Setembro 26, 2021

Meu tipo inesquecível

Meu tipo inesquecível

Os mais velhos devem lembrar-se da revista Seleções, da Reader´s Digest. Era uma publicação norte-americana muito popular nas casas das famílias brasileiras nas décadas de 60, 70. Trazia artigos bem escritos e circulava em países do mundo todo ou, ao menos, nos capitalistas porque era vista também como uma espécie de propaganda imperialista. Mas, isso já é outra história.

Pouco mais que uma criança, eu adorava ler aquela revistinha cheia de curiosidades sobre outros universos. Quase um Google! Lia os contos que incluíam autores importantes como Pearl S. Buck, mas minha seção favorita era “Meu tipo inesquecível”. Ali, os autores escreviam sobre pessoas comuns...incomuns. Tenho uma espécie de lista mental dos meus tipos inesquecíveis. Hoje, vou contar para vocês sobre um deles: seu Silvio Santos, não, não é o poderoso dono de meios de comunicações.

Sou uma dessas raras pessoas que não dirige carros, o que dificultava ir da parte continental de Florianópolis até o trabalho na emissora do Morro da Cruz, na Ilha, todos os dias. Naqueles anos me tornei usuária frequente de táxi. Ligava para o ponto do meu bairro e chamava o motorista que estivesse lá.

A primeira vez que seu Silvio veio me buscar, achei que seria a última. Aquele senhor sorridente, com forte sotaque manezinho, virava a cabeça para trás para falar comigo animadamente. Ele veio várias vezes e, aos poucos, fui me acostumando com seu jeito afável e conversador. Já ligava diretamente para ele ou para seu fiel escudeiro, Marlon, para irem me buscar no fim da jornada.

Seu Silvio gostava de falar de política e, felizmente, pertencíamos ao mesmo espectro ideológico. Outro prazer compartilhado era ouvir música. Numa era pré-uber, ele já se preocupava em agradar o cliente, oferecendo balas, bergamotas e o CD de preferência do passageiro. Um dia, ele percebeu o quanto eu gostava de ouvir Andrea Bocelli e, sempre que eu entrava no táxi, ele já dava o play.  Tenho a mania de cantarolar e ele me acompanhava. Assim, formávamos uma dupla inusitada, cantando “con te partiróoooo...” pela avenida beira-mar. No sinal fechado, outros motoristas nos olhavam surpreendidos.

Assim passaram-se anos. Uma noite, já bem tarde, o chamei para me levar para casa depois de uma jornada de dezesseis horas. Estava saindo de uma das mais tristes coberturas jornalísticas da minha vida, a enchente de 2008, que matou cento e trinta e cinco pessoas. Entrei no táxi exausta e desolada. Seu Silvio sorriu, me deu boa noite e se desculpou pela demora – eu precisei trocar de roupa para não vir buscar a senhora de pijamas! Aquele gesto de solidariedade bastou para eu cair em prantos no banco de trás. Daquela vez, ele não conversou. Fez silêncio em sinal de respeito.

Sei que seu Silvio continua trabalhando, agora bem menos por causa da idade e da saúde. O faz porque adora trabalhar, não por necessidade. Espero que outros passageiros, como eu, descubram naquele manezinho falante, ex-pescador, ex-comerciante, o ser humano que o tornou um dos meus tipos inesquecíveis.

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MICROCONTO DE DOMINGO

A crise humanitária no Afeganistão me fez lembrar deste microconto, cujo desafio proposto para o coletivo Literatura Mínima era escrever sobre o drama dos refugiados, em 50 palavras. A história , infelizmente, é verdadeira. Muitos Radwans sairão de mais esta insanidade dos adultos no país afegão. Que Deus os proteja!


(Arte e mentoria: Robertson Frizero/Clube de Criação Lietrária)

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Brígida Poli

Brígida Poli

Jornalista, cinéfila desde criancinha e maníaca por séries de TV desde "Os Sopranos". Não se considera crítica de cinema, pois não consegue deixar o coração de lado na hora de avaliar um filme. Adora falar e escrever sobre o assunto e tenta chamar a atenção para as grandes obras cinematográficas que as novas gerações desconhecem. Concorda com o mestre Federico Fellini quando ele disse que "o cinema é um modo divino de contar a vida".

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