Crônica de Anna Tscherdantzew*
Como diz um amigo da Serra Gaúcha, quando tem polêmica envolvendo italianos, temos uma polentêmica, a polêmica dos gringos.
Quem não mora no litoral e curte uma praia tem que escolher qual vai invadir no verão. Estou numa praia catarinense próxima a Garopaba e tem mais gaúcho aqui do que catarinense. Especialmente da Serra Gaúcha, e não me pergunte o motivo.
Mas por que cruzar a fronteira, apresentar passaporte, passar pela imigração entre os estados do Rio Grande do Sul e Santa Catarina, se os gaúchos podem ficar nas praias do seu estado?
Dizem que a escolha é entre uma feia limpinha ou uma bonita sujinha, no feminino para concordar com o sujeito, mas que, pelos modos, desculpe, mais se assemelha aos estereótipos masculinos.
Não custa lembrar, antes de ser xingada, que moro entre os dois estados, parte em Caxias, parte na Grande Florianópolis. Então não falo como alguém sem conhecimento de causa.
Passei a infância indo à casa do meu avô em Tramandaí Luz enquanto vivia em Florianópolis, e veraneei em Balneário Camboriú, Jurerê, Ponta das Canas, Zimbros, mas também Pinhal, Quintão e Rei do Peixe. Sim, sou eclética e adoro uma aventura.
A ideia, espero que você tenha captado: eu sei do que estou falando! O litoral catarinense é lindo, recortado por natureza exuberante, pedras e mar cristalino em tons de verde e azul, parecendo foto de revista de viagem. O litoral gaúcho, por outro lado, tem uma linha reta e 50 tons de marrom chocolate no mar, mas tem uma vastidão e sua própria exuberância no contraste com as dunas. Os sapos coaxando à noite, as pescarias e até o nordestão divertem.
A escolha não parece difícil, mas quem vê cara não vê coração. O litoral catarinense, justamente por essas características, atraiu muita gente e, em consequência, exploração imobiliária desmedida, infraestrutura incompatível e o caos generalizado.
Em Bombinhas, que cobra uma entrada de 200 reais, tem esgoto a céu aberto e caça-ao-cocô filmada e documentada. Nos arredores e nas cidades de Florianópolis, Balneário Camboriú, Enseada da Pinheira, Garopaba e em quase todo o litoral catarinense, a rede de esgoto e tratamento não existe ou não contempla a maioria das construções. As vias de acesso não comportam a quantidade de veículos. Falta água e luz em momentos de lotação esgotada. O mar, que avançou sobre as construções, não perdoa e reintegra as praias com expansão artificial da faixa de areia.
Enquanto isso, nas praias gaúchas, o caos existe, mas parece menor, e o verão parece mais aconchegante, especialmente nos dias em que o mar também fica cristalino e, o melhor, sem coliformes. Ou eu estou inventando tudo isso pra fazer com que meus conterrâneos não venham mais pra Santa Catarina, ou a beleza não resiste ao tempo e aos excessos, e o que fica é o resultado dos cuidados que dispensamos à natureza.
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Sobre Anna Tscherdantzew

Praticamente uma bucica caramelo, sou uma mistura de russos, mongóis, gregos, alemães, brasileiros e, dizem, descendente de Gengis Khan e dos Romanoff. Morar pelo mundo, ficar no quintal de casa, cozinhar, pegar o caminho errado pra descobrir um lugar novo, música, minha família e amigos, natureza, observar o comportamento humano, ler e escrever mentalmente crônicas ficcionalistas (ficções realistas) são minhas principais ocupações.
Formada em Publicidade pela PUCRS, pós-graduada em Marketing pela FGV, Master em Fashion Design pela NYFA (Seattle) e Digital Design pela Santa Barbara City College (Califórnia). Docente (Unisul), Pesquisadora e moderadora de focus group (Agencia Um, Mapa Pesquisa de Mercado), Designer (Nordstrom), Figurinista Independente de Filmes e Music Videos (Los Angeles), Produtora e Roteirista (Radicci Entretenimentos), Co-apresentadora do programa de Viagem e Pesca On The Rod (Canal Fish TV e Iotti TV) e Colunista (Portais Sler, Fumetta, Leouve e Making Of).
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