(Alerta: texto contém assunto pessoal)
Quando era criança em Santo Antônio da Patrulha e adolescente em Porto Alegre sempre esperei ganhar uma bicicleta. Ela nunca veio. Mais tarde, já adulto, com dó de mim, minha irmã Sandra me deu uma.
O trauma, no entanto, já estava instalado: até hoje não sei andar sobre duas rodas.
Mas, ainda bem que esses anos todos me ensinaram a ser resiliente, o que parcialmente me ajudou a segurar a barra nesses últimos dois anos e dois meses em que estou na fila do SUS para transplante renal.
Se vocês já ouviram falar que a fila por aqui anda rapidamente, saibam que não vale pra mim. Não tem jeito do computador da Saúde dar um match, o que é atribuído a minhas letras e números genéticos que não encontram a combinação desejada de doador.
Quando me inscrevi para operar em Blumenau falaram que a média de espera era de seis meses. Depois passou para 14 meses. Mais tarde para dois anos.
Estou a caminho do Guinness Book? Faustão foi o campeão para a rapidez de três transplantes, serei eu o de espera?
Todo esse tempo não é como andar de bicicleta. Não recupera mais. Foram passeios e viagens perdidas – o que foi o que mais senti – mas têm também joggings não feitos, e abraços não dados.
Gostaria de terminar dizendo que nesta virada do ano a esperança se renova, mas não seria verdade.
Só me resta continuar resiliente, graças ao que me ensinou uma bicicleta que não recebi quanto garoto.









