Novembro 21, 2021

Um baú de intenções

Um baú de intenções

Um baú de intenções

Estava procurando um recorte velho de jornal no baú de guardados, quando comecei a achar coisas esquecidas no tempo. Uma delas foi uma pasta com cadernos de grandes quadriculados. Levei alguns segundos para lembrar de ter me matriculado num curso de japonês, lá pelos idos dos anos 80. Eu sonhava em visitar o país do sol nascente para conhecer os templos e as cerejeiras de Quioto.

Aprender o hiragana, o katagana e o kanji, as três formas de escrita, não era para meus parcos neurônios. Desisti das aulas ao fim de um semestre. Foi tempo suficiente apenas para falar bom dia, boa noite, meu nome é, sou brasileira e escrever algumas palavras, entre as quais uma que faria parte do nosso dia a dia muito tempo depois, sushi.

Os cadernos e as lições, corrigidas em vermelho, encontradas no baú me fizeram indagar para onde iriam os desejos e as intenções que permeiam nossa vida depois de descartados.

Não falo dos grandes sonhos frustrados. Esses a gente sabe para onde vão e não é um lugar ensolarado. Refiro-me aos impulsos. Na hora a gente jura que vai adorar fazer tal coisa, começa e logo abandona por preguiça ou desinteresse. No meio dessas reflexões lembrei de ter feito, no século passado, uma aula de esgrima. Aprendi a postura e os primeiros movimentos. Cheguei a escolher até o padrinho, um esgrimista mais velho e experiente, como mandava o protocolo. Fui embora do clube naquela noite e nunca voltei para a segunda aula.

Um outro desejo sequer cheguei a testar. Fiz orçamento para lições de canto, mas nunca me matriculei.

O problema de mexer no baú da memória é que depois a gente se pega pensando:

 Se eu tivesse levado adiante o que comecei, teria me tornado uma tradutora de japonês, uma exímia esgrimista, uma famosa cantora de ópera?!

Jamais saberei.

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MICROCONTO DE DOMINGO

O desafio apresentado pelo escritor e professor Robertson Frizero para o coletivo @literaturaminima era escrever um microconto de até cinquenta palavras, a partir do ditado: Se arrependimento matasse...

O meu foi esse.

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Brígida Poli

Brígida Poli

Jornalista, cinéfila desde criancinha e maníaca por séries de TV desde "Os Sopranos". Não se considera crítica de cinema, pois não consegue deixar o coração de lado na hora de avaliar um filme. Adora falar e escrever sobre o assunto e tenta chamar a atenção para as grandes obras cinematográficas que as novas gerações desconhecem. Concorda com o mestre Federico Fellini quando ele disse que "o cinema é um modo divino de contar a vida".

MOF 5

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