Abril 05, 2021

Uma entrevista com Upiara Boschi

Uma entrevista com Upiara Boschi
O jornalista Upiara Boschi foi demitido do grupo NSC depois de 15 anos de trabalho. Nesta entrevista, ele fala sobre o colunismo político que praticou até agora e o que pretende fazer no futuro, em Santa Catarina, pois não pretende sair daqui. Ele dá indícios em uma das respostas sobre o motivo da saída comunicada na quinta-feira da semana passada. No sábado, 3, o jornal impresso do grupo ainda continha uma de suas colunas. 


Making Of:
Por que você saiu da NSC?

Upiara Boschi: Foi uma decisão da empresa, mas eu entendo que havia um fim de ciclo da minha relação com o que sobrou do Diário Catarinense, que é o site NSC Total. Meu contrato era com eles, mas nos últimos tempos a minha motivação estava muito mais concentrada nas participações na televisão e no rádio. Entendo que a decisão da empresa passa por aí.


Making Of:
Imagina alguma restrição de ordem profissional ou econômica?

Upiara Boschi: Não vejo assim. Talvez alguma incompatibilidade com o modelo de negócio do site. Certamente não me encaixo nele. Se não fossem as participações em rádio e televisão, eu mesmo teria pedido para sair. Como algumas pessoas que trabalhavam no site fizeram recentemente.


Making Of:
Acha que a postura da empresa foi correta para alguém com 15 anos de casa?

Upiara Boschi: Eu queria despessoalizar essa pergunta para falar de uma angústia que é minha, de gente que já saiu e de gente que está lá dentro. Há muito pouco cuidado por parte da NSC com a história de veículos tão importantes para a história da comunicação em Santa Catarina como são o Diário Catarinense e o A Notícia. O passado parece um incômodo. O arquivo físico de jornais está esquecido em Criciúma, matérias de poucos anos atrás inacessíveis na internet – quando acessíveis, sem os nomes dos autores, substituídos por um genérico “Redação NSC”. Falo de coisas recentes, como o Caderno Nós, fonte de tantos prêmios de jornalismo. Nosso legado é um link quebrado. Se não há zelo com a história das marcas, não há como cobrar zelo com a história dos profissionais.


Making Of:
Em algum momento você recebeu orientação sobre o trabalho, algo em que você resolvesse melhorar?

Upiara Boschi: Eu tive cobranças de produtividade e audiência nos últimos meses. Eu vinha tentando aumentar a produção de textos no site, mas acho que a minha saída passa mais por corte de custos do que por isso.


Making Of:
E alguma observação sobre o conteúdo dos textos?

Upiara Boschi: Isso não. Sempre fui muito elogiado por textos e abordagens, inclusive na última semana. As cobranças sempre foram para que escrevesse mais.


Making Of:
Você tinha liberdade de opinar?

Upiara Boschi: Quando me convidou para ser colunista dos jornais, o ex-editor-chefe Domingos Aquino disse: Upiara, agora você ganhou o brevê da opinião. Que eu usei com bastante responsabilidade. Não tenho do que reclamar.


Making Of:
Como você definia os temas?

Upiara Boschi: Eu tinha muita liberdade para definir pauta e abordagem. Escolhia com base na relevância e pela característica que tentei construir de ser um explicador do jogo político.


Making Of:
Você ou a direção recebia pressão pela opinião que dava?

Upiara Boschi: Ao longo de quase 15 anos convivi com chefes que tinham mais ou menos talento na arte de blindar suas equipes das pressões externas. Os atuais chefes não são nem os mais talentosos e nem os menos.


Making Of:
Toda a demissão é traumática, ainda mais quando não há preparação. Como você está lidando com isso?

Upiara Boschi: Leitura de cenário é algo que a gente aprende a fazer inclusive internamente. Nos últimos meses eu percebi que algo poderia acontecer e comecei a pensar em como seria a vida sem a RBS/NSC. Quando o momento chegou, foi mais como alívio do que como frustração.


Making Of:
Pretende parar por um tempo ou abrir novos espaços imediatamente?

Upiara Boschi: O meu plano é passar um ou dois meses sem vínculo, mantendo ativas as redes do Instagram e do Twitter porque ali consegui criar uma relação muito boa com gente que gosta de política e de ouvir o que digo. Não quero perder isso. Também pretendo terminar um projeto que andava devagar, um romance com política catarinense de pano de fundo. Mas não vou deixar de conversar se vier uma proposta.


Making Of:
Pretende ficar em Santa Catarina?

Upiara Boschi: Quero continuar de olho na política catarinense. Esse é o plano.


Making Of:
Por fim, como você visualiza o futuro do comentário político?

Upiara Boschi: A gente vive um momento muito complexo de uma sociedade polarizada em discursos anti-isso ou anti-aquilo. Existem agentes que trabalham para manter o confronto, vivem desse confronto. Eles tentam deslegitimar o jornalismo profissional como intermediário porque assim tudo que quiserem dizer pode ser considerado verdade, tudo é narrativa. Nesse contexto, eu vejo que a relevância é a única forma do jornalismo continuar necessário. Só a relevância fura a bolha das narrativas. Como ser relevante no meio dessa Torre de Babel é o desafio para o futuro do comentário político e também do jornalismo.


Making Of:
Alguma consideração ao final da entrevista?

Upiara Boschi: Eu vivi uma jornada bonita na RBS/NSC e desejo boa sorte aos colegas que ficaram e boas decisões aos gestores. Agora começa uma nova jornada que espero que seja tão boa ou melhor que essa dos últimos 15 anos.
 
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Claiton Selistre

Claiton Selistre

Jornalista formado pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul, foi diretor de Jornalismo por 25 anos da RBS TV, TVCom e Rádio CBN/Diário em Santa Catarina. Antes atuou na  Rádio e TV Gaucha do grupo RBS e em redações de jornal, rádio e tv do grupo Caldas Jr. em Porto Alegre. Foi também repórter da na Sucursal do Jornal do Brasil. Planejou e Coordenou coberturas multimídia nas Copas do Mundo de Futebol na Alemanha, Argentina, Espanha, México, Itália, Estados Unidos, França e Japão/Coréia. Dirige a Making of há seis anos.

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