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quinta-feira, 7 julho, 2022

Arte e política como ação

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Juliana Crispe, professora, pesquisadora, arte educadora, artista visual e curadora, representou recentemente o Espaço Cultural Armazém – Coletivo Elza para receber da Câmara Municipal de Florianópolis a Medalha de Mérito Virgílio Várzea, o reconhecimento de um trabalho realizado no bairro Sambaqui desde 2016. O lugar mantém as portas abertas à comunidade como proposta de um local agregador, um organismo vivo e ativo de atividades múltiplas.

Além da gestão coletiva feminina, o portfólio de Juliana aponta um rol expressivo de curadorias que ajudam a pensar a produção de arte contemporânea em Santa Catarina. Desde 2007, ela realiza exposições em diferentes cidades do Estado. Totalizadas, em ampla envergadura geográfica, ultrapassam uma centena, o que não é pouco.

Nascida em Florianópolis, doutora em educação, mestre e graduada em artes visuais, é hoje uma das pessoas mais influentes das artes visuais em Santa Catarina. Em amplas conexões na cidade, o Estado e o País, participa de conselhos e comissões de editais de artes visuais no Estado e no País, membra do conselho deliberativo do Museu de Arte de Santa Catarina (Masc) e da Associação Brasileira de Críticos de Arte (ABCA), destaca na carreira curatorial a parceria com a Galeria Choque Cultural (SP) e a 14ª Bienal Internacional de Arte Contemporânea de Curitiba (PR), cuja atuação rende o prêmio de Jovem Curadora em 2019.

Neste momento, está envolvida com a curadoria geral e de montagem do 11º Salão Nacional Victor Meirelles, promovido pelo Masc. A data de abertura será divulgada em breve aqui na coluna.

[media-credit name=”Foto Francine Goudel” align=”alignnone” width=”300″][/media-credit]

Como curadora independente, segue com atenção, desde 2019, as inquietações do joinvilense Sérgio Adriano H, apresenta-o em Curitiba e São Paulo, agora em Florianópolis e Joinvill, onde assina “Ressoar”, na Galeria Municipal de Artes Pedro Paulo Vecchietti, curadoria partilhada com Vento B. Lima e Francine Goudel, e a mostra “Ser Negro”, na Galeria Municipal de Arte Victor Kursancew, em Joinville.

Nesta entrevista, feita com o apoio da jornalista Néri Pedroso, o pensamento de Juliana se abre para analisar diferentes facetas em torno dos trabalhos de Sérgio, de ativismo e afetividade, dos desafios da prática curatorial e da própria trajetória neste campo de saber.

 

[media-credit name=”Foto Sergio Vignes” align=”alignnone” width=”200″][/media-credit]

 

“Ser Negro” é a sua terceira curadoria em torno da produção do artista joinvilense Sérgio Adriano H. Que avanços há na produção do artista e no seu pensamento curatorial entre 2022 e 2019, quando ocorrem as exposições na 14° Bienal Internacional de Arte Contemporânea de Curitiba (PR) e a Galeria Choque Cultural, São Paulo (SP)?

Juliana Crispe – Sim, tiveram essas duas exposições e mais uma virtual (também pela Choque Cultural, galeria que agora o representa) que me fizeram mergulhar nas obras do Sérgio, estudá-las e acompanhar seus processos.  Ele é um artista que trata de seu trabalho com muito profissionalismo e seriedade. Nesses três anos, até chegar na exposição “Ser Negro”, ele expôs em distintos lugares, ganhou mais espaço no cenário nacional, entrou em acervos importantes no território brasileiro. Mergulhou cada vez mais em sua produção, pensando novas formas de materializar as obras e pensamentos, em construir uma trajetória que pensa nas relações entre os espaços (exposições para a rua, o espaço urbano e para as instituições).

Ao se apropriar das narrativas ditas legitimas de nossas histórias, de imagens, livros, Sérgio deu novas camadas em sua pesquisa, fez aprofundamentos conceituais e também de materialidades. Se apropria das histórias ditas “sistemas das verdades” para contestar o que foi ocultado, escondido, velado. Há trocas fundamentais entre o papel da curadoria e o artista, aprender sobre, estudar, ter uma escuta atenta, falar o que o artista quer dizer e não criar uma ficção sobre as obras, orientar, desorientar. Quando o artista e o curador permitem-se a essas trocas, ambos saem mais potentes desses encontros. Trazer o discurso ativista é algo importantíssimo, assumir a fala, os espaços e o desejo de mudança para tudo o que nos oprimi e diminui.

 

Como é possível “ler” a produção e a trajetória de Sérgio Adriano H à luz da tradição de Joinville, onde ele nasceu, cidade que no passado lutou pela hegemonia cultural do Estado, com um sólido movimento artístico? O que há de igual ou diferente neste contexto?

Juliana – Sim, Joinville foi um importantíssimo espaço na cultura do Estado. Vejo ainda como um espaço de desejos e de encontros. Há muitas conexões, o que falta é investimento na cultura, processos de formações contínuas pelo Estado. Sérgio começa sua formação em artes muito próximo à minha, comemoramos 20 anos na área. Vejo o desejo incomum de que a arte catarinense rompa fronteiras, que ganhe muitas camadas, olhares e valorizações. Ele tem um olhar para as redes, a coletividade, os afetos na arte. Não segue sozinho, e em sua caminhada, há generosidade e quer sempre estar e ajudar o outro. Nesse sentido, ele luta por grupos, coletivos, e também para que mais artistas negros sejam vistos e reconhecidos no Estado. Mesmo focando em sua carreira individual, sempre está disponível a fortalecer o circuito.

 

Como situa o Sérgio no circuito de arte de Santa Catarina e do Brasil?

Juliana – Como já disse, Sérgio tem sido um artista atuante no cenário nacional, com exposições e obras em acervos importantes. Tivemos outros artistas negros importantíssimos na arte catarinense, temos Tercília dos Santos, Valda Costa. Temos tantos outros em construção de carreira, como Felipe Costa, Gugie. É bonito ver que Sérgio se tornou uma referência para os jovens artistas negros de SC e para tantos outros que pensam arte e política como ação de nossos tempos.

Pensar nos alcances, inevitavelmente é perceber o quanto ele investe em sua carreira artística, encara tudo com profissionalismo, com desejo de mudanças e sem passar por cima da ética artística, tão necessária sempre.

 

De modo urgente hoje há um consenso sobre a necessidade de superar os vácuos detectados na história da arte e nos acervos das instituições museológicas em que sobressaem apagamentos de gênero e afrodescendentes. Apesar do esforço, há ainda um vagar no que se refere a uma incorporação de práticas mais igualitárias. Quais os perigos de que tudo não seja movido apenas por interesses mercadológicos? Como vê a questão?

Juliana – Acredito que não voltaremos atrás a tudo que tem sido conquistado. Fala-se sobre “modismos”, mas quanto luta se tem de muito tempo? Não é de agora! Talvez tenhamos maior visibilidade agora das lutas por conta de todos os dispositivos tecnológicos. Mas as lutas sempre existiram. Sobre maior alcance em acervos, exposições, museus, apesar do crescimento, ainda é muito pouco! Quando levantamos as coleções particulares, as obras que estão em acervos, ainda, temos em maior número de uma classe que sempre foi dominante. Os homens brancos ainda dominam os espaços de coleções e acervos. A luta não é de agora, a luta está em potência no agora, a luta ainda deve continuar. Ouvi do Sérgio a seguinte frase: “Quero um dia chegar no conforto de poder quem sabe fotografar nuvens, como muitos artistas. Até que ainda haja a necessidade de olhar para a arte como política, como reivindicação, continuarei a produzir obras que falem sobre racismo, sobre histórias tomadas… Enquanto for preciso, é dever de todos (es) reivindicar os espaços e lutar juntos (es).

 

O que é o mais complicado numa atuação tão ampla quanto a sua: curadora, pesquisadora, professora, arte educadora e artista visual. Algo te mobiliza mais? Quais os cuidados que toma para aproximar e dissociar atuações? Precisa dissociar? Quando?

Juliana – Eu não consigo mais pensar em mim como isso ou aquilo, sou atravessada por toda essa formação e acho que tudo potencializa o que tenho feito. Minha paixão é ser professora. Quando entrei no curso de artes plásticas (nomenclatura antiga) nos primeiros semestres desejei ser artista-professora. E, ser uma curadora-artista também me deu uma amplitude e um cuidado, escuta para com os artistas. Eu carrego o etc de Ricardo Basbaum comigo, sempre o carreguei em minha formação, pois, sou como sou por ser atravessada, contagiada por tudo. Não consigo e nem quero me dissociar disso tudo. Não agora pelo menos.

 

Você tem lamentado a falta de noção de coletividade no circuito artístico. A que se deve e como seria possível contornar o fato?

Juliana – É muito difícil ter em nós a amplitude genuína da coletividade, da horizontalidade. Nascemos numa visão de mundo de que tem gente que manda e outras que obedecem. Para mim, a coletividade deve ter em si uma troca genuína, não sem sistemas, sem organicidades, mas de uma escuta atenta ao outro, de respeito as diferenças, de um se rever constante. Ainda somos muito cheios de saberes, carregados de individualidades e adoramos apontar o dedo. Não só nas artes. O sistema em que vivemos nos empurra para isso a todo o momento. Não há gratidão, reconhecimentos, há competições… Não tenho receitas para contornos, mas vejo que isso se dá pela minha origem, de alguém criada em comunidade, de alguém com uma vida muito singela que descobriu nas artes um abrir de mundos. Carrego para as artes muito da minha infância, adolescência e juventude. De um olhar para o outro e para baixo demorado; de um transver; de muitas vezes dar valor para as coisas ditas desimportantes, como diria o poeta Manoel de Barros.

 

Qual o trabalho de Sérgio que gostaria de ter na parede de sua casa?

Juliana – No momento, o “Ser Negro” (2022), a obra em que aparece a palavra Abençoado.  Estamos precisando de muitas bênçãos.

 

Ping Pong

O que você não fica sem: Lia

O que mais admira: são tantas coisas, mas honestidade é uma palavra cara e parece se diluir muito nos dias de hoje…

O que abomina: o desgoverno que estamos vivendo

Um lugar no mundo: Lagoa do Peri – Florianópolis

Uma saudade: minha vó

Artista preferido: (sempre muda…, no momento, Valda Costa), mas Louise Bourgeois é uma paixão antiga

Palavra: esperançar

Uma frase: Reconhecer os próprios privilégios é o primeiro passo para entender as desigualdades sociais e lutar contra elas (De um trabalho da artista Fernanda Grigolin)

Um ídolo: sou difícil nisso, mas a cantora Elza Soares é uma força no mundo muito importante para minha história em coletivo! Viva Elza!

Um livro: “A Guerra Não Tem Nome de Mulher”, de Svetlana Aleksiévitch

Grande momento: a abertura da exposição do Sérgio em Joinville, em 10 de março de 2022

Na pandemia eu…  perdi pessoas próximas

Sonho: que o Brasil mude os rumos em que se encontra. Esperançar

 

SERVIÇOS

O quê: Exposição “Ser Negro”

Quando: Prorrogado até 29.4.2022. Seg. a sex., 10h às 16h

Onde: Casa da Cultura Fausto Rocha Junior, Galeria Municipal de Arte Victor Kursancew, rua Dona Francisca, 800, bairro Saguaçu, Joinville, tel.: (47) 3433-2557

Quanto: Gratuito

 

O quê: Exposição “Ressoar”

Quando: 8.4. a 27.5. 2022

Onde: Galeria Municipal de Arte Pedro Paulo Vecchietti, praça 15 de Novembro, 180, Centro, Florianópolis

Quanto: Gratuito

 

 

Yula Jorge
Jornalista graduada pela UFSC. Antes disso estudou e viveu quatro anos entre o Canadá e os Estados Unidos e quando retornou a sua terra natal, Goiânia, graduou-se pela PUC em Secretariado Bilíngue. Logo mudou-se para Florianópolis, ingressou na Universidade Federal, e da ilha não saiu mais. Atua como colunista desde 2012, assinou uma coluna diária no jornal Notícias do Dia por alguns anos, e, paralelamente, foi repórter da RICTV Record e Record News. Traz todos os dias o que rola de especial em Floripa e Santa Catarina: sobre quem acontece, empreende, se engaja em causas legais. O que inaugura, as festas bombásticas, as melhores casas, restaurantes, os shows, as ações bacanas e o voluntariado.
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