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Papai Noel foi muito generoso comigo em 2025! Muito, muito obrigada.

A colunista retratada por Luciano Martins para a coluna literária de Carlos Stegeman (Foto: Reprodução/Upiara.net)

Na penúltima edição de “Cine & Séries” de 2025, tomo a liberdade de falar sobre um de meus presentes especiais de Natal. Como já postei aqui, lancei em novembro meu segundo livro de crônicas: “No escurinho do cinema -Memórias de uma cinéfila”, pela Editora Insular. Em trinta textos, fui contando sobre minha relação com o cinema desde o primeiro filme que vi ainda menina até os dias de hoje.

Nada deixa um autor mais feliz que perceber que sua escrita chegou ao coração do leitor. Recebi retornos comoventes de pessoas que, a partir do livro, relembraram suas próprias histórias no escurinho da sala de exibição. Separei três manifestações para esta coluna especial – Lúcia Veríssimo, Luis Carlos Merten e Elisa Lima –  e também a entrevista feita pelo jornalista Carlos Stegeman em sua Coluna Literária no site Upiara.net, com direito a ilustração exclusiva do Luciano Martins  É ou não é para eu estar feliz?

No mais, hoje é 26/12, mas acho que ainda posso desejar Feliz Natal, queridos leitores de Cine&Séries.  Na próxima semana, prometo falar dos filmes e séries do ano. Muito obrigada por me acompanharem até aqui.

Um grande abraço de Brígida, a sua colunista.

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De Lúcia Veríssimo, amada companheira de vida do meu ídolo Luis Fernando Veríssimo, a quem dediquei o livro “in memoriam”.

Querida Brígida,

Desculpa a demora em agradecer a delicadeza de dedicar seu livro ao meu parceiro de cinema e de vida por 61 anos.

Eu também fui iniciada no cinema Nacional em Botafogo, onde nasci. Para ver a Vida de Cristo. Desisti, como você, da religião.

Filmes da Metro, principalmente musicais que quando os artistas começavam a cantar, recebiam apupos de impaciência. Com o Luis Fernando fui para os filmes cabeça. No entanto o grande encanto dele tinha sido o Gunga Din.

Muito obrigada e um grande abraço de todos nós, família de cinéfilos.

PS: Proibido comer pipoca e se refastelar na poltrona do cinema.

[Lúcia Helena Veríssimo]

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Elisa Lima, amiga que comprou meu livro de muito longe e comoveu-se ao lembrar do próprio pai que foi quem lhe apresentou ao cinema.

Oi Brígida… com tristeza terminei a leitura do seu livro. Poderia tê-lo lido em uma “sentada”. Mas seu livro merece ser degustado aos poucos. À medida que as páginas avançam, a memória da gente retroage. Em alguns dias peguei o livro, olhei pra capa e pensei “hoje não, quero adiar o dia do fim”.

Que livro especial!!! Ao embarcar nas suas memórias, o leitor reencontra as suas próprias. Meu pai era um cinéfilo inveterado e me apresentou Charlie Chaplin quando eu tinha apenas uns 3 anos de idade (meu pai era um sujeito um tanto peculiar). Mas o fato é que fomos parceiros de cinema e VHS ao longo da vida. Como partiu relativamente cedo, não pegou o DVD.

Mas acho que aprendi com ele que gostar de cinema é entrar na sala escura com o coração e a mente abertos. Buscar a conexão com quem fez a obra e entender sua linguagem que nem sempre é a mesma nossa. Acho justo ver um filme e não gostar, mas ficar procurando defeitos com lupa, pra mim é demais.

Adorei o livro. Há tempo não sentia meu pai tão perto. Obrigada por isso. Beijo no coração

[Elisa]

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Carlos Stegeman, jornalista, editor e escritor, publicado em Upiara.net, em 17/12/2025

 

Duas perguntas para Brígida De Poli, autora das crônicas que unem as telas e as páginas:

Façam silêncio, desliguem os telefones celulares e concentrem-se na leitura de “No escurinho do cinema – Memórias de uma cinéfila”, da jornalista e escritora Brígida De Poli, lançado recentemente pela Editora Insular. A autora tem mais de quatro décadas bem-sucedidas de jornalismo, mas a paixão pela sétima arte vem da tenra infância, quando estudava em uma escola salesiana e as sessões de cinema eram a recompensa para os alunos que assistissem à aula de catequese.

Colunista longeva sobre o tema no portal Making Of, a obra é autobiográfica: as 26 crônicas falam dos seus filmes e diretores favoritos, as cíclicas oscilações do cinema brasileiro e o terrível período da censura durante o regime militar instaurado em 1964. Tudo temperado com emoção e humor.

 

Qual a crônica que lhe é mais cara e qual foi a mais difícil de produzir?

“Lembra sua primeira vez”, produzida na década de 1980 e que venceu um concurso da Zero Hora – resgatando quando, com oito anos, pisei em um cinema pela primeira vez e descobri a magia da tela. A partir dali, comecei a me tornar uma cinemaníaca devotada! A mais difícil de produzir, por motivos óbvios, foi a lista dos meus 10 filmes favoritos. Quase impossível… Relacionei os primeiros que me vieram à cabeça naquele momento, porém pode alterar de acordo com o sentimento do dia. O único que não muda é o que ponteia os preferidos — “Amarcord”, de Fellini, que tem uma de suas cenas na capa do livro.

 

Qual o melhor filme com roteiro adaptado de livro?

Também é difícil de listar, mas recorro à coluna que escrevia para a Revista Paranhana Literário, “O livro que virou filme”, e destaco três: “Fim de caso” (1951), baseado na obra de Graham Greene, e dirigido por Neil Jordan; “A insustentável leveza do ser”, adaptado do livro de Milan Kundera, com a direção de Philip Kaufman; e “Assassinato no Expresso do Oriente”, um clássico entre os clássicos, de Agatha Christie.

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Luis Carlos Merten, apenas o meu crítico de cinema favorito, deu-me a honra de comentar sobre meu livro no X e em seu blog. Ele foi delicado até ao apontar um erro de que cometi ao citar “Nicholas e Alexandra” no lugar de “Fanny e Alexander”. Aqui, o texto do blog dele que recomendo vivamente:  https://blogdomertenblog.wordpress.com :

 

No escurinho do cinema, compartilhando as memórias de cinéfila de Brígida de Poli

Recebi uma dupla e carinhosa homenagem de Brígida de Poli. Ela me cita como uma de suas referências em suas memórias de cinéfila, no livro No Escurinho do Cinema. Na dedicatória escreveu algo lindo, como a sua suspeita de que muitas de nossas lembranças se cruzarão, em alguns momentos. Cruzaram-se, em muitos. Mas não me furto a assinalar um erro, que detectei logo no prólogo, quando ela lembra sua primeira vez. São três cenas e na terceira Brígida cita filmes que viu, ou planejou ver, em sequência, num dia qualquer de sua vida. Ensina-me a Viver, A Laranja Mecânica e Nicholas e Alexandra, o único ao qual dá crédito de direção. Pode até ser pegadinha, porque ela erra o nome. Estará querendo nos testar? Credita o filme a Ingmar Bergman, confundindo-o com Fanny e Alexander. Errar nomes, trocar títulos não são coisas que me tirem do sério. Eu mesmo erro – confundo-me- muito. Já escrevi que, às vezes tenho a impressão de que erro somente para corrigir. Posts com erros, ou correções nos comentários -adendos -, costumam originar novos posts. E assim roda o blog.

Nicholas e Alexandra conta a história do último czar da Rússia, Nicolau II. A família real que foi fuzilada pelos revolucionários de 1917. A lenda da princesa esquecida, Anastácia, que teria sobrevivido ao massacre de sua família. Fanny e Alexander ganhou o Oscar de melhor filme estrangeiro – hoje seria internacional – de 1984. Nicholas e Alexandra cravou seis indicações para o prêmio da Academia em 1972, incluindo melhor filme e atriz, para Janet Suzman, que faz a czarina. Levou as estatuetas de direção artística e figurinos. A produção caríssima de Sam ‘Lawrence da Arábia’ Spiegel não se pagou. Até onde lembro, o filme com roteiro de James Goldman é um novelão, com ingredientes que não faltariam, numa trama das 9 da Globo – o czarevitch hemofílico, metaforizando o enfraquecimento da monarquia, a influência sinistra do monge Rasputim sobre Alexandra. Nicholas e Alexandra é tão ruim quanto me parece na lembrança? O filme ganhou várias indicações no Oscar, no Globo de Ouro, no Bafta. Ficou entre os Top Ten do National Board of Review dos EUA. Naquele ano, o vencedor, filme e direção, foi Operação França, de William Friedkin. O diretor Franklin J. Schaffner fez filmes como Vassalos da Ambição/The Best Man, O Senhor da Guerra e O Planeta dos Macacos, o primeiro, de 1968. Ganhou os Oscars de filme e direção de 1970, por Patton, Rebelde ou Herói? Antes do cinema, fizera brilhante carreira na TV, vencendo três vez o Emmy de direção. Sempre tive a maior curiosidade pelo que teria sido a sua produção de TV de A Lenda de Lilah Clare. Amo o filme de Robert Aldrich.

Schaffner presidiu o Director’s Guild. Sua ziguezagueante fase final inclui pelo menos mais um filme de que gosto – islands in the Stream, que adaptou de Ernest Hemingway e, no Brasil, se chamou A Ilha do Adeus. Claire Bloom é sublime como a mulher que vem dizer ao ex-marido, George C. Scott, que o filho deles morreu na guerra. Perdi-me nas minhas memórias.

Brigida de Poli é felliniana de carteirinha. Amarcord, que venceu o Oscar de melhor filme estrangeiro de 1975, é seu filme preferido. Sua lista de dez + inclui obras que são viscerais também para mim – Morangos Silvestres, esse sim, de Bergman, e Os Pecados de Todos Nós, que John Huston adaptou de Carsons McCullers, Reflections in a Golden Eye. Numa lista adicional, Brígida cita outros títulos que chegam rapidamente a seus 25+. Nenhum western. Como a Lúcia, minha filha, ela deve achar que bangue-bangues são coisas de guris. No Escurinho do Cinema – Memórias de Uma Cinéfila, da Editora Insular, é um livro fininho, de 70 páginas. Brígida tem razão. Muitas de suas lembranças batem com as minhas. Seu livro deixou-me com gosto de quero mais.

[L.C. Merten]

 

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*Fotos: Divulgação/Reprodução

 

THE END

Os colunistas são responsáveis por seu conteúdo e o texto não reflete, necessariamente, a opinião do Portal Making of.

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