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|Radar Econômico| Não é sobre cotas. É sobre vidas, oportunidades e o futuro de Santa Catarina

Foto: Marcello Casal jr/Agência Brasil

Por Janine Alves, colunista de economia do Portal Making Of 

 

O debate sobre cotas raciais não deveria ser um embate ideológico abstrato. Ele trata, essencialmente, da vida real de pessoas que enfrentam barreiras históricas e estruturais para acessar a educação superior, qualificar-se profissionalmente e romper ciclos persistentes de exclusão social. Ao reduzir essa discussão a uma leitura fria de números, o Governo de Santa Catarina opta por ignorar o que está no centro do problema: desigualdades concretas que se expressam no acesso desigual à escola, à universidade, ao emprego e à renda.

Em manifestação ao Supremo Tribunal Federal (STF), o governo catarinense defendeu a constitucionalidade da lei que proíbe cotas raciais nas universidades estaduais ao alegar que a norma estaria adequada às “singularidades demográficas” do estado, que teria “a maior proporção de população branca do país”, com base em dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). O argumento, apresentado pela Procuradoria-Geral do Estado, tenta transformar um tema de justiça social em uma equação estatística simplificada, como se a composição racial da população fosse capaz de anular desigualdades históricas, raciais e socioeconômicas amplamente documentadas no Brasil.

Essa linha de raciocínio não apenas contraria a jurisprudência consolidada do STF — que reconhece as ações afirmativas como instrumentos legítimos de promoção da igualdade material —, como também esvazia o próprio sentido constitucional do princípio de “tratar desigualmente os desiguais”. Ao deslocar o foco da desigualdade estrutural para um argumento demográfico, o governo catarinense desconsidera que o racismo opera independentemente da maioria ou minoria numérica e que seus efeitos se manifestam, sobretudo, nas oportunidades negadas ao longo da vida.

Não se trata de privilégio, mas de correção de assimetrias. A exclusão do acesso à universidade impacta diretamente a formação de capital humano, a produtividade da economia e a capacidade do estado de responder a desafios contemporâneos — da inovação tecnológica à redução das desigualdades regionais. Negar instrumentos de inclusão educacional é, também, comprometer o desenvolvimento econômico de longo prazo.

Ao sustentar essa posição, Santa Catarina assume uma opção política que relativiza direitos fundamentais, confronta compromissos constitucionais e internacionais assumidos pelo Brasil e ignora evidências de que políticas de ação afirmativa ampliam oportunidades sem reduzir qualidade. No fim, não é sobre cotas. É sobre quem pode estudar, trabalhar, inovar e viver com dignidade — e sobre qual projeto de sociedade o estado escolhe defender.

 

Foto: Após chuvas, água barrenta volta a atingir praia em Garopaba / Crédito: reprodução.

Entre a lama, o esgoto e o mar: o preço da negligência urbana. Planejamento urbano não é ideologia, é sobrevivência econômica. A falta de responsabilidade com a infraestrutura urbana — saneamento básico, coleta de lixo, mobilidade e drenagem — somada à negligência com planos diretores que deveriam orientar a ocupação do solo de acordo com as condições ambientais e os riscos existentes, tem produzido efeitos econômicos e sociais graves. Permitir construções que obstruem o fluxo natural da água, autorizar ocupações em áreas alagáveis — seja por maré cheia ou por chuvas intensas — e liberar loteamentos associados ao desmatamento desenfreado resulta, inevitavelmente, em lama, degradação ambiental e perda de qualidade de vida.

O impacto é direto sobre o turismo, uma das principais atividades econômicas de Santa Catarina. A queda no número de turistas em Florianópolis, os recorrentes episódios de falta de balneabilidade nas praias e o mar de lama que desemboca em Garopaba, assim como os esgotos que chegam a tantas outras praias, são sinais claros de um modelo que prioriza a especulação imobiliária em detrimento do planejamento, do cumprimento das leis naturais e da própria Constituição Federal. Paraísos naturais não resistem ao lucro a qualquer custo nem à ausência de visão de futuro — e a conta chega, cedo ou tarde, à economia e à vida das pessoas. A crise climática bate à porta e já está entre nós, mas muitos ainda insistem em olhar para o próprio umbigo e negar o óbvio.

 

Campanha contra o trabalho escravo na cadeia da maçã. O Ministério Público do Trabalho em Santa Catarina (MPT-SC) lançou em janeiro uma campanha de combate ao trabalho análogo à escravidão nas plantações de maçã, com veiculação em rádio, redes sociais e TV, cujo primeiro vídeo foi exibido em 28 de janeiro, Dia Nacional de Combate ao Trabalho Escravo, data instituída em memória aos auditores-fiscais assassinados na Chacina de Unaí (MG), em 2004. Com o conceito da “maçã podre”, as peças alertam para o risco de uma única prática irregular contaminar toda a cadeia produtiva, reforçando a responsabilidade do produtor e a necessidade de garantir trabalho digno.

 

📊 Termômetro da Economia

Acompanhe os principais indicadores que mostram o pulso da economia em Santa Catarina, no Brasil e no mundo.

 

Foto: Ricardo Wolffenbüttel/Arquivo/Secom

Santa Catarina cria 59,2 mil vagas em 2025, mas desaceleração acende alerta. Santa Catarina encerrou 2025 com a criação de 59,2 mil postos formais de trabalho, ocupando a sétima posição nacional na geração de empregos, segundo o Novo Caged. Apesar do saldo positivo, o desempenho revela desaceleração da economia catarinense: o crescimento de 2,3% em relação a 2024 foi um dos menores do país, colocando o estado na 23ª posição no ranking de expansão do emprego. A indústria abriu 6,9 mil vagas no ano, mas foi o setor mais afetado pela perda de ritmo, pressionada pelos juros elevados e por fatores externos, como o “tarifaço”, que resultou no fechamento de 2,8 mil postos nos segmentos de madeira e móveis. Para o presidente da Federação das Indústrias de Santa Catarina (FIESC), Gilberto Seleme, a taxa de juros elevada tem reduzido consumo e atividade econômica, impacto mais visível na indústria. Em contrapartida, serviços (38,7 mil vagas) e comércio (12 mil) sustentaram o mercado de trabalho estadual, enquanto os dados de dezembro — com perda de 48 mil empregos — confirmam o arrefecimento da economia no fim do ano.

 

Copom mantém Selic em 15% e sinaliza início de cortes em março. O Banco Central do Brasil decidiu nesta quarta-feira (28), por unanimidade, manter a taxa básica de juros em 15% ao ano, mas indicou que poderá iniciar a flexibilização da política monetária na próxima reunião do Comitê de Política Monetária (Copom), em março, diante de sinais de maior controle da inflação. No comunicado, o comitê afirmou que, confirmando-se o cenário esperado, dará início ao ciclo de cortes, preservando o grau de restrição necessário para garantir a convergência da inflação à meta. O atual patamar da Selic é o mais elevado em quase duas décadas, próximo ao registrado em julho de 2006, ainda no primeiro mandato do presidente Luiz Inácio Lula da Silva, quando a taxa chegou a 15,25% ao ano, e tem sido alvo de críticas do governo pelo impacto restritivo sobre a atividade econômica.

 

Entre o caos anunciado e a realidade. Entre expectativas caóticas e a realidade, o mercado segue desconfortável com fatos que contradizem narrativas. A B3 voltou a bater recorde nesta quarta-feira (28), com o Ibovespa alcançando 184.691 pontos (+1,52%), alta de 11,83% em apenas duas semanas e recordes em oito das últimas 11 sessões, enquanto o dólar permaneceu estável em R$ 5,206 — o menor patamar em quase dois anos. Ainda assim, parte do mercado evita reconhecer o movimento como bull market, mesmo com a bolsa acumulando forte valorização.

 

📡 |Radar Político|

Fatos que marcaram a semana com impactos diretos na vida em sociedade e nos rumos da economia.

 

SC destrava gargalo histórico da BR-101 no Morro dos Cavalos. Santa Catarina iniciou nesta quarta-feira (28) a solução de um dos maiores entraves logísticos do país: o trecho do Morro dos Cavalos, na BR-101, que há décadas concentra congestionamentos, acidentes e custos elevados ao transporte. Com projeto executivo do Departamento Nacional de Infraestrutura de Transportes (DNIT) e licenciamento ambiental, a intervenção prevê a construção de dois túneis, com início das obras previsto para este ano e conclusão em 2029. Anunciada pelo ministro Renan Filho, a medida envolve a transferência de cerca de 23 km da rodovia do contrato da Arteris Litoral Sul para a ViaCosteira, administrada pela Motiva, viabilizando um investimento estimado em até R$ 3 bilhões. O impacto esperado é direto sobre a segurança viária, a previsibilidade das viagens e a competitividade do estado, reduzindo perdas logísticas em um corredor essencial ao turismo, à indústria e ao comércio interestadual. O anúncio integra a caravana “Na Boleia do Brasil” e se conecta ao avanço do Corredor Bioceânico do Sul, ampliando a integração regional e o acesso aos mercados do Cone Sul e ao Pacífico.

 

Túnel de Jaraguá do Sul avança e deve ser entregue em 2026. As obras do túnel duplo que atravessa o Morro do Vieira, em Jaraguá do Sul, seguem em ritmo avançado na BR-280 e têm conclusão prevista para o segundo semestre de 2026, segundo o Departamento Nacional de Infraestrutura de Transportes (DNIT). Com cerca de um quilômetro de extensão, 11 metros de altura e pavimento rígido em concreto, a estrutura integra o lote 2.2 da duplicação dos 73,9 km da rodovia entre São Francisco do Sul e Jaraguá do Sul, ligando os bairros João Pessoa e Três Rios. Executado em duas fases de escavação e com dupla camada de concreto para reforço estrutural, o túnel já ultrapassa 80% de execução e é considerado estratégico para a logística regional, embora o avanço da duplicação siga condicionado ao impasse do lote 1, paralisado desde 2022, em um empreendimento orçado em cerca de R$ 1,7 bilhão.

 

📡 |Sustentabilidade & Regeneração|

Histórias e práticas que revelam como empresas estão integrando sustentabilidade, impacto social e inovação regenerativa aos seus modelos de negócio.

Incra reconhece território pesqueiro em Naufragados. Moradores da Praia de Naufragados, no Extremo Sul de Florianópolis, tiveram o território pesqueiro reconhecido pelo Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária (Incra) como Projeto de Assentamento Agroextrativista (PAE), decisão publicada nesta quarta-feira (28). A medida delimita áreas legais de permanência e de trabalho extrativista, integra a comunidade ao Programa Nacional de Reforma Agrária e beneficia 34 famílias dedicadas à pesca artesanal, em uma área de aproximadamente 3,35 hectares pertencente à União Federal. O reconhecimento representa um avanço após quase 20 anos de conflitos, ameaças e demolições, agravados por restrições associadas ao Parque Estadual da Serra do Tabuleiro e à delimitação de Áreas de Preservação Permanente, reforçando renda, justiça social e preservação ambiental.

 

📡 |Custos Ambientais & Responsabilização|

 

ICMBio multa loteamento por impacto ambiental em Garopaba. A Área de Proteção Ambiental da Baleia Franca (ICMBio) autuou o Loteamento Panorâmico, em Garopaba, após identificar impacto ambiental provocado pelo lançamento de lama que atingiu a Praia Central do município em razão das chuvas registradas no dia 18. De acordo com o órgão federal, vistoria técnica constatou o descumprimento de condicionantes da licença ambiental, o que favoreceu o carreamento de sedimentos pelo sistema de drenagem até o canal e o ambiente marinho, caracterizando impacto direto sobre a unidade de conservação, mesmo o empreendimento estando fora de seus limites territoriais. A multa aplicada foi de R$ 100 mil, com base no artigo 91 do Decreto Federal nº 6.514, levando em conta a gravidade da infração e o porte da empresa, e o Instituto do Meio Ambiente de Garopaba (IMAG) também apontou indícios de infração ambiental relacionados ao lançamento de sedimentos na rede de drenagem e em corpos hídricos do município.

 

💼 Negócios em Movimento

Cases de sucesso que mostram a força, a inovação e a presença estratégica das pessoas, empresas e instituições catarinenses no Brasil e no mundo.

 

Programa Juro Zero soma R$ 86,7 milhões em microcrédito em 2025. A Associação das Instituições de Microcrédito e Microfinanças da Região Sul do Brasil (Amcred-Sul) divulgou o balanço de 2025 do Programa Juro Zero em Santa Catarina, que totalizou 17.903 contratos de empréstimos, somando R$ 86,68 milhões, com média mensal de R$ 7,22 milhões. Apenas em dezembro, foram realizadas 1.268 operações, no valor de R$ 6,1 milhões. Mantido pelo Governo de Santa Catarina e operado pelo Agência de Fomento do Estado de Santa Catarina (Badesc), o programa alcança, desde sua criação em 2011, 206.745 operações e um volume acumulado de R$ 786,9 milhões em crédito. Segundo o presidente da Amcred-Sul, Ivonei Barbiero, o desempenho de 2025 foi impactado por uma pausa operacional de 20 dias em maio, além de maior cautela tanto dos empreendedores na tomada de crédito quanto das organizações na análise de risco, refletindo um cenário econômico mais conservador.

 

Cooperativismo. O Sicoob encerrou 2025 com a distribuição de R$ 2,6 bilhões em Juros ao Capital aos seus cooperados, um crescimento de 48% em relação ao ano anterior, reforçando a solidez do cooperativismo financeiro e a capacidade do modelo de gerar resultados compartilhados. A remuneração é calculada de forma proporcional à participação de cada cooperado no capital social e reflete o princípio da participação econômica, no qual os associados são, de fato, donos do negócio. Do total nacional, o Sicoob SC/RS responde por R$ 233,3 milhões distribuídos a mais de 1,7 milhão de cooperados, alta de 45,3% frente a 2024. Segundo Ênio Meinen, diretor do Sistema, o avanço expressivo reflete eficiência de gestão e fortalecimento patrimonial, permitindo ampliar investimentos, competitividade e impacto positivo no desenvolvimento local.

 

Foto: Neto Eventos investe em mega centro e projeta R$ 30 milhões em receita / Crédito: divulgação.

Neto Eventos investe em mega centro e projeta R$ 30 milhões em receita. A Neto Eventos iniciou em janeiro a operação de seu Centro de Formação e Armazenamento na área industrial de Palhoça, na Grande Florianópolis, reforçando a eficiência logística e a escala operacional da companhia. Com mais de 2 mil m² e capacidade para armazenar 40 toneladas de equipamentos, o complexo centraliza áreas técnicas, frota e serviços, sustentando a expansão regional e nacional do negócio. Referência em soluções full service (luz, áudio, vídeo e transmissão), a empresa realizou 250 eventos em 2025 em Santa Catarina, São Paulo, Rio Grande do Sul e Minas Gerais. O projeto incorpora diretrizes de sustentabilidade e abriga a futura Neto Academy, além da primeira oficina de manutenção de painéis de LED do Sul do país — movimento que reduz custos logísticos e amplia receitas com atendimento a terceiros. Maior compradora de painéis de LED da Hikvision na América Latina, com parque tecnológico de 1.000 m² em LEDs, a Neto Eventos soma 27 anos de atuação, mais de 5 mil eventos realizados (impacto estimado de 6 milhões de pessoas) e projeta faturamento de R$ 30 milhões em 2026, ancorado em um plano de expansão de R$ 11 milhões em investimentos.

 

🧭 Circuito

Acompanhe os eventos que movimentam o setor econômico em Santa Catarina

O Empreende Brazil Conference 2026 será realizado nos dias 22 e 23 de maio de 2026, na Arena Opus, em São José. O evento promete dois dias de imersão com grandes nomes do mercado, programação focada em conteúdos práticos, conexões estratégicas, oportunidades reais de negócios e experiências voltadas ao empreendedorismo, inovação e crescimento empresarial.

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