Novembro 25, 2017

Alice no País das Maravilhas e outras maravilhas

O coreógrafo e diretor Fabricio Callabari com o elenco principal do espetáculo de dança "Alice no País das Maravilhas". 

 

Foi na pequena São Sebastião do Paraíso, cidade no Sul de Minas Gerais, onde Fabricio Callabari nasceu e escolheu ainda criança o futuro artístico. Frequentou aulas, fez apresentações e aos 19 anos já era coreógrafo e professor de balé, jazz e sapateado. A necessidade de aprimorar a sua formação o fez sair de casa cedo. Paralelamente ao curso de educação física no Centro Educacional Claretiano, em Batatais (SP), estudou balé clássico pelo método Bolshoi e aprendeu com grandes mestres, como Steven Harper (sapateado), Toshie Kobayashi (balé clássico), Roseli Rodrigues (jazz) e Caio Nunes (jazz).

Como bailarino, participou de shows, audições, mostras e competições nacionais e internacionais em Minas Gerais, Rio de Janeiro, São Paulo, Santa Catarina – incluindo o Festival de Dança de Joinville – e na Argentina. Em 2009, integrou o corpo de baile do programa “Criança Esperança” e, no ano seguinte, do “Show da Virada”, ambos na TV Globo.

Fabricio desembarcou em Florianópolis em 2012 para ficar. Depois de lecionar em algumas academias, já estava com seu estúdio próprio instalado na Lagoa da Conceição. Hoje, com endereço novo e alunos fiéis no mesmo bairro, prepara a apresentação de seu quarto grande espetáculo de dança, “Alice no País das Maravilhas”, em cartaz dias 7 e 8 de dezembro, no Teatro Pedro Ivo.

 

Em "A Bela e a Fera" (2016), como Lumière         Foto Alinne Volpato


 

 

Você descobriu a paixão pela dança ainda criança, vivendo em uma pequena cidade do interior mineiro. O que fez despertar este sentimento?

Desde muito pequeno eu já mostrava grande interesse pela dança, mesmo sem nunca ter visto nada que me motivasse. Então, notando esta paixão involuntária, meu pai me levou para a primeira aula formal no Balé Flávia Junqueira, onde tive toda a base, respeito e amor que tenho pela dança. Comecei aos 10 anos no sapateado, modalidade que alavancou tudo.


Quando teve certeza de ser esta a tua vocação?

Aos 17 anos. Parei de dançar para cursar administração, mas não estava contente com a decisão. Daí, voltei a frequentar aulas de balé, jazz e sapateado, onde realmente vi que era aquilo que queria para sempre na minha vida.


Você saiu de São Sebastião do Paraíso várias vezes para estudar dança, caso típico do artista brasileiro que não encontra formação ou aperfeiçoamento onde vive. O que poderia ser feito para que o estudo da dança não se tornasse um sacrifício para tantos bailarinos?

Minha cidade não tinha muito apoio para essa modalidade. Acho que falta no Brasil um maior incentivo para a classe artística em geral. Por exemplo, existem pouquíssimas faculdades com curso de formação em dança. Isto dificulta muito quem quer ser seguir a carreira e nos faz buscar onde há o maior auxilio.

 

Fabricio Callabari com o grupo de dança de sua escola que compete em festivais pelo Brasil.  Foto DM Fotografia


 

 

Em 2016, o governo federal sancionou a lei que obriga escolas de educação básica a oferecer dança como disciplina optativa. De modo geral, como isto reflete para donos de escolas, alunos, professores e coreógrafos?

Achei superbacana, pois a dança é um grande meio de propagar a saúde. Para nós, de escolas de dança, é um ótimo incentivo. A partir daí, crianças e jovens podem ser despertadas para a esta arte e procurar uma escola especializada para se aprofundar.


Há uma discussão antiga sobre a obrigatoriedade de um educador físico em escolas de dança. Como vês isto, sendo formado em educação física e professor de dança, que é uma atividade artística?

Como educador físico e artista, acho fundamental que todo professor de dança, seja qual for a modalidade, tenha a obrigação de ter alguma formação, seja educação física ou dança. É impossível lidar com um corpo em formação sem ter o conhecimento do mesmo, tornando-se até muito perigoso frequentar escolas sem profissionais capacitados.

 

 Com Bruna Chiaradia no espetáculo "A Sétima Arte" (2014).  Foto Fabiana Silva


Em Florianópolis você encontrou uma realidade muito diferente no circuito da dança, por estar próxima a Joinville e ter uma tradição no ensino desde a década de 1950. Que pontos positivos e negativos percebeu?

Floripa é um grande polo propagador da dança. Isto é um aspecto muito positivo para o cenário cultural. Já o maior déficit é a falta de apoio e incentivo para espetáculos de arte em geral, o que os deixaria ao alcance de quem não tem acesso à arte e à cultura.


Cerca de cinco meses após se estabelecer na Ilha, aos 23 anos, você abriu a primeira escola na Lagoa da Conceição. Ter uma academia era um desejo ou uma necessidade comum do profissional de dança para sobreviver?

Nunca me imaginei dono de escola e diretor de bailarinos. Foi uma coisa que se tornou realidade involuntariamente. Mas, hoje, vejo que era realmente isto que eu queria para a minha vida. Coreografar e dirigir são minhas grandes paixões. Eu me sinto muito realizado.


Em 2014 você passou a produzir e dirigir um grande espetáculo a cada fim de ano com alunos e artistas convidados. Quais são os desafios para conseguir executar estas montagens?

O maior desafio é conseguir levar um trabalho de qualidade para o palco sem incentivo algum. Faço tudo com recursos próprios, desde a compra de material para cenários, produção, locação, etc. Contudo, não desisto dos meus objetivos, corro sempre atrás com muita garra, sempre tentando fazer o melhor para meus alunos, seus pais e para o público.

 

Interpretando o padeiro da aldeia de "A Bela e a Fera". Foto Alinne Volpato


Suas produções estão cada vez maiores e o público é crescente. Consegue avistar a médio ou longo prazo a cidade como um polo de produção de grandes espetáculos de dança?

Acredito que a cidade tem muito potencial para que isto aconteça, mas devido à falta de apoio e incentivo acho difícil que haja tantos espetáculos de grande produção. Não é algo que donos de escolas estão dispostos a realizar sem um retorno.


Como adaptar histórias tão conhecidas para contá-las com passos de dança? Condensar um conto em coreografias sem perder trechos do enredo ou retirando dele o que não funciona ou não é adequado?

O principal que sempre priorizo é a essência da história. Nunca posso perder o que a história tem de principal, toda a magia tem de ser mantida. Partindo daí, sempre pego temas que são de fácil aceitação do público e que seja bem compreendido. Assim, trazendo para a realidade da escola.

 

Fabricio, à frente, de camisa rosa, no encerramento de "Cinderela" (2015), seu primeiro grande espetáculo. Foto Alinne Volpato

 


Geralmente, seus espetáculos compreendem mais de 20 coreografias, sendo que sempre assinas quase todas elas e danças em poucas. No novo, “Alice no País das Maravilhas”, estarás mais presente no palco?

É o ano em que mais estarei presente no palco. Na verdade, vou me envolvendo nas coreografias, me apaixonando e quando vejo já estou inserido em várias (risos). Acho que por ser uma coisa que amo muito fazer, não consigo me desvincular, mesmo que eu às vezes tente.


Que novidades “Alice” te trouxe nestas funções de coreografar, dirigir, criar roteiro, figurinos e cenários? E o que o público verá de diferente das montagens anteriores?

Desta vez é uma história menos romântica e mais ousada. “Alice” me deu muita liberdade de criação, por ser um tema mais amplo. Coloquei vários elementos diferentes em cima do palco, como figurinos mais elaborados e cenários mais divertidos. Isto trará uma atmosfera mais divertida. As caracterizações dos personagens estão muito ricas e bem fiéis ao tema. Creio que irá surpreender o público.

 

Além de coreografar e dirigir seus espetáculos, Callabari confere todos os detalhes de cenário e elenco. Foto Crsitina Gallo


 

 

Toma lá dá cá
 

Onde sonha dançar: Teatro alla Scala (Milão)

Fonte de inspiração: meus alunos

Com quem gostaria de dividir o palco: Roberto Bolle (bailarino italiano)

Faz sempre antes de entrar em cena: corrente de energia

Maior emoção da vida: meu primeiro grande espetáculo (“Cinderela”)

A cor que faz vibrar: verde

Não vive sem: a dança

 

 

*Foto_MG_5808: Além de coreografar e dirigir seus espetáculos, Callabari confere todos os detalhes de cenário e elenco. CRÉDITO: CRISTINA GALLO/DIVULGAÇÃO

*Foto DSC_7350: Fabricio Callabari com o grupo de dança de sua escola que compete em festivais pelo Brasil. CRÉDITO: DM FOTOGRAFIAS/DIVULGAÇÃO

*Foto Fabricio Callabari (13): Com Bruna Chiaradia no espetáculo "A Sétima Arte" (2014). CRÉDITO: FABIANA SILVA/DIVULGAÇÃO

*Foto Cinderela – espetáculo (26): Fabricio, à frente, de camisa rosa, no encerramento de "Cinderela" (2015), seu primeiro grande espetáculo. CRÉDITO: ALINNE VOLPATO/DIVULGAÇÃO

*Foto A Bela e a Fera - palco (23): Em "A Bela e a Fera" (2016), como Lumière. CRÉDITO: ALINNE VOLPATO/DIVULGAÇÃO

*Foto A Bela e a Fera - palco (11): Interpretando o padeiro da aldeia de "A Bela e a Fera". CRÉDITO: ALINNE VOLPATO/DIVULGAÇÃO

 

 

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Yula Jorge

Yula Jorge
Jornalista graduada pela UFSC. Antes disso estudou e viveu quatro anos entre o Canadá e os Estados Unidos e quando retornou a sua terra natal, Goiânia, graduou-se pela PUC em Secretariado Bilíngue. 
Logo mudou-se para Florianópolis, ingressou na Universidade Federal, e da ilha não saiu mais. Atua como colunista desde 2012, assinou uma coluna diária no jornal Notícias do Dia por alguns anos, e, paralelamente, foi repórter da RICTV Record e Record News. Traz todos os dias o que rola de especial em Floripa: sobre quem acontece, empreende, se engaja em causas legais. O que inaugura, as festas bombásticas, as melhores casas, restaurantes, os shows, as ações bacanas e o voluntariado.

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