Outubro 28, 2018

Ensaio para algo que não sabemos

Ensaio para algo que não sabemos
Fotos Bruno Ropelato.

Depois de passar por Jaraguá do Sul e Balneário Camboriú, Florianópolis recebe o projeto "ensaio para algo que não sabemos - Protótipo 2: Encher-se de buracos", das artistas Daniela Alves e Karina Collaço.

As apresentações gratuitas ocorrem nos dias 30 e 31 de outubro, às 20h,  no Espaço 1 - CEART (UDESC). A dupla fala sobre o processo de construção da obra, em aberto, e os princípios que nortearam o trabalho.

 


Foram meses de processo criativo para chegar neste momento, oficinas com artistas. A estreia do protótipo 2 este mês em turnê por três cidades catarinenses. Como a obra está estruturada neste exato momento?

Está estruturada em dois grandes blocos de cenas, com o uso de dois principais dispositivos, além do corpo – papel e canos. As proposições de corpo surgiram com a experimentação desses dois materiais, buscando sensações, imagens, questões que a priori já estão no corpo.

As cenas são construídas a partir de um estado de vulnerabilidade e disponibilidade, possibilitando a revelação de assuntos diversos que atravessam o corpo, como a incerteza, a ambivalência, a exposição da imagem, a objetificação, a ideia de sucesso, a interdependência, o sufocamento, a resistência, a transmutação, a incontrolabilidade, a ruptura.  

O trabalho não tem o intuito de abordar um determinado tema, mas assume o caráter subjetivo inerente à dança ao se aproximar da não-literalidade e da não-afirmação, convidando o público a experimentar também, em seu corpo, sensações, percepções, entendimentos por meio das imagens e sons que oferecemos.

Cada corpo tem suas próprias questões, de acordo com sua constituição material e sua experiência; assim, o trabalho realiza um manifesto intrínseco, que age na sutileza, nas entrelinhas, no subtexto, nas frestas, nos buracos. Outros dois dispositivos que possuem importante participação na dramaturgia são a luz e o som.

Continuamos testando esses elementos nessas últimas semanas antes da estreia, buscando inserir mais camadas às estruturas que estão praticamente definidas, o que faz aparecer novas impressões e sentidos à dança que estamos fazendo.

 

Qual o princípio que escolheram seguir neste trabalho?

O princípio do qual parte o trabalho é a incerteza, que instaura um corpo à deriva, aberto à experimentação e aos atravessamentos que o fazem se modificar o tempo todo.

A incerteza confere ao corpo uma incessante reorganização, livrando-o de engessamentos e definições. A insistência em algo que está por vir, mas que, ao mesmo tempo, já está acontecendo, a todo instante inaugura sentidos diversos às imagens e sons proporcionados por uma dança que é quase que acidentalmente construída.

Habitar um universo de incerteza e partir desse pressuposto para criar e buscar o entendimento sobre o que está acontecendo é lançar-se a um processo simultaneamente caótico e reconfortante, um manifesto introspectivo que desponta ao assumir que somos seres incoerentes e errantes.

 

 

Vocês trazem algumas temáticas de contexto, como a busca do sucesso como questionamento do significado da palavra. Como foi mergulhar nesta temática, o que exploram, que crítica fazem? 

Essa temática surgiu junto com as outras diversas inquietudes que permeiam o corpo e que vieram à tona durante nossos experimentos. A ideia de sucesso está ligada, de modo geral, à aprovação alheia.

Para se alcançar o sucesso é preciso cumprir inúmeros protocolos criados pelos "outros" – nós mesmos, a sociedade – como, por exemplo, casar, ter filhos, ter um bom emprego, ganhar dinheiro, ter uma aposentadoria, possuir seguidores, passar em um concurso, ser forte, ter estabilidade, ser "resolvido na vida", "dar certo na vida".

Na era da cultura digital, o sucesso vai além da vida real: é preciso ter reconhecimento no meio virtual também. É preciso ter uma boa imagem, no meio real e virtual: o tempo todo, somos imagem.

Isso nos faz pensar o quanto a construção da nossa imagem e até mesmo a autoaprovação – o reconhecimento do próprio sucesso – estão atreladas à opinião dos outros, e como a exposição de nossa imagem nos torna um produto vendável.À parte dessa exibição, o verdadeiro sucesso reside não no reconhecimento de outrem, mas na própria sobrevivência.

Lidar com os percalços de ser um membro da sociedade que criamos já é atitude de sucesso. A maneira como vivemos, o que fazem de nós, o quanto somos seres manipulados, o quanto dependemos de uma estrutura à qual nunca nos adaptamos: tudo isso, inevitavelmente, cria buracos em um projeto que preza pela completude, estabilidade, resolução.

Há que se fazer desses buracos o lugar por onde se dá a experiência, potencializá-los de modo que se tornem portas para que aconteça algo realmente relevante na nossa existência.

 

SERVIÇO:
Ensaio para algo que não sabemos - Protótipo 2: encher-se de buracos
Programação gratuita

Florianópolis

Espaço 1 - CEART - UDESC
Av. Madre Benvenuta,1907 - Itacorubi
30 e 31/10 - espetáculo 20h - retirada de ingressos 1 hora antes do espetáculo
3/11 - oficina  das 14 às 17h -  Kirinus Centro de Movimento
R. Lauro Linhares, 1849 - sala 6 -Trindade - 25 vagas 

Público alvo: bailarinos(as), artistas e pessoas interessadas na arte do movimento

Inscrições gratuitas: enviar breve currículo e carta de intenção para o email ensaioparaalgo@gmail.com até o dia 27/10/2018


Mais informações:
facebook: f/ensaioparaalgo
instagram: @ensaioparaalgoquenaosabemos

 

Tags:
social entretenimento Floripa Florianópolis gente festas eventos agenda
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Yula Jorge

Yula Jorge
Jornalista graduada pela UFSC. Antes disso estudou e viveu quatro anos entre o Canadá e os Estados Unidos e quando retornou a sua terra natal, Goiânia, graduou-se pela PUC em Secretariado Bilíngue. 
Logo mudou-se para Florianópolis, ingressou na Universidade Federal, e da ilha não saiu mais. Atua como colunista desde 2012, assinou uma coluna diária no jornal Notícias do Dia por alguns anos, e, paralelamente, foi repórter da RICTV Record e Record News. Traz todos os dias o que rola de especial em Floripa: sobre quem acontece, empreende, se engaja em causas legais. O que inaugura, as festas bombásticas, as melhores casas, restaurantes, os shows, as ações bacanas e o voluntariado.

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