Julho 24, 2021

Nem tudo está perdido

Nem tudo está perdido
Nenhum homem é uma ilha, suficiente por si mesmo...(John Donne, 1896)-imagem:Pixabay

Sobre todo creo que

No todo está perdido

Creo que he visto una luz

Al otro lado del rio (Jorge Drexler)

 

Sempre fui ferrenha defensora dos humanos. Entrava na briga quando alguém dizia que os outros animais são melhores que os ditos racionais, pois não exigem nada em troca, não traem etc... Aquilo me incomodava sobremaneira e eu buscava bons exemplos para contrapor o que me parecia um raciocínio equivocado.

Confesso que nos últimos tempos foi ficando difícil defender a Humanidade. A crueldade diária, as guerras intermináveis, a indiferença com os refugiados e imigrantes e a agressão ao meio ambiente, tudo movido à ganância, foram minando minha fé. Como se não bastassem a intolerância com a orientação sexual alheia e o preconceito racial, usam o nome de Deus e de Cristo para atitudes de ódio e não de amor ao próximo, fundamento do Cristianismo. Lembro sempre dos personagens de Henfil nas tiras do Fradim, onde um raio caía do céu na cabeça dos incautos e canalhas. Teríamos uma chuva de raios hoje em dia!

Resolvi fazer um esforço para sacudir a descrença e pensei em coisas humanas admiráveis A arte é uma delas. Não acredito que uma espécie capaz de criar coisas como música, dança, literatura e pintura, por exemplo, seja assim tão ruim. Nunca me senti tão perto do Criador como ao olhar o teto da Capela Sistina ou ouvir Riyuchi Sakamoto tocando Rain ou, ou, ou...tanta coisa linda, meu Deus!

Hoje, porém, nada me conforta mais que perceber gestos solidários. Eu poderia citar aqui exemplos flagrantes como o Padre Silvio Lancelotti, que se dedica noite e dia, em São Paulo, aqueles que são lixo aos olhos dos insensíveis, mas quero falar de outra categoria: os superstars ou celebridades.

Poucos, porém louváveis

Vemos todos os dias na mídia jogadores de futebol usando seus milhões para andar de jatinho, dar festas homéricas ou desfilar com uma jaqueta espelhada de R$ 64 mil . Não discuto as recompensas dos que são considerados os melhores do mundo na atividade. Fizeram por merecer. Entretanto, minha admiração vai para o português Cristiano Ronaldo que usufrui do luxo como os demais, ostenta como os companheiros de esporte, mas usa parte de sua fortuna para ajudar quem precisa. Ele mantém escolinhas de futebol para crianças pobres, doou 165 mil dólares para o centro de tratamento de câncer que cuidou da mãe dele, faz campanhas publicitárias para várias causas como a biodiversidade e colocou um de seus hotéis à disposição dos trabalhadores da linha de frente da pandemia em Portugal. O moço que antes eu olhava apenas como narcisista e superficial não esqueceu a origem humilde. Ele compartilha o muito que recebeu.

Outro esportista engajado no combate  aos discursos de ódio nas redes sociais, principalmente ofensas a negros, mulheres e na proteção ambiental é Lewis Hamilton. O piloto inglês de Fórmula 1 é uma raridade no seu meio. Alguns de seus pares chegaram a criticá-lo por misturar esporte e ativismo, mas ele segue firme na convicção de usar a fama para defender os que não têm voz.

Aqui entre nós, deve ser muito bom ter dinheiro suficiente para usar desse modo. Uma atitude peculiar foi a decisão do escritor Paulo Coelho de patrocinar o Festival de Jazz do Capão, na Bahia, impedido pela Fundação Nacional de Artes de captar recursos por meio da Lei Rouanet. O motivo alegado pela Funarte foram questões religiosas (??!) e o fato da organização ter postado na internet uma imagem afirmando que o festival é “antifascista e pela democracia”. Paulo Coelho anunciou que vai cobrir as despesas de R$ 145 mil e impôs como única condição que seja “ antifascista e pela democracia”.

Alguém pode dizer: ah, são tão ricos, podem ajudar que alguns milhões não vão fazer falta! Então por que poucos fazem isso? E por que cada um de nós não faz algo dentro da sua possibilidade financeira ou de tempo ? Não tenho resposta para saber o que determina o grau de empatia, solidariedade e amor ao próximo, mas asseguro que ajudar alguém traz uma satisfação imensa.  Mais do que comprar aquela bolsa Louis Vuitton da vitrine. Vai por mim!

(Brígida De Poli)

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POR FALAR NISSO...

Sergio – direção: Greg Barker – 2020 - Netflix

Achei que a história do brasileiro Sérgio Vieira de Mello tinha a ver com o tema da crônica de hoje. Sérgio foi um filósofo e diplomata brasileiro, funcionário da Organização das Nações Unidas durante 34 anos. Nomeado Alto Comissário das Nações Unidas para os Direitos Humanos, em 2022, no ano seguinte foi indicado pelo secretário-geral das Nações Unidas, Kofi Annan, como seu representante especial, durante quatro meses no Iraque. A previsão é que o brasileiro seria o próximo secretário-geral.

Wagner Moura é o protagonista exalta as principais características de Sérgio, as quais o tornaram referência em resoluções de conflito e diplomacia. O filme mostra também o atentado na sede da ONU, em Bagdá, que levou à morte do diplomata e de mais 21 pessoas. A produção americana não agradou a crítica por ter feito de Sérgio um super-herói, sem contextualizar as nuances políticas da situação.

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Séries

The Affair – 5 temporadas – Paramount+

Este comentário é mais para quem já viu as temporadas anteriores da série. Tinha visto as quatro primeiras na Netflix, mas agora descobri a quinta na Prime. Gosto muito das duas primeiras, com um formato em que cada um dos protagonistas conta a mesma história sob seu ponto de vista. Noah, um escritor frustrado, mas feliz no casamento com Helen e quatro filhos, se apaixona pela garçonete Alison nas férias de verão. Ele larga tudo para viver um tórrido romance, mas Alison carrega um trauma  dilacerante e Noah é um poço de egoísmo que só Helen era capaz de agüentar.

Depois de idas e vindas, chegamos à quinta temporada sem Alison. O eixo da história agora é Helen. Noah continua separado dela e cada vez mais enrolado. Os roteiristas colocaram de tudo um pouco nesse encerramento, até uma história meio futurista, um episódio de ação e aventura, quando os personagens têm que fugir de um incêndio florestal e um caso discutível de assédio sexual. Enfim...não sei se estavam sóbrios quando escreveram a última temporada.

Mas, pra quem não viu vale a pena acompanhar as duas ou três iniciais e decidir se vai até o final.

 

The Great – 2 temporadas – Starzplay/Prime Vídeo

Nos créditos iniciais um aviso: “uma história ocasionalmente verdadeira”. Realmente, a série de humor histórico usa personagens reais em uma versão satírica e criativa. Ellen Fanning é Catherine, a jovem romântica que chega à Rússica, aos 19 anos, para casar com o imperador Pedro, não o Grande, mas o filho fútil e cruel. Depois de perceber que entrou numa prisão dourada, onde as mulheres são impedidas de aprender a ler, por exemplo, Catherine tenta fugir e quase morre afogada a mando do marido. A partir daí, ela começa a elaborar um plano para chegar ao poder e transformar a Rússia numa nação culta e desenvolvida. Os atores são ótimos nos papéis e a produção é requintada. Um bom divertimento.

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Filmes

Filmes que marcam época – Netflix

Essa produção é uma delícia para quem gosta de saber como seus filmes favoritos chegaram às telas! Muitos títulos encontraram enorme dificuldade para serem aceitos por algum estúdio e depois viraram sucesso de bilheteria. Deu-se bem quem apostou neles: Dirty Dancing ( um dos meus filmes do coração), Esqueceram de Mim, Duro de Matar e Os caça-fantasmas estão na lista.

 

Festival Pedro Almodóvar – Prime Vídeo

A dica é do meu amigo Robertson Frizero, escritor e cinéfilo: chegaram novos filmes de Almodóvar no Prime!

Corri para conferir e encontrei dois dos meus favoritos: Tudo sobre mãe ( o n° 01) e Carne Trêmula. Tem ainda Mulheres à beira de um ataque de nervos, que lançou o diretor espanhol no mundo, A flor do meu segredo, Que fiz eu para merecer isso? e Maus hábitos. Esses títulos juntam-se à Dor e Glória, o longo mais recente de Almodóvar que acaba de terminar as gravações de Madres Paralelas. Uhuu...

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BÔNUS

Anote na agenda: novidades no Cine Belas Artes à la carte

Cinema paraibano - 05 a 18 de agosto

O Belas Artes vai disponibilizar o festival “O Novíssimo Cinema da Paraíba”. A mostra, composta por sete longas e dezessete curtas-metragens traz o que há de melhor na produção cinematográfica recente do estado. A mostra tem início em uma data importante: no dia 5 de agosto é celebrada a fundação da Paraíba. Nos dias 10 e 11 de agosto acontecem duas super programações paralelas ao festival, com conversas ao vivo sobre os filmes e o mercado de cinema na Paraíba.

Cineclube Italiano – 23 a 28 de julho

Fica disponível “A arte da felicidade/L'arte della felicità”, de Alessandro Rak. Na quarta-feira, 28 de julho, às 18h30, acontece no canal do YouTube do À LA CARTE um bate-papo ao vivo sobre o filme com Rosana Urbes, diretora, roteirista, storyboarder e animadora e Léo Mendes, gerente de inteligência do Belas Artes Grupo.

Filme de estreia de Alessandro Rak como diretor, a animação “A arte da felicidade” foi vencedora do prêmio de Melhor Filme de diretor estreante no London Raindance Film Festival 2013. O roteiro assinado por Alessandro Rak, Nicola Barile, Paola Tortora e Luciano Stella foi parcialmente inspirado na morte do irmão de Luciano, Alfredo Stella, a quem o filme é dedicado.

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THE END

*Fotos reprodução/divulgação

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cinema séries beijos de cinema arte cultura séries de TV netflix
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Brígida Poli

Brígida Poli

Jornalista, cinéfila desde criancinha e maníaca por séries de TV desde "Os Sopranos". Não se considera crítica de cinema, pois não consegue deixar o coração de lado na hora de avaliar um filme. Adora falar e escrever sobre o assunto e tenta chamar a atenção para as grandes obras cinematográficas que as novas gerações desconhecem. Concorda com o mestre Federico Fellini quando ele disse que "o cinema é um modo divino de contar a vida".

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