes sobre a primeira mulher a ganhar não apenas um, mas dois prêmios Nobel, em Química e Física. Casada com o francês Pierre Curie, seu parceiro também na Ciência, ela conseguiu vencer mesmo num mundo essencialmente masculino. Os dois descobrem  o rádio e o plutônio, elementos químicos que dariam início ao uso da radioatividade. A protagonista é Rosamund Pike que há muito tempo já provou ser mais que um rostinho bonito. A atriz sabe escolher papéis.

 

Nada a esconder –  direção: Fred Cavayé – França- 2019 -Netflix

Um grupo de amigos se reúne para jantar numa noite de eclipse. Todos levam a mulher ou o marido, exceto um.  Depois de um telefonema “suspeito”, os casais  decidem organizar um jogo: todas as mensagens recebidas por cada um devem ser lidas em voz alta. Claro que só podia dar confusão. Todos têm a vida exposta e... bem, sem spoiler.

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ARTIGO

Seaspiracy – os mares vermelhos

Nunca tinha acontecido antes em relação a um filme. Várias pessoas com as quais falei disseram que tinham ouvido falar muito mal do filme, e alguns sites de cinema com os quais normalmente concordo, também mostraram-se bastante críticos ou até trataram abertamente o filme de partidário e mentiroso. Um exemplo é Brian Kahn, no Gizmodo. Mas para mim geralmente essas críticas (e os boatos relatados pelas pessoas) não faziam sentido. Estou falando de Seaspiracy. O filme é, sem dúvida, um soco no estômago. Mas, para assim dizer, um soco benéfico. 

O filme é uma longa investigação em imagens que relata toda a sujeira que há atrás da pesca nos mares, e também da criação de peixes, a começar pelo salmão, nosso queridinho do sushi. É muita sujeira, muitos interesses escusos e principalmente, não tem uma única pesca (ou criação) que seja sustentável. O peixe está acabando, os atuns estão em extinção, até os golfinhos são mortos às centenas todo dia — e sem uso alimentar — por causa das grandes redes de arrasto industriais que não poupam nada. No Japão, na Europa, nos EUA, os selos garantindo a sustentabilidade da tal pesca, até mesmo das sardinhas, são comprados pelos produtores, num esquema completamente corrupto que envolve até as organizações ambientais mais famosas.

Já que muitas críticas afirmavam que as denúncias do filme eram exageradas, ou parciais, ou tendenciosas, ou distorcidas, tentei me informar, com a vantagem de ser jornalista, e saber como ir atrás e procurar. Me deparei com a mesma muralha de mentiras, de despistagens, de afirmações caluniosas, afirmando por exemplo que o filme seria 'pago para tornar todo mundo vegetariano', ou outros alertas de conspirações várias, bastante grotescas. Só faltou eu também ser ameaçado por querer saber mais: não aconteceu provavelmente porque não deu tempo, porque não fui garimpando muito fundo. Sabemos hoje que houve observadores oficiais da União Européia, da entidades americana contra a pesca ilegal etc., a bordo de grande pesqueiros, que sumiram de bordo, caíram no mar em incidentes nunca esclarecidos, depois de relatar práticas proibidas e matanças de animais protegidos.

A qualidade técnica do filme é baixa — até simplesmente porque vários trechos são filmados com microcâmeras, para evitar de ser denunciado, expulso e perseguido. Mas posso garantir que o Seaspiracy vale a pena ser assistido. Infelizmente, as imagens (algumas muito fortes) na maioria das vezes falam por si. E se você escutar ou ler falando mal do filme, agora sabe que pode ser parte da campanha para os grandes interesses internacionais poderem continuarem esvaziando o mar do pouco que resta.

Roberto Cattani, jornalista e escritor.

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Ficha Técnica

Seaspiracy

Direção: Ali Tabrizi – Reino Unido

Onde ver: Netflix

O link para o artigo do Gizmodo citado acima, aqui

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Bônus

DOMINGO, 25, É DIA DE OSCAR!


Foto:reprodução site Legião de Heróis.

A gente finge que menospreza o prêmio da Academia de Artes e Ciências Cinematográficas, diz que é só interesse comercial de Hollywood, reclama dos resultados...mas, todos os anos esperamos ansiosamente pelo resultado. Nesta 93ª edição do Oscar não vai ser diferente. Pelo segundo ano, a cerimônia não vai ser tão interessante, nada de desfile dos maravilhosos vestidos pelo tapete vermelho, nem ficar descobrindo qual artista está sentado ao lado de quem etc...mas saberemos o mais importante: quem vai levar a tão cobiçada estatueta dourada.

Não sou de fazer prognósticos, mas Nomadland ( ainda não tive chance de ver) é o franco favorito. Dirigido e roteirizado pela jovem cineasta chinesa Chloé Zao, está indicado nas principais categorias de filme e direção. A protagonista é Frances McDormand, uma “papa prêmios”. Ela pode tirar a estatueta de outra premiadíssima, Viola Davis, que está ótima em “A Voz Suprema do Blues”. Por falar em “A Voz Suprema...” tudo leva a crer que Chadwick Boseman leve o Oscar póstumo de melhor ator. Pior para Gary Oldman que está soberbo em “Mank”.

Bem, saberemos o resultado no domingo. Enquanto isso, você pode assistir muitos dos indicados nos streamings, principalmente na Netflix, que investiu muito em boas produções de olho no Oscar.

Alguns indicados disponíveis: Mank, A Voz Suprema do Blues, Retratos do Mundo, Pieces of Woman, Os 7 de Chicago, Se algo acontecer, te amo ( Netflix); O som do silêncio, Borat, Uma noite em Miami  (Amazon Prime); Soul, uma aventura com alma (Disney+); Meu pai (Now/Net)

A cerimônia será transmitida pelo canal TNT, a partir das 20h. Na TV aberta, a Globo só inicia a transmissão por volta da meia-noite, após o Big Brother Brasil 21.

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THE END

(*) Fotos reprodução/divulgação

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Brígida Poli

Brígida Poli

Jornalista, cinéfila desde criancinha e maníaca por séries de TV desde "Os Sopranos". Não se considera crítica de cinema, pois não consegue deixar o coração de lado na hora de avaliar um filme. Adora falar e escrever sobre o assunto e tenta chamar a atenção para as grandes obras cinematográficas que as novas gerações desconhecem. Concorda com o mestre Federico Fellini quando ele disse que "o cinema é um modo divino de contar a vida".

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