Novembro 20, 2020

Para um amigo partindo

Para um amigo partindo
Zeca Kiechaloski, ator e escritor

Dando um tempo no formato temático de Cine & Séries, mas garantindo a leitura semanal para quem segue a coluna. Toda sexta-feira,  uma nova "Crônica em Quarentena" e, claro, dicas de filmes e séries para amenizar esses tempos difíceis de pandemia e isolamento social. Fiquem bem!

_________________________________________________________________________

 

Para um amigo partindo

Querido Zeca,

Me contaram que tua partida foi repentina e dramática. Condiz com quem sempre gostou da ribalta, dos gestos largos, da fala alta e da gargalhada escancarada. Às vezes eu fazia "psiiiu" pra ti, meio constrangida, como daquela vez em que cheguei antes na sessão de "O veludo azul" e, filme já iniciado, ouço um grito lancinante ecoar na sala do Cine Avenida, chamando meu nome. Eras tu me procurando no escuro.

O cinema era nosso programa favorito, paixão em comum descoberta logo no primeiro dia em que – através de amigos em comum - me deste carona até a faculdade onde íamos iniciar o curso de Jornalismo. Foi empatia instantânea. Não nos desgrudamos mais nos primeiros anos de curso. Todo mundo já sabia que formávamos uma dupla inseparável, carne e unha. Eu até espantava as colegas apaixonadas que brigavam para sentar ao teu lado, sem notarem que não tinhas interesse no sexo oposto.

Vivemos tanta coisa juntos naqueles verdes anos que eu precisaria de dez capítulos para contar a metade. Como da vez em que encontramos Chico Buarque caminhando pelas ruas de Gramado, enquanto a então mulher dele, Marieta Severo, atendia a imprensa depois de ganhar o Kikito de Melhor Atriz no Festival de Cinema. Quem puxou assunto com ele foste tu, claro, enquanto eu olhava muda e encantada para o Chico. Ele nos disse " saí do cinema para que Marieta curtisse um momento que é dela". Daí ele te falou" gostei muito de você no filme "Sonho sem Fim" . Tive que te amparar para não desmaiares. Olhaste para o Chico quase gritando " depois disso já posso morrer"!

Lembro quando começaste a carreira de ator. Eu te incentivava e ia junto até nos ensaios. Sem falar que me arrastavas para aquelas pelas peças experimentais chatíssimas, mas eu ia sem reclamar. Queria te fazer companhia enquanto aprendias o ofício.

Mais tarde nossas vidas tomaram rumos diferentes. Tu passaste a conviver com pessoas da área artística e me senti um pouquinho posta de lado. Quando mudei para outro estado passamos a nos falar pouco, quase nada. Mas pequenas mágoas nunca me fizeram te "desamar". Estás na única foto do meu livro de crônicas " As mulheres da minha vida", de 2018. Na imagem estamos os dois, muito jovens, ao lado da tua grande paixão, Elis Regina. No livro conto sobre nossos encontros com ela, inclusive no último show "Trem Azul" que fomos assistir em São Paulo.  Também estou no livro que escreveste sobre Elis depois que ela morreu. Nossas lembranças se entrelaçaram.

Já falei que poderia escrever uma enciclopédia sobre nossas "aventuras" juntos, mas esta carta está ficando longa demais. Só queria ainda dizer que adorei ler no teu último e-mail há dois meses a frase: "morro de saudades tuas". Não cheguei a responder a mensagem. Agora quem vai ficar morrendo de saudades para sempre sou eu, meu amigo.

Para me despedir recorro a Caio Fernando Abreu que me foi apresentado por ti, como a tantas outras preciosidades: De repente a gente se encontra numa esquina, num outro planeta, no meio duma festa ou duma fossa, a gente se encontra, tenho certeza.

Gosto de pensar assim que quem já morreu fica num lugar quentinho, que a gente não vê, cuidando de quem ainda não morreu. E se você quiser agradar a essa pessoa, é só fazer coisas que ela gostava. Aí ela fica ainda mais quentinha e cuida ainda melhor da gente.

Vou ver um filme. Vou ouvir Elis. Vou comer souflé  de chocolate. Fica quentinho e cuida bem de mim aí de cima, Zequinha.

p.s: Como eras vaidoso escolhi para abrir a coluna aquela foto que fiz de ti na aula de fotografia lá pelos idos de 1979. Linda !Também cuido bem de ti, viu ?

(Brígida De Poli)

_________________________________________________________________________

 

SONHO SEM FIM – direção: Lauro Escorel – 1985

O filme está disponível no YouTube numa cópia não muito boa, mas vale a pena assistir. É um belo filme.

A trama: Uma declaração de amor ao cinema que mostra a trajetória de Eduardo Abelim, um dos precursores do cinema nacional. Ele se tornou cineasta no Rio Grande Sul dos anos 20. A vida curiosa do cineasta, vivido por Carlos Alberto Ricelli, é o tema do filme. Abelim fazia malabarismos automobilísticos, dava aula de astrologia e ocultismo para poder produzir suas películas. "Sonho sem fim" foi gravado na cidade de Pelotas e Capão do Leão, RS.

Elenco: Carlos Alberto Riccelli, Débora Bloch, Emmanuel Cavalcanti, Fernanda Torres, João Carlos Castanha, Luiz Carlos Arutin, Marieta Severo e Zeca Kiechalovski (como Rodolfo) .

O link: https://youtu.be/Fhy46mCT14g

_________________________________________________________________________

 

DICAS & DICAS

FILMES

Magnatas do crime – direção: Guy Richie – Telecine/Now

O diretor inglês Guy Ritchie ( sim, aquele que foi casado com Madonna) volta ao estilo pessoal de "Snatch-Porcos e diamantes" e "Jogos, trapaça e dois canos fumegantes" nesse novo filme que reúne um elenco de peso. Matthew McConaughey interpreta o dono de um império da maconha que resolve colocar seu negócio à venda. A partir daí, surgem mil intrigas, compradores e os crimes se sucedem. Além de Matthew, o elenco traz Hugh Grant, Colin Ferrel e outros estrelados.

 

Rosa e Momo – direção: Edoardo Ponti – 2019- NETFLIX

O grande atrativo dessa produção é a volta às telas da diva Sophia Loren. Ela ficou dez anos sem filmar, mas não resistiu ao convite do filho que a dirigiu nesse drama.

O filme acompanha a relação entre Madame Rosa (Loren), uma sobrevivente do Holocausto que vive no litoral da Itália e trabalha como dona de uma creche, e Momo (o estreante Ibrahima Gueye), um adolescente de 12 anos sem teto que a roubou. (Sinopse oficial).

 

A Escolha de Sofia – direção: Alan J. Pakula – 1983- Netflix

Outra Sofia, essa sem H... Ainda naquela ideia de que muita gente jovem não viu grandes filmes de outras décadas, sugiro esse que a Netflix disponibilizou há pouco. É uma drama daqueles de desidratar o espectador. Meryl Streep que se ajoelhou na frente do diretor para conseguir o papel sabia o que estava fazendo. Ela ganhou o Oscar de Melhor Atriz pela interpretação da polonesa Sofia, ex-prisioneira num campo de concentração. A história se passa em Nova York, em 1947. Kevin Kline é o namorado instável de Sofia. O terceiro elemento é um jovem aspirante a escritor, fascinado por Sofia, e narrador da história.

***

 

SÉRIES

The Crown – 4 temporadas – NETFLIX

Chegou a nova temporada mais esperada do ano. Sua majestade Elizabeth II está de volta, agora já na fase em que o príncipe herdeiro conhece aquela que jogaria os holofotes sobre a família Windsor durante muito tempo: a princesa Diana. Entra em cena também outra mulher importante: a 1ª ministra Margareth Tatcher. No primeiro episódio um atentado do IRA mata o mentor de Charles. Olivia Colman, da 3ª temporada, continua no papel da rainha. Na foto, Diana,Elizabeht e Margareth

 

Os favoritos de Midas – minissérie – suspense- NETFLIX

A Espanha está a mil nas produções para a Netflix. Um importante executivo começa a receber cartas assinadas como "favoritos de Midas" exigindo que ele abra mão das ações e da presidência do grupo que acabou de herdar. Se não fizer isso uma pessoa desconhecida será assassinada a cada semana. Luis Tosar, que virou uma espécie de Ricardo Darin do cinema espanhol, interpreta o empresário que se vê diante do dilema.

_________________________________________________________________________

THE END

(*) Fotos reprodução/divulgação

Tags:
cinema séries beijos de cinema arte cultura séries de TV netflix
Compartilhe: Compartilhe no FacebookCompartilhe no TwitterCompartilhe no Linkedin

Artigos Relacionados

Exclusivo

O tempo e a traça

Novembro 13, 2020
Exclusivo

O novo (a)normal

Novembro 06, 2020
Exclusivo

O álibi perfeito

Outubro 30, 2020

Brígida Poli

Brígida Poli

Jornalista, cinéfila desde criancinha e maníaca por séries de TV desde "Os Sopranos". Não se considera crítica de cinema, pois não consegue deixar o coração de lado na hora de avaliar um filme. Adora falar e escrever sobre o assunto e tenta chamar a atenção para as grandes obras cinematográficas que as novas gerações desconhecem. Concorda com o mestre Federico Fellini quando ele disse que "o cinema é um modo divino de contar a vida".

Comentários

Media Social

Fique por dentro

Receba novidades no seu e-mail!