Março 12, 2021

Justiça e Verdade em três atos

Justiça e Verdade em três atos

Durante dois anos esta coluna só falou de filmes, séries e tudo que envolvia o Cinema. A cada semana, películas sobre um tema:  futebol, racismo, viagens, medicina, jornalismo, política... (estão todas em arquivo para quem quiser ler). Em março de 2020, com a chegada da Peste senti necessidade de escrever  sobre ela e suas conseqüências. Nasceram as “Crônicas em Quarentena”. Achei que iam durar pouco, mas a pandemia se estendeu.  Hoje, as crônicas falam de tudo e, desconfio, vieram para ficar. Mas, a coluna não perdeu sua essência que é a de falar sobre a Sétima Arte e seus afluentes. Boa leitura!

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Justiça e Verdade em três atos

O sistema

Uma das ações mais indignas do homem é tirar injustamente a liberdade de outro. Fiquei impactada com a série “Making a murderer” (Netflix), como já contei para vocês aqui na coluna. Volta e meia ela me vem à lembrança e sinto um misto de indignação e impotência. O documentário mostra como um norte-americano foi condenado duas vezes por crimes que não cometeu. Da primeira vez foram 18 anos até ser libertado depois de descobrirem o verdadeiro estuprador. Na segunda, os sistemas policial e judiciário trataram de garantir prisão perpétua, apesar das evidências de provas plantadas. Prenderam também seu sobrinho, Brendan Dasssey, um jovem de 17 anos com problemas de retardo mental, como cúmplice depois de um interrogatório pra lá de manipulado. Um “detalhe”: o principal acusado, Steven Avery estava processando o Estado pela primeira prisão injusta.

Eu acuso!

Um dos casos mais conhecidos de arbitrariedade judicial da História foi imortalizado pelo romancista francês, Émile Zola, em carta dirigida ao presidente da república, Félix Faure, em 1898. Publicado no jornal L`Aurore, o artigo trazia o título de J`accuse! (Eu Acuso) e denunciava os oficiais que ajudaram a condenar injustamente o oficial francês de origem judaica, Alfred Dreyfus, por traição e espionagem. O primoroso texto de Zola valeu-lhe processo e condenação por difamação. Tornou-se um eterno libelo contra as injustiças.

Pés descalços

Hesitei em contar a próxima história porque ela me é muito penosa. Em 2007 participei da cobertura de um rumoroso caso acontecido em Joinville, Santa Catarina. Uma menina de 1 ano e meio foi encontrada morta na pia batismal de uma igreja evangélica. Ela havia sido deixada brincando com outras crianças, enquanto os parentes assistiam ao culto. Depois de uma perícia discutível e das roupas da criança terem sido lavadas antes dos exames, deduziram ter havido abuso sexual antes da morte. Com a pressão da mídia, os delegados responsáveis apresentaram rapidamente o pedreiro Oscar Gonçalves do Rosário como autor do crime. Ele teria confessado, mas durante a reconstituição minha intuição gritava que havia algo errado ali. Duas semanas depois, o rapaz contou que tinha sido ameaçado para confessar algo que não fizera. Oscar foi julgado, condenado e ficou preso durante três anos até o julgamento ser anulado pelo Tribunal de Justiça de Santa Catarina por irregularidades legais de toda ordem. Experimentei um grande alívio, como jornalista e como ser humano.

Gostaria de encerrar a história com um final feliz, mas o destino pode ser cruel. Oscar Gonçalves do Rosário tentou reconstruir a vida. Casou, teve um filhinho e mudou de Santa Catarina. Em outubro do ano passado foi atropelado enquanto trabalhava como ajudante de caminhoneiro, em Porto Alegre. Morreu pobre ainda esperando, após 13 anos, os 80 mil reais de indenização pelo erro judiciário que destruiu sua vida. Como bem escreveu Eduardo Galeano : A justiça é como uma serpente, só morde os pés descalços!

(Brígida De Poli)

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FILMES

EU ACUSO! NAS TELAS

O diretor polonês, Roman Polansky, adaptou a obra de Zola, com um clima de thriller. O ator oscarizado Jean Dujardin ficou com o papel do policial de contra-espionagem que provou a inocência do capitão Alfred Dreyfus. Louis Garrel interpreta Dreyfus.”O Oficial e o Espião” foi premiado com o Cesar, o mais importante da França, nas categorias figurino, roteiro e direção. Houve protestos por parte das mulheres do movimento Me Too por causa da acusação de estupro que impede Polanski de voltar aos EUA.

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Cine Belas Artes à la carte

Dentro da programação do 24º Cultura Inglesa Festival estão títulos de várias épocas, dirigidos por alguns dos melhores cineastas do Reino Unido. É para fazer a alegria de quem ama clássicos do cinema europeu. Alguns que podem ser vistos no Cine Belas Artes ( assinatura super acessível).

Quando floresce o coração – David Lean – 1955

O Criado – Joseph Losey – 1963

Traídos pelo desejo – Neil Jordan – 1992

Contraponto – Terry Gilliam – 2005

Ventos de liberdade – Ken Loach – 2006

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SÉRIES DE HUMOR

The Windsors – 12 episódios – Reino Unido – Netflix

A família real britânica vive na mídia e no imaginário ocidental. Esta semana teve a rumorosa entrevista do príncipe Harry e da Meghan Markle, falando sobre as manifestações de racismo que ela sofreu quando vivia no palácio real. De novo os Windsors viralizaram nas redes e na mídia tradicional. Eles estão sempre na berlinda. Mas não espere desta série da Netflix a reverência de The Crown. Aqui é deboche puro. Só a rainha Elizabeth e a falecida Diana são poupadas. Os outros membros da realeza britânica são alvo de total deboche. Humor a la besteirol para desopilar o fígado!

Vergonha -  2 temporadas – Espanha – Now/HBO

Outra série que não liga para o politicamente correto. Jesus é um aspirante a fotógrafo  sem noção. Mas é sem noção alguma  mesmo! Ele é capaz de dizer as coisas mais descabidas no dia a dia. Basta entrar no elevador para perguntar a uma colega gordinha de quantos meses de gravidez ela está ( quem nunca??). Seu complicado relacionamento com Nuria sofre altos e baixos diante da capacidade do namorado de passar vergonha e constranger todos à volta. É um humor escrachado, que inclui até o sogro encontrando uma cueca suja do namorado da filha por quem ele não morre de amores. Confesso que foi me dando uma vergonha alheia quase insuportável...rs

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BÔNUS

Piazzola (11/03/1921)

Dia 11 de março de 2021 marcou o centenário de um gênio da música: Astor Piazzolla ! Já falei para vocês, mas repito que vale a pena ver o documentário  “Os anos do Tubarão” (HBO) para conhecer um pouco do argentino, nascido em Mar del Plata, que revolucionou o tango e foi odiado e amado por isso.

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Hasta la vista!

(*) Fotos reprodução/divulgação

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cinema séries beijos de cinema arte cultura séries de TV netflix
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Brígida Poli

Brígida Poli

Jornalista, cinéfila desde criancinha e maníaca por séries de TV desde "Os Sopranos". Não se considera crítica de cinema, pois não consegue deixar o coração de lado na hora de avaliar um filme. Adora falar e escrever sobre o assunto e tenta chamar a atenção para as grandes obras cinematográficas que as novas gerações desconhecem. Concorda com o mestre Federico Fellini quando ele disse que "o cinema é um modo divino de contar a vida".

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