Junho 19, 2021

Paulo de Araújo - guardião de memória

Paulo de Araújo - guardião de memória
Paulo em exposição que envolve a atriz Neusa Thomasi

Gaúcho, 64 anos, o repórter fotográfico Paulo de Araújo viveu em Santa Catarina, nas cidades de Florianópolis e Joinville. Ao chegar no Norte do Estado, em 1989, quase que de imediato conheceu Luiz Henrique Schwanke (1951-1992), justo quando o artista o joinvilense convulsionou sensibilidades ao apresentar em diferentes pontos urbanos majestosas esculturas - um conjunto de colunas criadas a partir do empilhamento de baldes e bacias. Poucos entenderam a audaz proposta que colocou a cidade em sintonia com os paradigmas da arte contemporânea.

 

Foto de Paulo de Araújo

Dali em diante, De Araújo e Schwanke criaram uma fraterna cumplicidade que resultou em farta documentação visual. Além de retratos, uma série de imagens usadas para a divulgação dos projetos artísticos e até a produção de fotografias idealizadas como obra artística, como é o caso do outdoor apresentado por ocasião da 21ª Bienal de São Paulo, em 1991, em que a boca aberta de Schwanke mostra a língua azulada por violeta de genciana em conjunto com palavras inventadas pelo artista.

De Araújo certamente é o profissional que tem o acervo mais expressivo de imagens do artista, tanto que às vezes é nominado como o “fotógrafo do Schwanke”. Nesta entrevista exclusiva, ele tece suas recordações e saudade do amigo. Conta que na criação fotográfica procurava sempre chegar perto das concepções de Schwanke, que já vinham preconcebidas. “Eu na realidade transformava a ideia dele em fotografia”, diz o profissional que segue como um dos mais atentos parceiros do Museu de Arte Contemporânea Luiz Henrique Schwanke, documentando suas ações.

Schwanke (esquerda) e Paulo (direita)

 

O que você faz atualmente?

Paulo de Araújo - Aposentado, 64 anos. Minha casa é em Brasília (DF). Mas tenho morado no mundo. Atuo voluntariamente com o site alemão www.lavogacompass.com. E desenvolvo projetos sobre povos originários do Brasil. Atualmente iniciando o projeto Doc Guarani no Rio Grande do Sul. Além de participar de exposições fotográficas no Brasil e na França.

 

 

Como conheceu o Schwanke?

Araújo - Conheci Schwanke dentro da minha atividade de repórter-fotográfico trabalhando em Joinville no jornal “Diário Catarinense”. Ano de 1989, quando ele expôs as esculturas compostas por colunas de baldes e bacias por toda cidade.

 

A pesquisadora Alena Marmo te define como o “Fotógrafo do Schwanke”. Se concorda, que lugar e o que significa ocupá-lo?

Araújo - Fico extremamente envaidecido com essa colocação da Alena. Mas seria de minha parte muita pretensão em assumir essa posição. Creio que realmente possa ter sido o fotógrafo que tenha feito mais registros de Schwanke. A extensa publicação do meu trabalho com ele denota o fato de eu estar presente nesse momento extremamente criativo.

 

O que era imperativo neste relacionamento entre o artista e o fotógrafo?

Araújo - Penso que a cumplicidade no trabalho.  Sempre busquei chegar perto da ideia que Schwanke propunha. O nível de interação no momento da criação fotográfica, pois a ideia já vinha preconcebida pelo artista. Eu na realidade transformava a ideia dele em fotografia.

 

Tem noção de quantas fotografias fez dele? Tem a exata noção do montante deste acervo, sob o ponto de vista simbólico e histórico? Como organiza o próprio acervo?

Araújo - Nunca parei para contar os registros fotográficos feitos com Schwanke. Do montante numérico não tenho ideia. Mas do ponto de vista simbólico e histórico creio que o valor é inestimável. O artista Schwanke tinha uma noção importante deste acervo. Sou bem anárquico com o meu acervo, mantido em vários HDs. Busco manter ao alcance da mão. Ou do mouse.

 

Há uma série de retratos, já bem divulgados. Como se dava a criação destes retratos? Quais eram os interesses primordiais, os seus e os dele?

Araújo - Normalmente as produções fotográficas objetivavam a divulgação de alguma nova exposição, ou então algum projeto onde a fotografia era o suporte (caso do outdoor para a Bienal de São Paulo, em 1991. Muitas sessões eram para divulgação nos meios jornalísticos.

 

Qual o papel de um fotógrafo na carreira de um artista?

Araújo - Creio que seja um adendo. Uma forma de multiplicar a sua difusão, tanto da arte em si quanto do artista. Gostaria de ter tido a chance de David Douglas Duncan, vizinho de Pablo Picasso, e que durante 20 anos trilhou os caminhos junto do amigo. Tive quatro anos de vivência com Schwanke, entre 1989 e 1992, ano de sua morte.

 

Você segue parceiro do MAC Schwanke, documentando as ações em torno do artista. O que dá esse sentido após quase 30 anos da morte do artista?

Araújo - Acho que o desejo insano da permanência. O de querer dar uma continuidade etérea a esse monstro artístico que é Schwanke. Vamos andar juntos enquanto houver forças. Depois serão apenas fotografias, lembranças.

 

Além do acervo fotográfico constituído sobre o artista, você segue compromissado na construção de sua memória, participa de mesas de debate, depõe para documentário, integra rodas de conversa, registra os principais eventos do Museu de Arte Contemporânea Luiz Henrique Schwanke, a exemplo da vinda de Joseph Kosuth em 2013. Seria um trabalho seu para o resto de sua vida?

Araújo - Não resta dúvida. É um trabalho contínuo, permanente. Como sentinelas, quero-queros no alto da coxilha alertando que há movimento. (amei isso!!!)

 

Foto Paulo de Araújo

Joseph Kosuth no Brasil, em 2013, a convite do MAC Schwanke, faz conferência em Joinville

 

O que mais aprecia na produção do Schwanke? Quais os trabalhos que mais gosta?

Araújo - Difícil dizer.  Quando você chega no Museu Oscar Niemeyer (MON), em Curitiba (PR), e depara-se com um painel com mais de 200 perfis (os linguarudos) lado a lado. Aquilo é um impacto primordial. Já a “casa tomada” é de uma sutileza, um estranhamento, tão sulfuroso, etéreo. Os “linguarudos” são magistrais.

 

Qual é a grande imagem que você fez do Schwanke? O que destaca, qual a imagem que mais gosta? 

Araújo - Uma foto na casa dele.  Camiseta branca, despojado escorado na cadeira, atrás um quadro da série “Sonetos”.

 

Foto de Paulo de Araújo

 

Fale um pouco sobre o direito autoral? O que sente quando vê uma foto sua, em especial do Schwanke sem o devido crédito?

Araújo - O direito autoral é uma lenda. Tirando um ou outro contrato pontual nunca recebi um centavo. Assim como o fotógrafo cubano Alberto Korda, autor da fotografia mais difundida no mundo, a de Che Guevara. Sem querer me comparar com ele, é claro. Mas a prática é comum. Sem direitos e sem remuneração. Quando vejo uma foto minha sem crédito, me sinto usurpado da condição de profissional da imagem.

 

Feedback        Foto NProduções

 

O que não fica sem: não fico sem ar e sem objetivos.

O que mais admira: determinação.

O que abomina: falta de tempo. 

Um lugar no mundo: Brasília, Chácara da Tranquilidade

Uma saudade: dos amigos que já se foram.

Uma bebida: champanhe.

Uma comida: churrasco de ovelha.

Palavra: companheirismo.

Uma frase: "Gosto de seu Cristo, odeio os seus cristãos", de Nietzsche.

Um ídolo: Friedrich Nietzsche.

Um livro: “Humano, Demasiadamente Humano.

Melhor viagem: a minha viagem solo para Santiago de Compostela.

Na pandemia eu... engordei.

Sonho: ser o homem mais velho a dar a volta ao mundo de bicicleta.

 

Serviço

O quê: Mostra “Schwanke, uma Poética Labiríntica”

Quando: Até 1º.8.2021, terça a sábado, 10 às 18h (ingressos e acesso às salas até 17h30. Quarta gratuita, 10 às 18h.

Onde: Museu Oscar Niemeyer (MON), rua. Mal. Hermes, 999, Centro Cívico, Curitiba (PR), tel: (41) 3350-4400

Quanto: R$ 20/R$ 10 (professores e estudantes com identificação; doadores de sangue; pessoas com deficiência; titulares da ID Jovem; portadores de câncer com documento)

Realização: Museu Oscar Niemeyer (MON) e Museu de Arte Contemporânea Luiz Henriqueenrique Schwanke Schwanke (MAC Schwanke)

 

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Yula Jorge

Yula Jorge
Jornalista graduada pela UFSC. Antes disso estudou e viveu quatro anos entre o Canadá e os Estados Unidos e quando retornou a sua terra natal, Goiânia, graduou-se pela PUC em Secretariado Bilíngue. 
Logo mudou-se para Florianópolis, ingressou na Universidade Federal, e da ilha não saiu mais. Atua como colunista desde 2012, assinou uma coluna diária no jornal Notícias do Dia por alguns anos, e, paralelamente, foi repórter da RICTV Record e Record News. Traz todos os dias o que rola de especial em Floripa: sobre quem acontece, empreende, se engaja em causas legais. O que inaugura, as festas bombásticas, as melhores casas, restaurantes, os shows, as ações bacanas e o voluntariado.

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