Março 07, 2021

Entre a criação, a difusão e a reflexão

Entre a criação, a difusão e a reflexão
Marcos Klann em Werwolf Foto Cristiano Prim

Atuar no campo da cultura em Santa Catarina por si só é um ato de resistência. Pelas dificuldades na obtenção de recursos, pela baixa sensibilidade de grande parcela do público, por escassez de toda ordem – até no acesso democrático aos bens culturais.

Jussara Xavier e Marta Cesar, diretoras e curadoras do Múltipla Dança – Festival Internacional de Dança Contemporânea, realizado em Florianópolis (SC) desde 2006, conhecem bem o contexto de quem quer viver a dança em Santa Catarina.

 

Elas não desistem, atuam no exemplo do que é líquido, andam de acordo com as brechas, e no suor do trabalho. (Foto Cristiano Prim)

Com vasto currículo e serviços prestados ao desenvolvimento cultural do Estado, preparam a 11ª edição do evento que será oficialmente anunciado nos próximos dias 9, 10 e 11, com o lançamento do e-book “Múltipla Dança, Festival Internacional de Dança Contemporânea: 10 Anos em Encontros”.

Num diferencial do festival, que é a oferta de espaços para diálogo e reflexão, serão realizados três encontros com seis convidadas, duas a cada dia. O livro, que faz uma homenagem in memoriam à parceira e produtora cultural Neiva Ortega (1951-2018), reúne 20 autores - artistas e pesquisadores de Santa Catarina e do Brasil.

Festival gestado entre cidades, o Múltipla Dança une Jussara e Marta desde 2006, a primeira mora em Florianópolis e dá aulas em Blumenau, a outra vive em São Paulo, onde conduz a formatação e a produção de projetos na área cultural e social.

Pesquisadoras com formação acadêmica e múltiplas atividades culturais, sobretudo a dança, elas expõem nesta entrevista as concepções e os preparativos para a semana do Múltipla Dança, entre 24 e 30 de maio, atestam a importância do Edital Elisabete Anderle que legitima as duas iniciativas, contam um pouco do desafio de idealizar ações de dança num momento em que a pandemia impede o encontro presencial.

Em vez de desistir, encaram a crise sanitária como um modo de luta cujos resultados irão constituir uma memória do setor da dança em torno de um tempo tão dramático.

Todo esse trabalho, costurado pela primorosa assessoria da jornalista Néri Pedroso, se detalha abaixo:

 

Solidão Pública - Adilso Machado  (Foto Cristiano Prim)

 

O que é trabalhar em Santa Catarina com arte e cultura – no caso de vocês com a dança contemporânea?

Jussara Xavier - É lidar com uma conjuntura precária e insuficiente. Não à toa, eu trabalho, principalmente, em parceria com colegas da área na criação de vários projetos, como o Múltipla Dança, Tubo de Ensaio, Laboratório Corpo e Dança, Midiateca de Dança e Fora da Caixa, para citar alguns deles. Pois há pouca oferta de informação especializada na nossa área em termos de aulas, palestras, conferências e/ou espetáculos de artistas e companhias profissionais de dança provenientes de outros Estados e países.

A concepção e curadoria destes projetos é compreendida como um exercício de responsabilidade que considera e deseja modificar o ambiente em que se atua profissionalmente.

A constatação de instabilidade e carência é mesmo o empurrão de início à execução de planos variados, os quais partilham o interesse em abrir e fundar espaços de acesso à dança.

Ou seja, não penso que devemos ficar de braços cruzados esperando o governo ou quem quer que seja fazer o que deve ser feito. De algum modo temos que começar e colaborar para que o mundo fique melhor.

Podemos transportar aquela famosa pergunta filosófica “o que pode o corpo?” para outros âmbitos: O que pode a dança em Santa Catarina? O que eu posso fazer para melhorar o ambiente da dança em Santa Catarina? O que eu posso fazer para apoiar a dança em Santa Catarina?

 

Marta Cesar - Falando de uma perspectiva pessoal, eu diria que assume um caráter de missão, que mantenho no coração, mesmo morando em São Paulo atualmente. Bem, o fato de estar de volta a São Paulo tem também, (embora não só), a resposta para a pergunta, pois a falta de estruturação do setor, de maneira geral, não mantém um mercado que permita a sobrevivência de quem trabalha com arte e cultura.

Me mantenho ainda nos grupos setoriais catarinenses e vibro ao ver o fortalecimento coletivo que as representantes da dança, em especial a dedicação com que as conselheiras em Florianópolis têm combatido a ineficiência local.

Considero a presença do Conselho Municipal de Política Cultural (CMPC) de Florianópolis, dentro da limitação do campo político, de suma importância como ponto de resistência e convergência de discussões.

No contexto estadual, considero o Prêmio de Reconhecimento em 2020 como uma das melhores iniciativas no âmbito nacional, de onde tenho acompanhado muitos editais em função da atuação como parecerista da Lei Aldir Blanc.

 

Primeiro encontro Múltipla Dança (9/03)

 

O que significa a conquista do Edital Elisabete Anderle e a retomada do festival?

Jussara Xavier - Como você bem colocou: significa mesmo uma conquista, uma vitória. Aprovar o projeto num edital é importante porque colabora para viabilizar nossas ações artísticas.

Esta retomada do festival só é possível por meio deste tipo de apoio. Voltar a realizar o Múltipla Dança significa, para mim, favorecer novas trocas e diálogos pessoais e profissionais, fecundar ações e pensamentos diversos, enriquecer formulações conceituais e experimentais em dança.

Acessar novos possíveis: o Múltipla Dança oferece essa chance que é fundamental, sobretudo, num local como Santa Catarina.

 

Marta Cesar - No caso do Múltipla Dança representa a pedra fundamental da continuidade do festival, pois está viabilizando a publicação “Múltipla Dança, Festival Internacional de Dança Contemporânea: 10 Anos em Encontros” que será lançado no começo de março, e possibilitando a retomada da trajetória do festival em sua 11ª edição, de 24 a 30 de maio de 2021.

Diante da carência de políticas públicas em Santa Catarina, o edital tem sido a salvação nos últimos anos.

 

Segundo encontro Múltipla Dança (10/03)

 

Apesar da pandemia, 2021 começa bem para vocês. Lançam o e-book com uma ação virtual de reflexão sobre a dança e realizam o Múltipla Dança. Qual é o caráter do e-book?

Jussara Xavier - Como foi dito, o e-book intitula-se “Múltipla Dança, Festival Internacional de Dança Contemporânea: 10 Anos em Encontros”, ou seja, é um livro comemorativo das dez edições realizadas.

Ele reúne textos inéditos de profissionais que participaram do Múltipla Dança entre os anos de 2006 e 2017, tanto moradores em Santa Catarina (Ana Alonso, Ana Luiza Ciscato, Andréa Scansani, Cristiano Prim, Ida Mara Freire, Jussara Xavier, Marta Cesar, Néri Pedroso, Sandra Meyer e Vera Torres), quanto em outros Estados brasileiros [Thembi Rosa (MG), Vanilton Lakka (MG), Marila Velloso (PR), Manoel Souza (PR), Cláudia Müller (RJ), Inês Bogéa (SP), Isabel Marques (SP), Lilian Vilela (SP) e Rui Moreira (RS)], além de incluir um escrito de Olga Gutiérrez, do México.

O objetivo da publicação é expor o festival em seus propósitos, desvendar assuntos e pontos de vista heterogêneos acerca da dança sob diferentes enfoques: história, crítica, criação, pesquisa, inclusão e gestão.

Esse e-book, organizado por mim e por Marta Cesar, é dedicado à memória de nossa querida Neiva Ortega, morta precocemente em 2018, que respondeu pela produção de várias edições do Múltipla Dança.

 

Marta Cesar - O e-book foi proposto para a 10ª edição do festival com um enfoque em diversos temas e abordagens da contemporaneidade na dança e revela a pluralidade que o festival traz a cada edição.

A delonga pela possibilidade de financiar a edição, mesmo em formato e-book, comprova a importância destas reflexões, que apesar da necessidade do trabalho de revisão dos autores sobre os próprios textos, mantém o movimento da reflexão viva, que está na potência original do festival, em constante movimento.

 

Terceiro encontro Múltipla Dança (11/03)

 

O Múltipla Dança sempre pensou a questão das diferenças e da inclusão. Hoje discute-se muito a questão da acessibilidade e da inclusão, duas palavras distintas quando se fala no lugar da fala. Como analisam a questão? A nova edição será pautada por esse paradigma?

Jussara Xavier - Sim, o Múltipla Dança sempre pensou a questão das diferenças e da inclusão, estas palavras estão na própria concepção do festival.

Seu programa é pautado em ações de complementaridade entre criação, difusão e reflexão. Planeja atividades que facilitem e fomentem o acesso a diferentes canais de distribuição (teatros, espaços alternativos ou mesmo a rua), o acesso do público em termos físicos (variedade de localidade geográfica, gratuidade de ingresso), o acesso intelectual (organização de oficinas, palestras, diálogos, publicação de programa, lançamento de livros, entre outras).

O interesse é ampliar o intercâmbio e a troca de informações por meio de propostas que contemplem a diversidade nacional e internacional, considerando o público infantil, jovem e adulto.

Além de mostrar trabalhos artísticos, os convidados ministram oficinas, palestras e/ou participam dos diálogos temáticos entrando em contato com um público variado, alunos e profissionais da dança local.

Buscamos, desde o início, exercitar a habilidade de conhecer o outro, com intenção de ouvir sua perspectiva e compreender seu ponto de vista, mesmo que até discordemos de sua posição.

Sempre recusamos o tipo de postura arrogante, defensiva e fechada, totalmente oposta à atitude de escuta rogada pelo diálogo. Hoje o Brasil está dividido e incapaz de estruturar diálogos entre diferentes. Proliferam discursos generalistas e superficiais pouco interessados em escutar o outro, ao invés, apressados em rotular, atacar, diminuir o outro.

Ao invés de etiquetar uma pessoa, não seria razoável escutá-la com interesse legítimo, buscar compreender seus desejos e motivações? Enfim, Múltipla Dança tem como foco a dança contemporânea, ou seja, um contexto criativo interessado, essencialmente, na produção da diferença e não na repetição do mesmo.

Gostaríamos de incluir danças de diferentes pessoas, grupos e localidades de todo o mundo, contudo, o programa é desenhado também considerando nossos recursos físicos, materiais e econômicos.

O ideal, por exemplo, seria formatar uma edição disponibilizando diferentes ferramentas de acessibilidade comunicacional - imprimir programas em braile, contar com tradução em Libras em todas as ações do programa, oferecer espetáculos com audiodescrição -, enfim, garantir efetivamente a participação e, principalmente, a fruição de todos.

Trabalhamos simultaneamente com limites e possibilidades. Estamos cientes de que poderíamos sempre incluir mais e de modo melhor.

 

Marta Cesar - A acessibilidade sempre esteve presente no Múltipla Dança, que traz já na sua gênese a questão da convivência, da diversidade, sem, no entanto, pretender ser temático ou fixar bandeiras na sua atuação, mas sim, promover o diálogo dentro desta pluralidade. 

No momento atual, que se elevam vozes de minorias, se impõem com atrasada justiça a necessidade de incluir tradução em libras, áudio-descrição, locais com acessibilidade e outras cautelas para a produção, tentamos aumentar a nossa empatia para afinar nossa capacidade de escuta ao definir a curadoria.

 

 

FICHA TÉCNICA DO LIVRO

Coordenação executiva e editorial: Jussara Xavier

Organização do livro: Jussara Xavier e Marta Cesar

Projeto gráfico e diagramação: Paula Albuquerque

Capa: Paula Albuquerque sobre ilustração de Fabio Dudas (espetáculo

“Céu na Boca”, Quasar Cia. de Dança (GO), fotografia de Cristiano Prim)

Revisão: Taciana Innocente

Assessoria de comunicação e imprensa: Néri Pedroso

Autores dos textos: Ana Maria Alonso Krischke, Ana Luiza Ciscato, Andréa

Scansani, Claudia Muller, Cristiano Prim, Ida Mara Freire, Inês Bogéa, Isabel

Marques, Jussara Xavier, Lilian Vilela, Manoel J. de Souza Neto, Marila Velloso, Marta Cesar, Néri Pedroso, Olga Gutiérrez, Paula Albuquerque, Rui Moreira, Sandra Meyer, Thembi Rosa, Vanilton Lakka

Fotografia: Cristiano Prim

Edição: Múltipla Dança

 

SERVIÇO

O quê: Lançamento do e-book “Múltipla Dança Festival Internacional de Dança Contemporânea - 10 Anos em Encontros”

Quando: Dia 9, 10 e 11.3.2021, 20h

Onde: https://www.facebook.com/festivalmultipladanca

Quanto: Gratuito

 

O quê: Encontro “Dança, Política e Educação” - Ida Mara Freire e Néri Pedroso

Quando: Dia 9.3.2021, 20h

Onde: https://www.facebook.com/festivalmultipladanca

Quanto: Gratuito

 

O quê: “Teoria, Crítica e História da Dança” - Sandra Meyer e Vera Torres

Quando: Dia 10.3.2021, 20h

Onde: https://www.facebook.com/festivalmultipladanca

Quanto: Gratuito

 

O quê: “Dança - Centro e Periferia, Criação e Pesquisa, Inclusão e Gestão” - Lilian Vilela e Marta Cesar

Quando: Dia 11.3.2021, 20h

Onde: https://www.facebook.com/festivalmultipladanca

 Quanto: Gratuito

 

Realização: Governo do Estado de Santa Catarina, por meio da Fundação Catarinense de Cultural (FCC), com recursos do Prêmio Elisabete Anderle de Apoio à Cultura ∕ Artes – Edição 2019

 

Saiba mais:

Site: multipladanca.art.br

Facebook: facebook.com/festivalmultipladanca

Instagram: instagram.com/festivalmultipladanca

Tags:
social entretenimento Floripa Florianópolis gente festas eventos agenda
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Yula Jorge

Yula Jorge
Jornalista graduada pela UFSC. Antes disso estudou e viveu quatro anos entre o Canadá e os Estados Unidos e quando retornou a sua terra natal, Goiânia, graduou-se pela PUC em Secretariado Bilíngue. 
Logo mudou-se para Florianópolis, ingressou na Universidade Federal, e da ilha não saiu mais. Atua como colunista desde 2012, assinou uma coluna diária no jornal Notícias do Dia por alguns anos, e, paralelamente, foi repórter da RICTV Record e Record News. Traz todos os dias o que rola de especial em Floripa: sobre quem acontece, empreende, se engaja em causas legais. O que inaugura, as festas bombásticas, as melhores casas, restaurantes, os shows, as ações bacanas e o voluntariado.

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