Novembro 17, 2020

Uma eleição para quebrar paradigmas

Uma eleição para quebrar paradigmas
REPRODUÇÃO/BAND NEWS

A reeleição de Gean Loureiro, que lhe deu status de personagem nacional nas muitas conquistas do DEM nas maiores cidades e abriu portas para entrevistas - como esta ao Canal Band News (foto) -, foi uma vitória tão estrondosa, que, ao mesmo tempo, retirou seus maiores adversários do páreo e provocou que MDB e PP ficassem sem nenhuma cadeira na Câmara, sem esquecer que impôs três vezes mais votos do que Elson Pereira (PSOL) e quase o quádruplo para Pedro Silvestre (PL).

Um efeito tão devastador que terá reflexos na eleição estadual, em 2022, porque arranha os projetos de Angela e Esperidião Amin, ambos do PP; de Dário Berger, do MDB; dos tucanos, que se alinharam em torno de João Batista Nunes, que de vice de Gean virou companheiro de chapa de Angela; além do PSL, do governador afastado Carlos Moisés, que ficou na estrada, e de quebra atinge o senador Jorginho Mello, visto que a candidatura de Pedro Silvestre pelo PL, não decolou.

Para o PSOL, que sempre foi a pedra do sapato do prefeito na Câmara, o recado foi claro, mesmo diante de uma articulação que reuniu uma frente de partidos de esquerda: está na hora de melhorar o discurso e avançar em composições mais ao centro, uma necessidade de pluralidade.

Se a leitura é a de que Gean ganha musculatura para alçar um voo maior em direção ao governo do Estado, o que deve depender da conjuntura, já é justo projetar que, sem a necessidade de se amarrar a Jair Bolsonaro ou a outro cacique, administrar o segundo maior colégio eleitoral do Estado é um passaporte e tanto para qualquer especulação ou projeto. 

 

Recordar é viver

Repare nesta foto abaixo, é de 2016, logo após o anúncio da vitória de Gean sobre Angela, no segundo turno, por 1.153 votos, decisão apertada e que reuniu, em torno do então emedebista, o senador Dário Berger e o eleito vice, João Batista Nunes.

Quatro anos depois, o prefeito eleito em primeiro turno mudou a cara do jogo, implementou obras em todos os bairros de Florianópolis, separou-se dos ex-apoiadores, que agora o chamam de traidor, ganhou luz própria e com razão declara que venceu, nas urnas, grupos políticos poderosos que se aliaram contra a candidatura dele.   

 

Jogo apertado

Com 12 candidatos à prefeitura, em Blumenau só isso tirou a vitória de Mário Hildebrandt (Podemos) no primeiro turno.

Ele fez mais 47 mil votos do que o ex-prefeito João Paulo Kleinübing (DEM) e garantiu 42,53% dos votos válidos, uma resposta do eleitor e de Hildebrandt aos que apostaram que ele não tinha força política. Para Kleinübing, que também sofreu desidratação eleitoral em função de muita gente que transitava na mesma faixa política e ideológica, vale a máxima de que segundo turno é uma nova eleição.

 

Grandes derrotados

Risível foi o desempenho dos deputados estaduais Ricardo Alba (PSL), com 17.487 votos, embora tenha ficado à frente da ex-prefeita e grande adversária ideológica Ana Paula Lima (PT), e de Ivan Naatz (PL), que fez 7.227 votos, o que, no máximo, o colocaria como mais voltado à Câmara de Vereadores local (Bruno Cunha, do Cidadania, garantiu o posto com 4.892).

Naatz apostava tudo em suas eloquentes participações na direção do impeachment do governador Carlos Moisés (PSL), ora afastado, tendo proposto e relatado a CPI dos Respiradores, e sido voz atuante nas fases de admissibilidade dos dois processos que correm na Assembleia, enquanto Alba cedeu à questão da compra com pagamento antecipado, sem considerar que o tema não tem apelo popular.

 

Não só eles

Os parlamentares não ganharam projeção nenhuma com os processos de impeachment, muito pelo contrário, receberam tapinhas nas costas dos correligionários e de alguns empresários que passaram a ideia falsa de que o assunto tem potencial, o que nem a Polícia Federal, a Polícia Civil de Santa Catarina, o Ministério Público e o Tribunal de Contas veem.

Aliás, mesmo destino de Fernando Krelling (MDB), que deveria ser o herdeiro da força eleitoral do ex-governador Luiz Henrique, mas fez menos de 18 mil votos do que Darci de Matos (PSD) e 12 do que Adriano Silva (Novo), que vão para o segundo turno. Pior ainda foi o desempenho, se é que se pode chamar assim, de Rodrigo Minotto (PDT), em Criciúma, com 4.195 votos, o que o deixou em quarto ligar na disputa, 1.758 sufrágios atrás de Julia Zanatta (PL).

 

E agora?

Há poucos deputados estaduais que podem dizer que saem sem cicatrizes e feridas provocadas pelos ferimentos eleitorais, tampouco vitoriosos.

Muitos deles perderam em casa, nas bases, ou sequer conseguiram concretizar alianças estranhas e certamente vão reclamar da falta de recursos, já que a trama urdida contra Moisés não deu certo e nem veio a tempo de salvar candidaturas, motivo real de tanto ódio nos bastidores do Legislativo contra o Executivo.

 

Sem aventuras

A profusão de candidaturas às maiores prefeituras foi um veneno para quem resolveu se aventurar no mundo político, outsider ou não.

O fenômeno acabou com biografias em todos os cantos do Estado, tanto naqueles que confiavam em sua capilaridade nas redes sociais como grande plataforma quanto para os que apostaram na figura do presidente Jair Bolsonaro para ter a simpatia do eleitor no Estado mais conservador do país. A lição: Bolsonaro é capitão, com patrimônio eleitoral e político próprios, não cabo eleitoral.

 

HAUDREY MAFIOLETE/DIVULGAÇÃO

LÍDER DO SUL

O prefeito Clésio Salvaro (PSDB) é o grande líder político do Sul do Estado com a vitória expressiva de 72,6% dos votos válidos, quase o mesmo percentual que garantiu a vitória há quatro anos para a prefeitura de Criciúma. Clésio sempre apontou para 2022, quando definiria a sua atuação na majoritária, ganhou musculatura com o apoio do PSD, do vice Ricardo Fabris, também reeleito, com as bênçãos do deputado Julio Garcia, presidente da Assembleia. A presidente estadual do tucanato, a deputada federal Geovania de Sá, que tem base no maior município da região, visitou o prefeito reeleito, uma das estrelas da sigla, assim como comemora as 32 prefeituras conquistadas pelo PSDB catarinense.

 

Limonada

MDB garante a condição de maior partido de Santa Catarina, com 96 prefeitos eleitos, e bate no peito para dizer que, das 20 maiores cidades do estado, comandará cinco (Itajaí, Jaraguá do Sul, Camboriú, Brusque e Gaspar).

Mas perdeu Joinville, uma joia da coroa, o maior colégio eleitoral do Estado, praticamente não existe em Blumenau (terceiro maior); em Florianópolis (segundo maior), sucumbiu a uma aliança com o PP que não levou em consideração o sentimento da base, que só serve quando é para levar adiante propostas equivocadas, e faz tempo que não tem relevância em São José, o quarto maior em número de eleitores.   

 

Positivo

Governadora em exercício Daniela Reinehr (sem partido) testou positivo para Covid-19, 10 dias depois do festival sem máscara da visita do presidente Jair Bolsonaro a Florianópolis.

Daniela, que apresenta sintomas leves e cancelou as agendas em Indaial e Blumenau, nesta terça (17), estava entre as dezenas que participaram da formatura de policiais rodoviários federais na Academia da PRF na Capital do Estado, evento que está sob investigação inclusive da Vigilância Sanitária do município para saber se houve o cumprimento de regras de combate contra a doença.

 

Mais uma

Não é a primeira vez que Daniela passa perto de casos da Covid-19.

No dia 29 do mês passado, quando assumiu a interinidade do governo, 18 pessoas do staff estadual testaram positivo para o Coronavírus, durante a coletiva na sede do Centro Administrativo.

Todo mundo foi testado, inclusive os jornalistas que participaram do ato, desta vez marcado pelo uso de máscaras e de outras medidas de proteção contra a pandemia.

  

RÁPIDAS

* 55 + 1: Prefeito reeleito, Antônio Ceron (PSD), de Lages, garantiu uma vitória na disputa com a deputada federal Carmen Zanotto (Cidadania) por 56 votos, apertado é apelido.

* VIVA O JOÃO: Depois de passar por infortúnios, abrir mão da reeleição à Câmara dos Deputados e conviver com a marca de uma prisão controversa sobre matéria com prescrição, João Rodrigues (PSD) volta à prefeitura de Chapecó pelo voto popular e cheio de gás, como o maior líder político do Oeste.  

* NA CÂMARA: Para não dizer que nem todos os deputados estaduais que patrocinaram ou subscreveram a trama contra Moisés se deram mal, o suplente que votou pela admissibilidade do segundo processo, César Valduga (PCdoB) voltou a ter mandato com a garantia de 1.773 votos, sétimo mais votado à Câmara de Chapecó de 21 cadeiras.

* NA AMFRI: Observem com atenção as reeleições de Volnei Morastoni (MDB), em Itajaí, mais apertada, e a de Fabrício Oliveira (Podemos), com larga vantagem, ambos ganharam musculatura política extra na Foz do Rio Itajaí-Açú.

* FORTE: Antídio Lunelli (MDB), reeleito em Jaraguá do Sul, surge como uma das forças do MDB, com patrimônio eleitoral mais forte do que o do partido onde está filiado, tanto que só teve um adversário, Leandro Schmockel (NOVO), e garantiu 70,66% dos votos.

* DEU CERTO: Embora tenha amargado a derrota em Caçador para o reeleito Saulo Sperotto (PSDB), o deputado Valdir Cobalchini (MDB), que sempre apoiou Gean Loureiro, comemora a eleição do filho, o advogado João Cobalchini (DEM), à Câmara de Vereadores da Capital, o que ainda provoca especulações entre os emedebistas.

* AXIOMA: Uso das redes sociais não garantiu a eleição de quem se valeu 100% da ferramenta na campanha, até porque todo mundo a utiliza, prova de que nada substitui o contato permanente com o eleitor, relação de confiança que não é construída meses antes da eleição, mas com muito mais tempo. 

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Roberto Azevedo

Roberto Azevedo
Jornalista com 35 anos de profissão. Foi repórter, editor, chefe de Reportagem, editor-chefe, chefe de Redação, gerente e diretor de Jornalismo na RBS TV (Blumenau e Florianópolis), hoje NSC TV; na TV Record (Florianópolis) e na Rede TV Sul (hoje SCC SBT); comentarista na RIC TV (hoje NDTV) e na Record News; editor de Política e colunista no Diário Catarinense (DC), e colunista no Notícias do Dia (ND). Atuou nas rádios União AM e FM (Blumenau e Florianópolis) e na Rádio Record da Capital. Atualmente, além do Making Of, faz comentários na Rádio Cidade em Dia FM, de Criciúma, e é diretor de Conteúdo na TVBV (Band).
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