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segunda-feira, 15 agosto, 2022

Plantar uma árvore, ter um filho e escrever um livro – Samanta Lopes

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*Por Samanta Lopes 

Legado! O poeta cubano José Martí cunhou uma frase que foi popularmente editada e é muito usada: “Plantar uma árvore, ter um filho e escrever um livro: três coisas que toda pessoa deve fazer durante a vida”. Com a escrita em coautoria do livro lançado em maio deste ano, Empreendedorismo da mulher negra, a potência, finalizei as três tarefas e entrei em reflexão sobre as metas de vida que colocamos para nós.

A sociedade vive alocando as pessoas em categorias ou “caixinhas”, e isso garante uma certa estabilidade sobre o que esperar dos comportamentos sociais dos grupos diversos que a compõem. Há prerrogativas sociais que estão vinculadas a cada fase de sua vida: se você é criança, tem liberdade para ser espontânea: pode até usar uma meia de cada cor que ninguém vai te olhar com criticidade, talvez até desperte alguns sorrisos; quando é jovem, são esperadas algumas atitudes de recusa aos padrões fixados, uma certa rebeldia e uma esperança de que se torne logo uma pessoa adulta; quando adulta, é esperado que seja um membro da sociedade que agrega valor e “tem sucesso”; quando uma pessoa madura, que agregue com sua experiência e desfrute de sua “feliz idade”: basta ver a quantidade de casas de repouso que sempre existiu e vem crescendo. As pessoas que ficam fora dessas prerrogativas geralmente são consideradas inconformadas, imaturas, irresponsáveis, entre tantas outras palavras que começam com “i” e negam seu pertencimento.

Quando uma pessoa se prepara para escrever um livro, inteiro ou em parte, apenas um capítulo, ela precisa se preparar para uma exposição, e o mais difícil é escolher a linha editorial, ou seja, como será feita a escrita. É importante saber com quem se vai falar, o que se vai falar e como se vai falar. Há um tempo de maturação entre ideia e escrita final, e o peso do legado que a escrita nos traz gera um certo desconforto para começar e um senso de realização ao terminar. Nem sempre nossa jornada escrita atenderá as expectativas da sociedade sobre a identidade da mulher negra brasileira.

 

Escrever, para mim, foi um ato de resistência:

“Ao escrever este texto, deixo alguns de meus pensamentos enquanto mulher negra, mãe e periférica. Há neste registro um ato: aqui resisto ao nosso apagamento e invisibilização. Espero que estas linhas apoiem outras mulheres, principalmente as negras, a encontrarem seus caminhos com menos dor e mais axé.

Escrever exige mergulhar em si mesma, desperta a consciência sobre o que vivenciamos; sobre como aprendemos e ensinamos, sobre o impacto do eu, do outro e de nós mesmos, durante a jornada. É através das relações que construímos nossas crenças e valores, definimos nosso modo de interagir com o mundo. Os aspectos escolar e social são influenciadores que podem ou não reforçar nossas escolhas.” (LOPES, 2021).

Entre quatorze coautoras negras, escrever sobre “Equidade Racial – a importância do tema para o empreendedorismo” exigiu inclusive uma pesquisa com outras mulheres negras que empreendem, porque eu não poderia falar apenas do meu olhar, e um dado que se destacou foi a forma como as mulheres negras aprendem e ensinam no âmbito do empreender: quase 90% das entrevistadas acreditam que ensinam enquanto empreendem e aprendem com outras pessoas, desde familiares a mulheres e homens cujas habilidades e realizações elas admiram.

Não há um caminho único no empreendedorismo negro. Em nossa maioria, fazemos aquilo que está mais fácil. Começamos com o que aprendemos em casa ou com o que nos foi ensinado entre as primeiras atividades escolares e nos deu prazer: arte, dança, artesanato, moda, alimentação, entre outras, e, conforme as pessoas compram e nos fazem nos sentir pessoas reconhecidas, vamos ampliando nossa percepção sobre o valor que agregamos e sobre nossa capacidade de sermos especialistas e de vivermos a partir da renda gerada com aquela atividade.

No geral, o cotidiano das pessoas negras e periféricas e dos grupos invisibilizados é repleto da urgência de quem precisa vender seus produtos e serviços para pagar as contas do mês, comprar material e investir em si e no negócio, porque não há capital semente, nem familiares, amigos ou bens que possam usar para garantir uma sobrevivência digna até que o negócio decole. E detalhe: em sua maioria, essas pessoas querem crescer no território, e não sair para o mundo; elas normalmente querem ver sua “gente” vivendo bem.

No entanto, no mercado onde acontecem os investimentos e as compras com maior margem de lucro são espaços predominantemente não negros e exigem formação superior, mais de um idioma, plano de negócios, clareza na missão, visão e valores, entre tantos outros conhecimentos e o famigerado “pitch” que nem nos vemos nesses lugares, nem nos sentimos pessoas prontas a atender o nível de exigência para estar ali. Há muitas pessoas de mercado que atuam para gerar um networking de valor e, a partir dessa construção, esperam um tempo para maturar os negócios, a chamada “cauda longa”1, e estão dispostas a vender no médio e longo prazo e a receber investimentos com parcerias que as levem pelo mundo; as pessoas pretas geralmente não têm esse tempo.

Tive meu primeiro filho com 26 anos. Já havia viajado, trabalhado em vários segmentos e estava começando a faculdade de publicidade. Escolhi não trabalhar em agências na época devido ao ritmo frenético desses ambientes; com filho pequeno e estudando, isso era quase inimaginável. Mesmo assim, fui trabalhar em uma empresa privada que me exigia tanto quanto uma agência e fui a única negra durante o tempo em que estive por lá. Plantar a árvore, fiz na mesma época e, agora que estou com quase 50 anos, escrevi um pouco sobre mim e muitas outras mulheres negras da periferia que empreendem para poder ter um direito que nos é negado desde muito cedo: escolher que legado queremos deixar!

*Samanta Lopes é coordenadora MDI da um.a #DiversidadeCriativa, agência de live marketing.

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