Junho 04, 2021

Moral, moral, moral

Moral, moral, moral
Reprodução/AE

- Cubra esses joelhos, menina! – dizia a freira entredentes, quando alguma de nós não se comportava dentro das regras. Era assim nos anos 60/70. No colégio apenas para moças, éramos obrigadas a usar a saia comprida do uniforme. E assim fazíamos...até bater o sino de saída. Mal passávamos o portão, enrolávamos a saia na cintura para mostrar um pedaço da perna. Éramos jovens, a minissaia era a grande novidade da moda e não queríamos parecer “ marias-mijonas” na frente dos garotos.

Mais tarde, integrei a primeira turma mista de um tradicional colégio marista. Só era permitido às meninas usarem calça comprida sob um casaco suficientemente longo para cobrir o derrière! Desta forma, nos ensinavam que perna e bunda eram partes do corpo a esconder. Os moralistas deviam sentir atração e achar que era “coisa do demônio”.

Encontrei há poucos dias, perdido numa gaveta, um jornalzinho feito em mimeógrafo (a xerox da época) que lançamos no colégio marista. Chamava-se “Manifesto” e a primeira edição tinha sido motivo para os participantes serem chamados na direção. Eu estava no meio por assinar o singelo conto “A Suicida”, sobre uma mulher que pensa em se matar e muda de ideia na última hora. Havia ainda um artigo sobre a influência do meio na formação social, uma poesia triste sobre a morte paterna e uma matéria sobre a ida do Brasil à Copa do Mundo do México. Senti falta neste exemplar do artigo que quase nos causou a suspensão, mas lembro até hoje como começava: Moral, moral, moral... e ousava defender a nudez como algo normal e não pecaminoso. Lembrei de haver sido censurado pela direção do Colégio. Não houve expulsão do autor na hora, mas nosso colega foi impedido de se matricular no ano seguinte. Percebo agora no jornalzinho achado no fundo da gaveta que ainda houve um último ato de rebeldia: o editorial denunciava a censura prévia. – Uma atochada, escreveu o editor.

Mas por que entrei no túnel do tempo e conto essas coisas a vocês? Por ter lido a postagem feita por um colégio do interior de Minas Gerais dizendo:  "Quando a mulher decide expor partes do corpo que deveriam estar cobertas se torna uma sedutora, partilhando assim a culpa do homem. De fato, os teólogos ensinam que o pecado da sedutora é muito maior que o da pessoa seduzida".  Fiquei perplexa, quase não acreditei! O texto simplesmente endossa a tese de que uma mulher estuprada ou assediada é culpada do crime. Afinal, na mentalidade dessas pessoas, a vítima seduziu o agressor.

Entre as histórias pessoais que contei no início desta crônica e a postagem atual do colégio mineiro, passaram-se cinquenta anos. Meio século! E a mulher ainda é vista como a serpente do Paraíso, aquela que leva bons homens aos pecados da carne. Mas tenho fé nas novas gerações.

- Cubra esses joelhos, menina!

- Não cubro!

(Brígida De Poli)

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DICAS

Séries

O Método Kominsky – 3ª temporada –  6 episódios-  2021 (Netflix)

Finalmente chegou a nova temporada da deliciosa série que fala de questões masculinas na velhice. Ela começa com uma grande surpresa, mas não vou dar spoiler.  As cenas das aulas de teatro, ministradas pelo Sandy Kominsky, personagem de Michael Douglas, são ótimas! Na minha opinião, uma delas especificamente pode dar novamente o Emmy e o Globo de Ouro para o ator outra vez. Pena que são apenas seis episódios. Bons diálogos estão fazendo falta nas séries atuais. Ah, de quebra ainda tem Morgan Freeman no papel dele mesmo.

 

Sanditon – 1ª temporada – (Films&Arts e Globoplay)

Uma bela surpresa para quem, como eu, curte os livros de Jane Austen. A obra dela se presta muito para adaptações no cinema. Esta série se baseia no romance inacabado da autora inglesa. Começa quando uma jovem - na Inglaterra do século 19-  vai passar uma temporada na cidade de Sanditon. Recém-saída do interior, Charlotte conhece as intrigas que envolvem nobres arruinados, a busca insana por casamentos ricos e, claro, ela se encontra entre dois belos rapazes: um pobre e bem-intencionado e outro rico e arrogante. Apesar de inacabado, o romance vai gerar uma segunda temporada.

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Filmes

Era uma vez na América – direção: Sérgio Leone – 1984 (Cine Belas Artes à la carte)

Esta obra derradeira de Sérgio Leone faz parte da lista dos meus 100 filmes favoritos! A saga de um grupo de gângsters, da infância à vida adulta, nos anos 20, traz cenas antológicas embaladas na trilha sonora genial de Ennio Morricone. Um dos nomes no elenco da fase adulta é Robert De Niro, quando ele ainda era um dos melhores atores de Hollywood. Ele interpreta um dos amigos de origem judaica que, junto com James Woods, chega ao topo da máfia. Tem violência, amor, drama e pitadas de humor nesse filmaço.

 

A última ceia – direção: Marc Forster – 2001 (Prime Vídeo)

Vou aproveitar e sugerir outro filme da minha lista de favoritos. Halle Berry é Letícia, uma mulher negra casada com um homem condenado à morte e mãe de um menino. Hank, vivido por Billy Bob Thorton, é um policial racista que passa por uma tragédia que muda seu olhar sobre o mundo. O saudoso Heath Ledger é o filho do policial. Um acidente causa outra perda. Hank e Leticia, uma dupla inusitada se junta em torno da dor. É um filme belo e triste, sem ser meloso. Halle recebeu o Oscar de Melhor Atriz pelo papel.

 

Oslo – direção: Bartlett Sher – 2021 (HBO/Now/Net)

O filme chega na HBO bem quando o assunto está na mídia por causa do recente acirramento do conflito na Faixa de Gaza. “Oslo” foi adaptado da peça de mesmo nome e conta a história verídica das negociações mediadas pela Noruega durante o Acordo Internacional de Paz entre israelenses e organizações palestinas. Os bastidores, as conversas e amizades inusitadas estão na história desse momento histórico. No elenco estão Ruth Wilson (da série The Affair) e Andrew Scott ( de 1917), interpretando o casal que junta dois israelenses e dois palestinos na mesma casa. É entre boa comida e bons vinhos que eles se conhecem e ouvem o lado do “inimigo”.

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THE END

(*) Fotos reprodução/divulgação

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Brígida Poli

Brígida Poli

Jornalista, cinéfila desde criancinha e maníaca por séries de TV desde "Os Sopranos". Não se considera crítica de cinema, pois não consegue deixar o coração de lado na hora de avaliar um filme. Adora falar e escrever sobre o assunto e tenta chamar a atenção para as grandes obras cinematográficas que as novas gerações desconhecem. Concorda com o mestre Federico Fellini quando ele disse que "o cinema é um modo divino de contar a vida".

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