Fevereiro 12, 2021

Quatro trilhas sonoras e um funeral

Quatro trilhas sonoras e um funeral

Durante dois anos esta coluna só falou de filmes, séries e tudo que envolvia o Cinema. A cada semana, películas sobre um tema:  futebol, racismo, viagens, medicina, jornalismo, política... (estão todas em arquivo para quem quiser ler). Em março de 2020, com a chegada da Peste senti necessidade de escrever  sobre ela e suas conseqüências. Nasceram as “Crônicas em Quarentena”. Achei que iam durar pouco, mas a pandemia se estendeu.  Hoje, as crônicas falam de tudo e, desconfio, vieram para ficar. Mas, a coluna não perdeu sua essência que é a de falar sobre a Sétima Arte e seus afluentes. Boa leitura!

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Quatro trilhas sonoras e um funeral

Quando somos jovens nos sentimos imortais. Não pensamos sequer na velhice que dirá na morte! A percepção da finitude chega aos poucos, depois dos 50 ou 60 anos. Às vezes demora mais, mas um dia acordamos com a certeza de que haverá um fim. Sim, eu sei, é óbvio que “todos morreremos um dia” - exceto talvez a rainha Elizabeth II e o José Sarney- mas não passamos a vida pensando nisso. Nem convém.

A partida do meu amigo dos tempos de faculdade, cuja dor dividi com vocês aqui na coluna, inevitavelmente me fez pensar na minha. Zeca e eu tínhamos apenas um ano de diferença, a favor dele. Quase ao final do terrível 2020, soube da morte de outro querido colega de profissão, com quem havia trabalhado décadas atrás. Aos 58 anos, o coração dele parou enquanto dormia. Como foi súbito, os dois nem devem ter notado que a figura de preto e foice andava rondando. Não sei se eles estavam preparados, se deixaram testamento ou orientações para o próprio funeral.

Há pessoas que temem falar da morte por medo de atraí-la. Não é o meu caso. Embora desejando que ela ainda demore bastante, já comecei a falar sobre isso com meu companheiro de vida e com meus amigos mais próximos. Não é morbidez, é pragmatismo.

O básico: enterro ou cremação? No meu caso, cremação. Infelizmente, nos últimos anos estive em vários crematórios para dar adeus. Percebi que sempre há uma espécie de mestres de cerimônia no velório. O discurso, ou sermão, é adaptado à religião da pessoa que está sendo velada.

Apesar do clima triste confesso que não consigo deixar de prestar atenção à oratória e ao tom de voz do ministrante. Talvez por cacoete da profissão, fico reescrevendo o texto mentalmente e pensando que algumas sessões com a fonoaudióloga ajudariam na dicção.

Outra coisa que me chama atenção nos velórios é a trilha sonora que nem sempre leva em conta o gosto musical do morto. Nem todo mundo pode ter o Elton John tocando na despedida, como aconteceu no enterro da princesa Diana. Ou tem o talento do Robbie Williams que escreveu uma música para o seu próprio funeral. O cantor britânico falou que quando morrer, não quer ser enterrado ao som do seu grande sucesso “Angel”.

Nem eu quero o Kenny G nos ouvidos dos amigos que forem se despedir de mim. Para garantir que isso não aconteça, uma querida amiga e eu já combinamos trocar listas Ainda estou rascunhando meu repertório, mas conto algumas escolhas para vocês : “Rain”, do Ryuichi Sakamoto, “Years of Solitude”, do Piazzolla, “Si me voy antes de vos”, na voz de Mercedes Sosa que comparece também com “Solo lo pido a Deus”, mas pode ser a versão em português da Bete Carvalho. Pretendo incluir ainda a ária de Lakmé, “The Flower Duet” e não podem faltar Maria Callas e Elis, claro. Vai bem “Juizo Final”, do Nelson Cavaquinho e “Telegrama” do Zeca Baleiro. Pra animar a turma, “Ya no sé qué hacer conmigo“, do Cuarteto de Nós” e “Treasure” do Bruno Mars . Lista super eclética, né?!. Ai, faltou a Billie, o Tom Waits, o Paulinho da Viola, a Amy Winehouse, a Etta James, o Jorge Drexler, a Concha Buika, os Beatles...

A minha trilha sonora ainda é uma “obra em construção”, mas para usar todas as músicas que amo vou ter que morrer quatro vezes !

(Brígida De Poli)

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DICAS

FILMES

Relatos do mundo – direção:Paul Greengrass – 2020 -Netflix

Outra super produção de olho no Oscar é esse drama-western “News of the world” . A começar pelo protagonista: Tom Hanks,em seu primeiro faroeste. Ele interpreta um veterano de guerra que viaja de cidade em cidade lendo notícias, mas decide levar uma órfã  que encontra pelo caminho até o Texas, uma viagem extremamente perigosa. A garota foi sequestrada por índios e agora não fala. Lidar com o trauma dela é um desafio para o seu salvador.

Tom Hanks já trabalou com o diretor em “Capitão Phillips” que nem foi tão bem sucedido assim. A garota é vivida por Helena Zengel, de 12 anos. Vai ser bonito ver a disputa entre as duas atrizes mirins, ela e Caoilinn Springal, de 7 anos, do filme de George Clooney “O céu da meia noite”.

 

A ilha das rosas – direção: Sidney Sibillia – 2020 - Netflix

Demorei um pouquinho para ver o filme que conta a história de um engenheiro idealista  que constrói a própria ilha no litoral da Itália e a declara uma nação independente. Achei que era uma trama fantasiosa demais. Pois não é que... realmente aconteceu! E aí me pergunto como não filmaram essa história antes? O engenheiro e aventureiro Georgio Rosa conseguiu realizar seu sonho na década de 80, mas o governo italiano não gostou nada da ideia. Não vou contar muito para não dar spoiler, mas o filme é divertido e vale assistir. Sugiro que só depois leiam a história real.

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SÉRIES

Confesso que ando com dificuldade de encontrar ótimas séries para sugerir. A quantidade de novos títulos não é proporcional à qualidade. Então, enquanto não chega a nova temporada de Peaky Blinders ou de A Maravilhosa Mrs. Masel, aqui vai uma “garimpada” e outra estreando com alarde.


The Capture -  seis episódios – StarzPlay/Prime

Esse suspense confirma a máxima de que produção da BBC é sinônimo de qualidade. “The Capture” é uma  daquelas que deixa a gente louca pelo  próximo episódio tal o clima de tensão e as reviravoltas constantes. A sinopse: O soldado inglês Shaun Emery é acusado de assassinato no Afeganistão e a prova é um vídeo, “desmontado” pela advogada de defesa. Depois de ser libertado, ele se vê novamente envolvido num suposto crime, flagrados pelas câmeras de rua. Holly Grainger (a atriz carismática que faz a série de detetive “CB Strike” - baseada nos livros da autora de Harry Potter - que já indiquei pra vocês) é a investigadora transferida da Divisão de Contraterrorismo para a de Homicídios que vai ter que deslindar o mistério.


Cidade Invisível – direção: Carlos Saldanha – Netflix

Uma série brasileira  que foi criada por Carlos Saldanha, o brasileiro que concorreu ao Oscar por animações como Rio e A Era do Gelo, já tem porque gerar expectativas.  Ainda não tive tempo de ver, mas a ideia é boa: misturar as figuras do folclore como a Iara e a Cuca (esta última bem na moda atualmente, se é que me entendem...rs). com suspense. Gosto do jovem ator que faz o papel principal, Marco Pigosso, e Alessandra Negrini também está no elenco.

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BÔNUS:  “AS JANELAS”

Um momento "culto ao ego" da colunista: não deixem de ver as cenas adaptadas do meu texto "A Mulher na Janela", no Instagram. O trabalho do grupo de atores Lika Rosá, Narciso Telles, Tiago Cruvinel, Marcelo Rocco e Vicente Concílio, com supervisão de Mariana Muniz, ficou lindo. As cinco cenas + o vídeo de encerramento estão disponíveis em @asjanelass.

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THE END

(*) Fotos reprodução/divulgação

Tags:
cinema séries beijos de cinema arte cultura séries de TV netflix
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Brígida Poli

Brígida Poli

Jornalista, cinéfila desde criancinha e maníaca por séries de TV desde "Os Sopranos". Não se considera crítica de cinema, pois não consegue deixar o coração de lado na hora de avaliar um filme. Adora falar e escrever sobre o assunto e tenta chamar a atenção para as grandes obras cinematográficas que as novas gerações desconhecem. Concorda com o mestre Federico Fellini quando ele disse que "o cinema é um modo divino de contar a vida".

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