Janeiro 16, 2021

Ativista da arte e da cultura

Ativista da arte e da cultura
Em sua biblioteca, onde está instalado seu home officer - Foto Rosane Lima

Formada em comunicação social/jornalismo pela Universidade Federal de Santa Maria (RS), Néri Pedroso vive e atua em Florianópolis há mais de três décadas, desde 1988. Diretora da NProduções, tem vasta experiência em jornalismo cultural e na implantação de projetos jornalísticos.

Editou o caderno Anexo, do jornal “A Notícia” (1989/93 e 2000/05), criou, implantou e editou o caderno Plural no “Notícias do Dia” (2008-11) e é autora dos livros “Hassis” (Tempo Editorial) e “Coletiva de Artistas de Joinville: Construção Mínima de Memória” (Fund. Cultural de Joinville) e de “Superlativa Marina” (Instituto Juarez Machado).

Em dezembro, lançou “Associação Pró-Música e Darcy Brasiliano dos Santos - Construção Coletiva de Sentidos” (Editora Bernúncia), projeto realizado pela Rede Markentig Cultural.

Assinou artigos em livros, como “Tubo de Ensaio – Composição [Interseções + Intervenções]”, “Construtores das Artes Visuais – Cinco Séculos de Arte em Santa Catarina Vol. 1” (Tempo Editorial) e “Percurso do Círculo – Schwanke Séries, Múltiplos e Reflexões” (Contraponto).

Ao lado de Maria Regina Schwanke Schroeder e Rosângela Cherem, organizou o livro “’Interlocuções Possíveis: Kosuth e Schwanke’” (Instituto Schwanke).

Integra a Associação Brasileira de Críticos de Arte (ABCA), a Academia Catarinense de Artes e Letras (Acla) e, como sócia-fundadora, faz parte da diretoria do Museu de Arte Contemporânea Luiz Henrique Schwanke/Instituto Schwanke, em Joinville. Atualmente atua como vice-presidente e integra o conselho curatorial da instituição.

Aqui, um pouco mais sobre a trajetória dessa mulher apaixonada, dedicada, multidisciplinar e singular.

 

Sempre engajada

No primeiro emprego, em meados dos anos 1980, no jornal A Razão, em Santa Maria

 

Você acaba de lançar “Associação Pró-Música e Darcy Brasiliano dos Santos - Construção Coletiva de Sentidos” (Ed. Bernúncia), que analisa esse legado no campo da cultura de Santa Catarina. Como se constituiu o processo de criação e, afinal, quem é Darcy Brasiliano dos Santos?

Néri Pedroso – Seu Darcy superou barreiras estéticas, culturais e financeiras, e também a falta de espaços físicos e a lógica comercial da produção artística em Florianópolis. Ao lado de 22 pessoas, criou em 1973 a Pró-Música, instituição que presidiu por 40 anos e transformou a vida cultural da cidade.

Uma pessoa extraordinária, um homem contemporâneo, de cabeça aberta, cujos olhos ainda brilham quando fala de música. Sua atuação remete ao filme “Fitzcarraldo”, dirigido por Werner Herzog nos anos 1980 em que o personagem interpretado por Klaus Kinski move montanhas para construir uma casa de ópera no meio da floresta amazônica.

 

Refinando sentidos   Foto Arquivo Pró Música

Seu Darcy é o nosso Fitzcarraldo, porque nos anos 2000, junto a expressivos músicos, compositores e cantores produziu nove óperas, algumas das quais contaram com uma ficha técnica de cerca de 300 pessoas. Há muito a aprender com alguém distanciado do egocentrismo endêmico da atualidade, capaz de focar no seu intento que é o de refinar sentidos e sensibilidades, oferecendo música, canto coral e dança, numa mistura de estilos.

Na sua humildade de homem nascido em 1924 na Vargem Grande, no interior de Florianópolis, cumpre como um ativista sua missão e poder de transformação de uma sociedade por meio da arte e da cultura. Ele insere a Ilha e o Estado em outro patamar, cria autoestimas, estabelece conexões nacionais e internacionais.

Para ele, a Pró-Música foi uma experiência física e espiritual. Afirmo que ele é um precursor, um pós-moderno que aproxima o erudito do popular, o local com o nacional, o nacional com o internacional.

 

Capa do livro lançado em 9 de dezembro

No ajuste dos termos à atualidade, penso nele como um produtor cultural com todos os atributos necessários para a função, ou então, um artista-etc., conceito firmado pelo artista e pesquisador Ricardo Basbaum, situando-o como alguém que cria, pesquisa, escreve, faz curadoria, arquiva, produz, agencia, media, enfim alguém que faz de tudo um pouco num plano de conexão profunda entre a arte e a vida.

 

Você conquistou recentemente o Edital de Reconhecimento de Trajetórias com nota máxima na categoria de Literatura, Livros e Leitura. Curioso, porque você nunca se diz escritora e sim apenas jornalista. Você que sempre atuou no jornalismo cultural como situa a importância deste reconhecimento?

NP - Sim, é verdade. Embora possamos na atualidade assumir múltiplos papeis no exercício profissional, afirmo sempre o ofício. Poderia me afirmar como escritora, pesquisadora ou editora, função que exerci nas redações e ainda sigo exercendo, mas me sinto jornalista, por mais falível que possa ser a profissão diante da falência de sua credibilidade no tempo contemporâneo.  

Lembro que as generalizações são inadequadas e que o mundo estando em crise, tudo está em crise. Não é a única categoria profissional que sofre o problema: os médicos e os representantes do Judiciário, para citar só dois exemplos entre inúmeros outros, enfrentam o mesmo embate.

O jornalismo é meu ofício, que exerço com paixão e entrega, com a crença de que é possível, quando sério, construir cidadania num campo que não se reduz apenas à mídia hegemônica.

Hoje há no Brasil inúmeras experiências de jornalismo independente, comunitário, literário, que se opõem aos modelos opressores e apostam na defesa da soberania da comunicação popular, dos direitos humanos e da cultura.

Ainda sobre o edital, pensei inicialmente em me inscrever numa atuação de jornalismo cultural, que considero um dos elos do complexo sistema de cultura. Mas lamentavelmente o edital não abre essa categoria, o que demonstra de certo modo uma insensibilidade com relação à importância do jornalismo como um dos legitimadores da produção artística.

Essa compreensão é tênue no pensamento de muitos artistas e sobretudo dos gestores públicos. Embora a Fundação Catarinense de Cultura (FCC) valorize a assessoria de imprensa nos projetos contemplados pelos editais, há pouca transparência na sistematização de dados sobre os retornos em mídia espontânea.

Basta ver que o próprio site do governo do Estado é refratário na divulgação dos resultados dos editais no campo da cultura. O que se divulga ali, por exemplo, sobre o andamento dos projetos?  O governo investe, mas não substancializa para si mesmo o valor do próprio investimento, algo incompreensível.

 

Inspiradora

Néri por Rodrigo de Haro - 1 Out. 2012 

 

Apesar de estar fora do jornalismo diário, você nunca parou de produzir. Como situa hoje a sua atividade profissional?

NP - Tenho falado em campo expandido do jornalismo cultural que não se dá apenas nos impressos, jornais e revistas, ou em plataformas digitais. Sigo atuante, inserida em projetos que resultam em livros, escrevendo para o site ArqSC, de Simone Bobsin, e para a revista “Francisca”, publicação impressa criada em Joinville por um grupo de jornalistas e hoje editada por Ana Ribas Diefenthaeler e Guilherme Diefenthaeler.

Atendo também artistas visuais e da dança contemporânea e tenho uma atuação em gestão institucional, sou vice-presidente e conselheira curatorial do Museu de Arte Contemporânea Luiz Henrique Schwanke/Instituto Schwanke.

 

Celebrando a arte   Foto Paulo de Araújo 

Em Joinville, como presidente do MAC/Instituto Schwanke recebeu em 2013, junto com a diretoria, o artista Joseph Kosuth. A conferência do importante convidado marcou os dez anos da instituição

 

Uma notícia boa para 2021 é a retomada do Festival Internacional de Dança Contemporânea – Múltipla Dança. Depois de uma interrupção por falta de recursos, o Edital Elisabete Anderle 2020 permitirá realizá-lo de novo. Qual é o seu papel na equipe? O que é possível antecipar sobre o evento?

NP - Sim, é uma conquista que renovou nosso ânimo nesses tempos de pandemia sobretudo pela importância do festival que, embora modesto, alcança significado por uma programação que ajuda a refinar o pensamento e a criação em torno da dança contemporânea.

Sou assessora do projeto e uma das integrantes do que chamamos de conselho de articuladoras. A última edição ocorreu em 2017, depois por falta de recursos não conseguimos mais produzir o evento que tem como diretoras Jussara Xavier e Marta Cesar.

Naquela ocasião, o festival ainda foi produzido pela saudosa Neiva Ortega (1951-2018), a nossa homenageada no e-book “Dez Anos de Encontro” que será lançado em março e que documenta o Festival Múltipla Dança. Organizado por Jussara e Marta, reúne 18 artigos assinados por nomes expressivos da dança contemporânea brasileira.

 

O que prevê a sua agenda de trabalho para 2021?

NP - O desmantelamento do Ministério da Cultura e a desativação de mecanismos deste universo afetaram bastante a minha atividade sobretudo em 2020, ao que se associou a pandemia.

Tenho agendado o trabalho no Festival Múltipla Dança, o livro e o festival, um projeto com Franzoi e outro com Sérgio Adriano H., duas representações importantes das artes visuais de Joinville (SC).

Desde o ano passado, eu e Franzoi estamos envolvidos na organização do seu acervo (documentos, fotografias, correspondências, comprovações em impressos de exposições individuais ou coletivas, instalações ou performance, bem como análise de currículo) – um produto que defino na NProduções, meu CNPJ, como construção mínima de memória.

Com o Sérgio, com quem trabalho há algum tempo, iremos realizar o projeto Palavra Tomada, aprovado pelo edital Elisabete Anderle 2019 que prevê dez intervenções urbanas. Com curadoria de Rosana Paulina, a ação ocorrerá nos muros externos das instituições Fundação Cultural Badesc, em Florianópolis, no Museu de Arte de Blumenau (MAB), em Blumenau, na Associação dos Artistas Plásticos de Jaraguá, em Jaraguá do Sul, e na EEB. Prof. Germano Timm, em Joinville.

O artista também vai ocupar seis praças: a Coronel Bertaso, em Chapecó, a Getúlio Vargas, em São Francisco do Sul, a Hercílio Luz, em São José, a da Catedral, em Lages, a Nereu Ramos, em Criciúma e o calçadão da Hercílio, em Itajaí.

Sérgio é na atualidade o artista que melhor articula sua produção com todos os eixos do sistema de artes visuais de Santa Catarina e do Brasil. É também dono de uma poética de guerrilha contra o racismo estrutural que tem chamado muita atenção neste momento no país.

 

Quando volta com a coluna Mosaico, no jornal Notícias do Dia? Há uma possibilidade de retorno?

NP - Em se tratando do meu relacionamento profissional com Luís Meneghim, diretor de conteúdo do conglomerado de comunicação ND, creio que sempre há a possibilidade de retorno.

Trabalhamos juntos desde o fim dos anos 1980, no jornal A Notícia. Na verdade, quase voltei com uma nova coluna no começo de 2020, mas a pandemia e dificuldades de ordem pessoal brecaram o projeto.

Temos vontade de criar um novo espaço, uma coluna semanal, quem sabe? Sou fascinada por conteúdo impresso, onde a criação alcança melhores resultados gráficos.

Torço para que possamos concretizar o intento, neutralizando minimamente as dificuldades que os artistas enfrentam para divulgar arte e cultura.

Não foi só o MinC que desapareceu, mas também as páginas dos impressos voltadas à cultura, o que ajuda a explicar de certo modo o caos em que estamos mergulhados no Brasil, cercados de incongruências de toda ordem, com pessoas de baixo discernimento e sensibilidade.

A arte e a cultura são transformadoras, é urgente criar novos canais para a sua divulgação.

 

Feedback

O que você não fica sem: livros.

Uma mania: alinhamentos.

O que mais admira: inteligência.

O que abomina: hipocrisia, falsidade.

Um lugar no mundo: onde houver arte.

Uma saudade: meu pai com saúde.

Um hobby: jardinagem, na casa dos meus pais.

Uma bebida: caipirinha.

Uma comida: culinária japonesa, árabe e indiana.

Palavra: alecrim.

Uma frase: “A simplicidade é o último grau de sofisticação” – Leonardo da Vinci.

Um ídolo: escritor Salim Miguel (1924-2016) – por sua literatura e humanidade. Generoso, amável, inteligente, um contador de histórias como poucos. Tenho saudade dele.

Melhor viagem: nos anos 1990, Nova York, com meu amigo Dagoberto Bordin.

Na pandemia: descobri o tamanho de minha resiliência.

Sonho:  o Brasil com mais justiça social, com menos excluídos. Sonho com um país sem fome.

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Yula Jorge

Yula Jorge
Jornalista graduada pela UFSC. Antes disso estudou e viveu quatro anos entre o Canadá e os Estados Unidos e quando retornou a sua terra natal, Goiânia, graduou-se pela PUC em Secretariado Bilíngue. 
Logo mudou-se para Florianópolis, ingressou na Universidade Federal, e da ilha não saiu mais. Atua como colunista desde 2012, assinou uma coluna diária no jornal Notícias do Dia por alguns anos, e, paralelamente, foi repórter da RICTV Record e Record News. Traz todos os dias o que rola de especial em Floripa: sobre quem acontece, empreende, se engaja em causas legais. O que inaugura, as festas bombásticas, as melhores casas, restaurantes, os shows, as ações bacanas e o voluntariado.

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