Março 19, 2021

A república do palavrão

A república do palavrão
Nicolas Cage, apresentador de A História do Palavrão

Não sei bem como abordar esse assunto sem parecer moralista ou desbocada . Poderia começar usando aquela expressão horrorosa que denuncia a velhice “ antigamente não era assim ”. Pior ainda seria escrever “ no meu tempo”, porque parece que o tempo da pessoa na terra já findou. -Chega de nariz de cera, fala logo colunista! -. Não me pressiona, ô seu ******* !

Já entenderam, né ? Uma característica desses tempos estranhos que estamos vivendo foi a perda da compostura que nos fazia guardar os palavrões para a intimidade do lar, conversa com os amigos ou algum bate boca feio. Agora, não só o cidadão comum abriu o verbo, como autoridades usam termos que faziam os antigos lavarem a boca do maldizente com sabão. No caso dos congressistas, eles respondem (respondiam?)por falta de decoro parlamentar na Comissão de Ética.

No cenário atual a própria imprensa que antes colocava asteriscos nos palavrões, passou a explicitar os vocábulos. Apesar da naturalidade com que são reproduzidos pela mídia, confesso que mantenho certo pudor, então vou amenizá-los . Algum dia na vida vocês imaginaram que ouviriam as mais altas autoridades do país usarem “ enfia a máscara no r...”; “ não tem vacina, porr...”; “ Vai pra p ...que os  p....”. Após uma reunião com governadores, mais uma saraivada: bost.., m... e put...!

Olha, minha intenção não é falar da política em si, mas de boas maneiras . Estaria eu sendo muito piegas ou moralista, por achar que não cabe esse tipo de linguajar em manifestações públicas?

Em 2012, um procurador do STJD-Supremo Tribunal de Justiça Desportiva tentou impedir o palavrão nos estádios de futebol. A ideia era punir os desbocados. Mas futebol sem palavrão é como “Claudinho sem Buchecha, avião sem asa, fogueira sem brasa, futebol sem bola, Piu Piu sem Frajola...la ri la lá....”   e a campanha não prosperou.

Bem, estádio de futebol reúne uma massa humana e gera reações passionais. Senadores, deputados, presidente é – ou deveria ser- outra coisa, mas eles enfiam um palavrão em tudo.

A grande  ironia nessa história é que nunca se falou tanto em “bons costumes”, “defesa da família” e “cidadãos de bem”. Não quero criar polêmica, apenas levantar um ponto de reflexão. Há uma distância grande entre discurso e prática nessa história. Algo não está ornando, como falam os paulistas!

Se você me entendeu, ótimo. Se não me entendeu, vá pra tonga da mironga do kabuletê! Brincadeirinha, tá, caros leitores? Adoro vocês! Essa é uma expressão em nagô, usada pelo poetinha Vinicius de Moraes. Só queria dizer que também tenho meu repertório de palavrões. Acho apenas que é questão de hora e lugar.

(Brígida De Poli)

_________________________________________________________________________

 

 A história do palavrão – documentário -  6 episódios –Netflix

A série documental, apresentada por Nicolas Cage ( prometi não falar mal dele por um ano)resgata a origem dos palavrões, a mudança do linguajar e da cultura em diferentes épocas e regiões. Ele ouve estudiosos da língua inglesa, atores e comediantes e cria algumas situações engraçadas. A série é legendado, claro, mas aproveita melhor quem é bom conhecedor do inglês, o que não é o meu caso. Seria muito interessante uma versão do palavrão na língua portuguesa! Alô, Netflix Brasil!!

Um relato curioso é sobre o Código de Hayes que vigorou em Hollywood entre 1930 e 1968, determinando as palavras que poderiam ou não ser usadas nos filmes. Não podia, por exemplo, usar “ maldição”. Não deixa de ser risível quando hoje  “fuck” (sorry!) é falada 48 vezes num mesmo filme!

 Como se vê, os costumes são flexíveis. Quem sabe VTNC, tão usado nas redes sociais,  se tornará cumprimento no futuro?

Veja o trailer LEGENDADO (postado por MXGamers)

_________________________________________________________________________

 

DICAS DE FILMES

Adeus, professor – direção:  Wayne Roberts  -  2019 -Prime Vídeo

Johnny Depp tem uma legião de fãs, mesmo entre os críticos de cinema, mas não está na minha lista dos 10 mais. Apenas gosto sem grande entusiasmo do trabalho atual dele. Acho que já foi melhor. Em “Richard says goodbye” ele sai dos personagens intensos e violentos para interpretar um professor diagnosticado em estado terminal que decide viver seus últimos dias de forma mais livre. O homem deixa de lado as convenções sociais, as preocupações e cai na “farra”. De Johnny Depp não dá para esperar uma versão exatamente edificante desse tipo de história que já rendeu outros filmes. Porque Depp é...Depp.

 

O marido perdido – direção: Wicky Wight - 2020  - Telecine/Now

Mesmo sem ser nenhuma obra-prima, esse drama romântico agradará quem gosta do gênero. Uma jovem viúva se muda para a fazenda da tia com os dois filhos. Lá, ela começa a reinventar a vida depois da trágica morte do marido. Isso inclui o rude e bonitão capataz da fazenda que também carrega um drama.

Sessão Especial de Justiça - direção: Costa-Gavras – 1974 – Cine Belas Artes

Esse clássico do cinema político do grande Costa-Gavras lembra o tema da nossa última edição. Para abafar o assassinato de um oficial alemão durante a ocupação alemã na França , um agente do governo resolve acusar seis criminosos foragidos. O caso aconteceu em Vichy,  região colaboracionista durante a Segunda Guerra Mundial Outros magistrados, porém, pressionam para a reversão da indiciação injusta.

***

 

DICAS DE SÉRIES

City on a hill – 1 temporada – 10 episódios – Paramount/Now/Net

Um presentão do “novo” canal Paramount para quem gosta de série policial tradicional. Espia os nomes na produção: Matt Damon e Ben Afleck. Kevin Bacon está ótimo o papel do agente do FBI, Jack Rhodes, que vive das glórias de ter comandado uma operação bem sucedida para prender mafiosos, mas a vida pessoal é um fracasso. Ele acaba formando uma dupla inusitada com o promotor afro-americano , Decourcy Ward, correto mas com ambições de ascensão social. Rhodes está longe de ser um santo e induz Decourcy – um negro assumindo um cargo importante na super racista Boston - a várias irregularidades para chegar ao fim pretendido: prender uma família de criminosos. A ambientação dos anos 90 é perfeita, a começar pelo figurino com suas imensas ombreiras...

Rule Comey – 1 temporada – 4 episódios – Paramount/Now/Net

Outro título interessante, esse para quem gosta de drama político. Em quatro episódios, a minissérie conta um pedaço da história americana recente: a relação do diretor do FBI, James Comey, com o presidente Donald Trump durante os primeiros meses do mandato. Jeff Daniels interpreta Comey e Brendan Gleeson ( um ator que gosto muito) faz um Trump caricato, ou seja, real! O ex-diretor do FBI conseguiu em sua passagem pelo órgão desagradar democratas ( divulgou o caso dos e-mails de Hilary Clinton às vésperas da eleição de 2016) e republicanos ( não divulgou mais cedo).  O roteiro se baseou no livro escrito pelo próprio James Comey e que tirou o sono do Donald Trump durante muito tempo.

Obs.: Sabe-se lá porque, o 1º  episódio é dublado ( para mim, um imenso sacrifício ver assim). Os demais são legendados. Espia o trailer.

_________________________________________________________________________

 

BÔNUS – ONDE VER OS INDICADOS AO OSCAR 2021

Na ordem: 'Meu pai', 'Minari', 'Nomadland', 'Os 7 de Chicago', 'Bela vingança', 'O som do silêncio', 'Mank' e 'Judas e o Messias negro' concorrem ao prêmio de melhor filme no Oscar 2021 —  ( Foto:Divulgação)

 

Saiu a lista dos indicados ao Oscar na última segunda-feira (15) e há vários títulos disponíveis em streaming , leia-se principalmente Netflix. Como já falei bastante sobre eles em outras edições, vou só citar os indicados que você pode ver antes da cerimônia  de entrega em 25 de abril.

Mank – melhor filme – melhor ator para Gary Oldman; melhor diretor para David Fincher, melhor atriz coadjuvante para Amanda Seyfried   (Netflix)

Os 7 de Chicago – melhor filme – melhor ator coadjuvante para Sacha Baron Cohen – e outros (Netflix)

O professor polvo  – melhor documentário (Netflix)

A voz suprema do blues melhor ator para Chadwick Boseman, melhor atriz para Viola Davis (Netflix)

Uma noite em Miami – melhor ator para e melhor ator coadjuvante para Leslie Odom Jr. e melhor canção ( para Odom também)- (Netflix)

Era uma vez um sonho  - melhor atriz coadjuvante para Glenn Close (Netflix)

 Boratmelhor atriz coadjuvante para Maria Bakalova e roteiro (Netflix)

A voz do silêncio – melhor filme, ator para Riz Ahmed e melhor ator coadjuvante para Paul Raci (Prime Vídeo)

Emma – melhor figurino (Telecine/Now/Net)

_________________________________________________________________________

 

Cuidem-se muito !

THE END

(*) Fotos reprodução/divulgação

Tags:
cinema séries beijos de cinema arte cultura séries de TV netflix
Compartilhe: Compartilhe no FacebookCompartilhe no TwitterCompartilhe no Linkedin

Artigos Relacionados

Brígida Poli

Brígida Poli

Jornalista, cinéfila desde criancinha e maníaca por séries de TV desde "Os Sopranos". Não se considera crítica de cinema, pois não consegue deixar o coração de lado na hora de avaliar um filme. Adora falar e escrever sobre o assunto e tenta chamar a atenção para as grandes obras cinematográficas que as novas gerações desconhecem. Concorda com o mestre Federico Fellini quando ele disse que "o cinema é um modo divino de contar a vida".

Comentários

Media Social

Fique por dentro

Receba novidades no seu e-mail!