Junho 11, 2021

Antes que seja tarde

Antes que seja tarde
O ator Karra Elejalde como Miguel Unamuno

Acabei de ver Até que a guerra termine, filme que mostra um recorte da vida do escritor, poeta, filósofo, dramaturgo e ensaísta, Miguel de Unamuno. Considerado um dos maiores autores em língua espanhola, Unamuno teve forte participação em vários momentos da vida política da Espanha. Defensor de ideias republicanas, seus artigos críticos ao rei Afonso XII , o levaram à deportação para as Ilhas Canárias, em 1924.

Com a proclamação da república, em 1931, Unamuno voltou à Espanha e reassumiu a função de reitor da Universidade de Salamanca. Acabou apoiando o golpe militar que colocou o general Francisco Franco no poder. Logo, o pensador percebeu o erro de participar de um regime sanguinário que, de cara, assassinou seus dois melhores amigos. As pessoas eram retiradas de casa e executadas sem julgamento,  simplesmente até por serem maçons. As bases do regime eram definidas pelo catolicismo e o anticomunismo.

Longe de mim querer traçar um retrato profundo do contexto em que tudo aconteceu. O Miguel real e seu envolvimento com a política são por demais complexos. Me restringirei apenas ao personagem mostrado por Alejandro Amenábar, diretor também do oscarizado Mar Adentro e do ótimo Os outros. É bom que se diga que o filme sofreu muitas críticas dos espanhóis pela falta de rigor histórico.

O que mais me tocou na trama foi o dilema de Unamuno, depois de tentar ignorar o horror à sua volta, se encolher de medo quando ameaçado pelo violento general Millán-Astray - eminência parda do governo franquista - e manter-se como reitor mesmo às custas de ser obrigado a endossar os desmandos do ditador. Para coroar sua culpa, o escritor foi forçado a comparecer ao abominável “Dia da Raça”, realizado no auditório da Universidade de Salamanca. Lá os franquistas conclamavam o fuzilamento  de todos considerados  “antiespanhóis”, como os catalães, bascos e marxistas. Aliás, o próprio Unamuno era de origem basca.

Os discursos fascistas na celebração foram a gota d´água para Miguel de Unamuno. Mesmo sabendo dos riscos, o ensaísta foi à tribuna para defender a democracia , afirmando que “na maioria das vezes, ficar calado é como mentir, porque o silêncio pode ser interpretado como confirmação”. “Este é o templo da inteligência, e eu sou seu sumo sacerdote”, começou ele. Dirigindo-se aos militares falou que eles venceram pela força bélica e sanguinária, mas “vencer não é convencer, e não pode convencer o ódio que não dá lugar à compaixão”. Enquanto isso, o odioso general Millán-Astray o interrompia para gritar: “Viva a morte! Abaixo a inteligência!”. O escritor foi afastado da reitoria e passou seus últimos dias de vida em prisão domiciliar.

Jamais saberemos se Unamuno ficou em paz com sua consciência. Talvez  tenha se dado conta que sua manifestação contra o fascismo chegou tarde demais.  Ele morreu no dia 31 de dezembro de 1936, dois meses após o “Dia da Raça”. Foi poupado de ver Franco - que prometera ficar no comando só até o final da guerra civil, em 1939 - perpetuar-se no cargo até sua morte em 1975. Apesar da Espanha ter optado pelo esquecimento voluntário durante a transição democrática, parentes de mortos na ditadura começaram a descobrir valas coletivas. Outros milhares de famílias jamais encontraram os corpos de seus entes queridos desaparecidos naquele período.

O gesto e o discurso de Unamuno renderam análises profundas ( algumas divergentes, pois ele falou de improviso e não houve registro). Já a minha “moral da histórica” é básica: reaja, antes que seja tarde!

(Brígida De Poli)

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Ficha técnica

Enquanto a guerra durar ( Mientras dure la guerra) – direção: Alejandro Amenábar - 2019 – HBO/Now – Elenco: Karra Elejalde (Unamuno); Eduard Fernandez ( José Millan-Astray)

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Conhecendo um pouco o pensamento de Dom Miguel de Unamuno

*É inútil querer discutir e tirar de alguém as suas ideias; as pessoas não querem deixar-se convencer; o melhor é deixá-las.

*Há muitos, muitíssimos leitores que não gostam de que se os obrigue a pensar, e que querem que se lhes diga o que já sabem, o que já têm pensado.

*Compadeça-se quem manda de quem obedece, e de si mesmo se compadeça por ter que mandar.

*A liberdade é um bem comum, e se todos não desfrutam dela, não serão livres nem os que se julgam como tal.

*O que as pessoas fascistas odeiam acima de todas as coisas, são pessoas inteligentes.


Foto: Casa Museo Unamuno

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DICAS

Nesta edição relembramos o tempo em que a coluna era temática. Já que começamos com Miguel Unamuno, vamos continuar na literatura e seus criadores.

 

Séries

Isabel – 3 episódios – Prime Vídeo

A minissérie é um retrato pessoal da autora de língua espanhola mais lida do mundo, Isabel Allende. Filha do primo do presidente Salvador Allende, presidente deposto no Chile, após o golpe militar de Augusto Pinochet, Isabel viveu em vários lugares. A série mostra o começo de sua carreira no jornalismo,  seus amores, o drama enfrentado com a doença e morte da filha, Paula  e a militância da escritora pela defesa dos direitos humanos .

 

Neruda – 4 episódios – direção: Pablo Larraín - Fox Premium/Now – 2016

A minissérie sobre Pablo Neruda é uma ampliação do filme de mesmo nome e mostra a jornada do grande poeta chileno para escapar da perseguição política em seu país, em 1948. Neruda, mesmo sendo senador na época, foi obrigado a fugir com a mulher e aliados por causa do decreto mandando prender esquerdistas. Na Europa, o pintor Pablo Picasso se encarregou de denunciar ao mundo a perseguição a Neruda e deu abrigo ao amigo. Foi no exílio que Neruda acabou escrevendo o melhor volume de seu livro "Canto Geral".

Pablo Neruda é vivido pelo ator Luis Gnecco que aprecio desde o seu trabalho na série policial"Prófugos", onde interpreta o bandido Moreno, um dos tipos mais asquerosos que já vi na tela. O nome mais conhecido do elenco é o de Gael Garcia Bernal, no papel do policial encarregado de prender o poeta. A direção é do também chileno Pablo Larraín, considerado um dos cineastas latino-americanos mais importante da atualidade. 

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Filmes

Gabo- a criação de Gabriel Garcia Márquez – direção: Justin Webster – Netflix

Muito interessante conhecer o início da carreira  do colombiano Gabriel García Márquez e como ele se tornou um dos maiores escritores do mundo. O documentário mostra sua atividade como jornalista, as negativas que recebeu como romancista até chegar ao sucesso com “Cem Anos de Solidão”, um marco do realismo mágico, e receber o Nobel de Literatura. Há depoimentos de leitores famosos, fãs da obra de Márquez, como o ex-presidente americano, Bill Clinton.

 

As irmãs Brontè – direção: Sally Wainwright – 2016 – Looke

O filme conta a história das três irmãs mais famosas da literatura inglesa e, também, de seu irmão, Branwell.  Emily, Charlotte e Anne Brönte criaram alguns dos maiores clássicos da literatura, "O Morro dos Ventos Uivantes", "Jane Eyre", "Agnes Grey", numa época em que às mulheres era dada apenas a perspectiva de casar e cuidar dos filhos. O longa, primeiro da diretora, reflete sobre gênero e arte ao mostrar o contraste entre elas e o irmão,

No elenco, Finn Atkins (Charlotte), Chloe Pirrie (Emily), Charlie Murphy (Anne), Adam Nagaitis (Branwell) e Jonathan Pryce (o pai).

Obs: Há outra versão da história das Brönte, mas apesar do elenco maravilhoso, que inclui Isabelle Hupert e Isabelle Adjani,  gosto mais do filme da Sally Wainwright.

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BÔNUS

Volta ao mundo Espanha – 16/06 – Cine Belas Artes à la carte

Doze produções espanholas estão no Volta ao Mundo, desde clássicos como “Cria Cuervos” e “O Espírito da Colméia”, ambos de Carlos Saura; “Viridiana”, de Luis Buñuel; até títulos como “ Maria (e os outros)”, de 2016 e  “ O segredo de seus olhos”, do argentino Juan José Campanella, de 2009, a famosa produção co-argentina.

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THE END

(*) Fotos reprodução/divulgação

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Brígida Poli

Brígida Poli

Jornalista, cinéfila desde criancinha e maníaca por séries de TV desde "Os Sopranos". Não se considera crítica de cinema, pois não consegue deixar o coração de lado na hora de avaliar um filme. Adora falar e escrever sobre o assunto e tenta chamar a atenção para as grandes obras cinematográficas que as novas gerações desconhecem. Concorda com o mestre Federico Fellini quando ele disse que "o cinema é um modo divino de contar a vida".

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