Novembro 07, 2021

Um gosto amargo na boca

Um gosto amargo na boca

Em maio do ano passado questionei os leitores da coluna sobre nossa mania de rir da própria desgraça. Estávamos enfrentando os primeiros tempos da pandemia. Escrevi, alarmada, que já eram dezenove mil mortos pelo coronavírus no Brasil. Tive o atrevimento de reproduzir algumas piadas das redes sociais sobre o tema.

Um ano e cinco meses depois e seiscentos e nove mil mortes, já tenho resposta para aquela pergunta. Mas, prefiro ouvir vocês. Só digo que sinto um gosto amargo na boca.

Deixo aqui a crônica original. Talvez alguns leitores assíduos lembrem do que responderam na época. E aí? Me contem.

 

AINDA VAMOS RIR DISSO TUDO

A capacidade que o brasileiro tem de rir da própria desgraça faz parte da identidade nacional. Não poupamos nem Airton Senna ou outro ser do panteão de heróis populares. Sequer isentamos a mãe, esse ser sagrado, das nossas "gracinhas". Não está sendo diferente com a maior tragédia que o país já enfrentou. São mais de 19 mil mortos, mas o coronavírus virou uma fonte inesgotável de piadas e memes nas redes sociais.

Deixo para os psicólogos, sociólogos, antropólogos e demais especialistas do comportamento humano analisarem esse traço em profundidade. Posso arriscar alguns palpites sem base científica. Seria uma espécie de exorcismo do medo, da dor e da perda? Ou apenas um aspecto da nossa dita malandragem e do "jeitinho brasileiro"?

Teorias à parte, me curvo diante da criatividade dos piadistas que lotam as redes com suas "sacadas" divertidas. E, sim, não sou tão politicamente correta a ponto de não achar graça desse humor enviesado, principalmente quando mistura pandemia com aquela outra desgraça que se abate no momento sobre o Brasil. Essa vamos deixar pra lá para não levantar polêmica. Vamos ficar no tema coronavírus/quarentena.

"Quando tudo isso acabar vou ficar uns 15 dias sem aparecer em casa!"

"Não vejo a hora de progredir para o semiaberto!"

"Será que é muito cedo para armar a árvore de Natal? Não sei mais o que fazer dentro de casa."

"Bem aventurados os que andam passeando à toa na rua, em breve eles verão o Senhor" – Teimosos 1.1.

Bem, voltando ao início: "Um dia vamos rir disso tudo" é o título de um livro de Maria Alice Barroso, de 1984, e também um "mantra" que usamos quando nos vemos diante de uma situação ruim.

Estamos fazendo piadas agora e rindo de nervosos, mas quando olharmos para trás vamos conseguir achar alguma graça de 2020? Pensando bem acho que caberia um ponto de interrogação no título deste texto. "Um dia vamos rir disso tudo?". Responda você.

(22/05/2020)

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MICROCONTO DE DOMINGO


Desafio do @literaturaminima, conto em 50 palavras sobre pessoas obrigadas a viverem longe de sua terra. Mentoria: escritor Robertson Frizero.

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Brígida Poli

Brígida Poli

Jornalista, cinéfila desde criancinha e maníaca por séries de TV desde "Os Sopranos". Não se considera crítica de cinema, pois não consegue deixar o coração de lado na hora de avaliar um filme. Adora falar e escrever sobre o assunto e tenta chamar a atenção para as grandes obras cinematográficas que as novas gerações desconhecem. Concorda com o mestre Federico Fellini quando ele disse que "o cinema é um modo divino de contar a vida".

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