Crônica de Anna Tscherdantzew*
Começou o BBB. Não que eu saiba quem são as pessoas do reality show ou assista, muito menos sei como funciona esse grande negócio. Mas, nos últimos dias, nas redes sociais e nos veículos de comunicação, falou-se demais da conta sobre o programa e as atitudes de um participante.
Todos os dias surge uma “notícia” diferente, envolvendo gente de quem não temos a mínima ideia de quem são de verdade ou do que fazem de produtivo ou importante na vida para merecer que estejamos falando (ou escrevendo) sobre elas. É o processo de Kardashianização do mundo, no qual elevamos a um patamar de significância pessoas que nunca fizeram nem fazem nada de útil, a não ser enriquecer às custas da exploração da nossa falta de seletividade e foco, bem guiados pelo algoritmo. Essencialmente, o que fazem é esperar serem seguidos nas redes e que compremos os produtos indicados por eles. Quanto mais polêmica, mais engajamento; quanto mais engajamento, mais parceiros comerciais — então, melhor.
Mas de onde sai essa vontade de saber tudo, nos mais sórdidos detalhes, sobre a vida alheia? Não vem apenas das manchetes caça-atenção, com seus títulos que muitas vezes não têm nada a ver com o conteúdo, feitos apenas para a gente clicar por curiosidade. Muito menos da identificação com aquela pessoa ali, montada e fazendo pose com bico de pato, usando o dinheiro que ganha sabe-se lá como e gastando em festas espetaculosas, roupas e objetos extravagantes, enquanto exalta sua origem humilde.
A obsessão pelo outro, especialmente pela sua desgraça ou pela treta, faz da procura incessante e da troca por informações irrelevantes um serviço de total inutilidade pública super eficiente. Não falta quem tome partido, crie brigas e persiga os desafetos dos desafetos. Tem quem tatue o nome, batize o filho, insulte e ameace.
E, enquanto nós discutimos se o BBB foi sacana por contar as traições que cometeu, essa gente inútil só enche ainda mais os bolsos de dinheiro, e a nossa vida continua com os mesmos problemas e sem as reflexões necessárias. A gente se acostumou ou simplesmente acha mais fácil falar das inutilidades públicas do que saber o que está acontecendo na nossa comunidade?
Eu poderia citar vários outros casos que viralizaram, como os riquinhos em Florianópolis que espancaram um cachorro da comunidade até a morte; poderia falar das guerras mundo afora, do presidente de um certo país que pensa ser a reencarnação de Alexandre, o Grande, mas está mais para Calígula; e, se quiserem falar do BBB, analisar, responsabilizar e discutir o assédio cometido ao vivo — mas isso a gente não quer, porque o bizarro não nos faz pensar nem nos posicionar, ele só nos faz fofocar sem nos comprometer.
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Sobre Anna Tscherdantzew

Praticamente uma bucica caramelo, sou uma mistura de russos, mongóis, gregos, alemães, brasileiros e, dizem, descendente de Gengis Khan e dos Romanoff. Morar pelo mundo, ficar no quintal de casa, cozinhar, pegar o caminho errado pra descobrir um lugar novo, música, minha família e amigos, natureza, observar o comportamento humano, ler e escrever mentalmente crônicas ficcionalistas (ficções realistas) são minhas principais ocupações.
Formada em Publicidade pela PUCRS, pós-graduada em Marketing pela FGV, Master em Fashion Design pela NYFA (Seattle) e Digital Design pela Santa Barbara City College (Califórnia). Docente (Unisul), Pesquisadora e moderadora de focus group (Agencia Um, Mapa Pesquisa de Mercado), Designer (Nordstrom), Figurinista Independente de Filmes e Music Videos (Los Angeles), Produtora e Roteirista (Radicci Entretenimentos), Co-apresentadora do programa de Viagem e Pesca On The Rod (Canal Fish TV e Iotti TV) e Colunista (Portais Sler, Fumetta, Leouve e Making Of).
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