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quarta-feira, 25 maio, 2022

Relações abertas, romantismo, amor e sexo! Por Regina Navarro Lins

Dra. REGINA NAVARRO LINS - Psicanalista e Escritora
Dra. REGINA NAVARRO LINS - Psicanalista e Escritora
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Uma das poucas vozes do Brasil na atualidade a colocar em discussão temas relacionados ao amor, relações e sexualidade de forma franca e escancarada. Posições que já motivaram muitos ataques, de toda ordem, mas que aos poucos estão diminuindo. A psicanalista e escritora carioca Dra. Regina Navarro Lins é a entrevistada de hoje para falar sobre relações abertas e traçar um panorama sobre o amor romântico, desejos sexuais e o movimento da sociedade na procura de novos formatos de relacionamentos.

👉  Regina Navarro Lins, psicanalista e escritora, trabalha há 48 anos em seu consultório. Ex-professora de Psicologia do Departamento de Comunicação Social da PUC-Rio, foi colunista de diversos jornais e apresentou programas de rádio. Durante oito anos teve um blog no portal Uol. Realiza palestras sobre relacionamento amoroso em várias cidades do país, cursos online e lives no Instagram. Atuou como consultora especialista do programa Amor&Sexo, da TV Globo. Durante quatro anos foi colunista semanal e comentarista da Globonews. É autora de 13 livros sobre relacionamento amoroso, entre eles o best seller A Cama na Varanda, O Livro do Amor, Novas Formas de Amar e Amor na Vitrine – Um olhar sobre as relações amorosas contemporâneas.

 

A.PRADA – Relação aberta é um tema novo ou hoje se fala sobre isso mais abertamente?

Dra. REGINA – Historicamente as relações abertas eram permitidas aos homens, eles saiam, tinham relações e obviamente não engravidavam. As mulheres sabiam, mas diziam que isso era coisa de homem e aceitavam, até para não criar problemas na manutenção do casamento e da família. Mas agora nós estamos vivendo uma outra história e é importante entender o que está acontecendo. Nós somos regidos pelo mito do amor romântico. O amor é uma construção social e a cada período apresenta uma nova fórmula. Se você pegar o amor na Grécia Clássica era de um jeito, na Idade Média outro. No Século XVIII o amor se tornou algo ridículo, ninguém queria ser escravo das emoções. No Século XIX mudou completamente, era a época do romantismo, as pessoas sofriam, se rasgavam por amor. A partir da Revolução Industrial, as questões do amor começam a ganhar novos contornos. Mas antes de tudo, quero dizer que amor romântico não tem nada a ver com mandar flores, levar café na cama e jantar à luz de velas. Isso é ótimo, mas não é amor romântico. O problema são as expectativas e os ideais mentirosos. Primeiro, o amor romântico prega que as pessoas precisam se transformar numa só, uma fusão sem sentido. Se você conversa com um casal fica impressionado sobre como um se mete na vida do outro sem cerimônia, um tem que servir aos propósitos do outro, cada um espera ter suas necessidades atendidas pelo outro, isso aniquila as individualidades. O amor romântico gera algo também que provoca sofrimento enorme, a ideia de quem ama não deseja mais, quem ama não transa fora da relação. E quando uma pessoa descobre que seu amado ou amada está transando com outro ou outra, imediatamente ela pensa que não está sendo mais amada.

 

A.PRADA – A senhora diria então que nestas circunstâncias o amor romântico é punitivo?

Dra.REGINA – Sim, qualquer coisa que fuja da proposta de amor romântico vira um grande problema. Então essa história de que ninguém pode olhar para mais ninguém criou uma cultura que dificulta os relacionamentos, a maioria das relações amorosas é péssima e os casamentos geram muitos sofrimentos. Quando eu estava escrevendo um dos meus livros, “A Cama na Varanda”, eu me deparei com uma pesquisa do IBGE em que 80 por das pessoas casadas relataram que estavam muito insatisfeitas no casamento. A boa notícia é que esse tipo de amor está saindo de cena, isso é maravilhoso, acho que já vai tarde, porque estamos buscando a individualidade. Hoje, a grande viagem do ser humano está muito mais em olhar para dentro de si, procurando novas possibilidades em tudo. E o amor romântico é o contrário disso, prega o oposto, a não individualidade. E aos poucos, ao sair de cena, o amor romântico abre espaço para aquilo que é a questão básica deste tipo de sentimento, a exclusividade. Começam então a ganhar espaço outras possibilidades, de acordo com as novas mentalidades, abrindo caminhos para novas formas de amar, relações livres, como o poliamor, amor a três, entre tantos outros formatos. É claro que os conservadores não concordam comigo, porque se baseiam no que foi imposto, que vem lá de criança, passa pelos filmes e novelas e toda uma literatura que criou a cultura de amor romântico. Mas é algo que está mudando aos poucos, não é de uma hora para outra que tudo vai mudar. Eu acredito que daqui algumas décadas muita gente não vai mais querer se fechar numa relação a dois e procurar novos formatos de relacionamento. É claro que o novo sempre assusta, gera insegurança, traz complicações, mas eu percebo que cada vez mais as pessoas estão se livrando dessas amarras e entendendo que podem criar uma nova cultura social no campo dos relacionamentos afetivos e sexuais.

 

A.PRADA – Até aqui a senhora falou sobre novas experiências, mas tendo o amor presente. Mas no caso das relações abertas, quando o amor fica de lado e o que as pessoas procuram é simplesmente novidades no sexo?

Dra. REGINA – Cada vez mais se discute se a monogamia é o mais importante para as relações. Já se discute e pratica uma mudança, a monogamia até recentemente era imposta de acordo com a cultura Ocidental, principalmente. Mas já há um grande movimento de pessoas que estão dispostas a vivenciar a não monogamia. Isso significa dizer que as pessoas não querem se fechar numa relação a dois. Nas relações livres, as pessoas entendem que elas podem estar sim numa relação a dois, mas podem transar com quantas outras pessoas quiserem, uma a mais, duas, entre casais e outras combinações ligadas ao prazer do sexo. De uns seis anos para cá eu comecei a receber muitos casais com conflitos que eu nunca tinha visto. Por exemplo, o casal chega e uma das partes vem me dizer que deseja abrir a relação, a outra parte se desespera. Os códigos que se estabelecem numa relação aberta são os mais variados possíveis. Já atendi casais que decidiram que cada um poderia transar com quem quisesse, mas não poderia repetir o parceiro. Outros decidem que as transas não podem ser comentadas entre o casal, mas há aqueles que querem saber todos os detalhes dos encontros sexuais com terceiros. Ou seja, é tudo muito novo, não existem parâmetros ainda para definir até onde vão as relações abertas, porque depende muito da necessidade e da individualidade de cada uma das partes envolvidas. Mas uma coisa é certa, eu recebo muito mais mulheres querendo abrir a relação do que homens, até porque, de alguma maneira, eles já têm essa cultura de buscar sexo fora do casamento tradicional, combinado ou não. Claro, isso tudo ainda choca muito a sociedade. Mas eu convido as pessoas a fazerem uma viagem comigo no tempo e pensar no casamento nas décadas de 60 e 70, quando começaram a aparecer as separações e depois os divórcios. No passado, era muita coragem uma mulher se divorciar, ela era chamada de vagabunda, perdia o direito aos filhos e ficava marcada socialmente. Isso não mudou? Hoje a separação não é a coisa mais normal do mundo? A mesma coisa aconteceu com a perda da virgindade, que demorou muito para ser vista como algo normal, assim como a homosexualidade e a bisexualidade que a cada dia estão sendo vistas com muito mais normalidade. Sempre foi normal e cheia de tabus as transições de valores, principalmente   quando não existem parâmetros para se apoiar. Então, essa questão da não monogamia vai passar por todo esse processo também até ser aceita mais amplamente.

 

A.PRADA – Quais são os principais códigos da relação aberta?

Dra. REGINA – Todas as relações serão regidas por códigos, mesmo que eles não sejam verbalizados. Vamos tomar como exemplo uma relação tradicional. Você começa a namorar e pronto, não estabelece códigos para iniciar a relação. Através de um olhar, de uma piada, uma história, um comentário, inconscientemente, você vai passando para o outro seus supostos valores, o que gosta e não gosta e por aí seguem os recados que são enviados. Nas relações abertas as pessoas me perguntam como elas podem estabelecer os critérios, e eu digo, não sei, isso é algo muito novo que está surgindo, daqui cinco anos ou dez anos talvez fique bem mais claro, não é possível saber. Veja bem, eu tenho 48 anos de consultório e lembro da primeira pessoa que atendi e ela me disse o seguinte: “gosto do meu marido, ele é carinhoso, um bom pai, mas eu perdi a vontade de fazer sexo com ele”. O maior problema dos casamentos é a falta de tesão. Eu sempre digo a todos, casamento é onde menos se faz sexo, não tenho a menor dúvida disso. Esse modelo de casamento tradicional não funciona para manter o tesão. Então, na relação aberta você tem que primeiro pensar muito bem se é isso que você realmente quer. Eu recebo muitas mensagens de mulheres dizendo que o marido quer ter relação a três e se devem fazer. O que eu digo é, só faça se você realmente deseja, porque se for por imposição, obrigação, para agradar ou medo de perder o marido, não faça, porque também não vai funcionar, vai acabar inviabilizando a relação de qualquer maneira. É aquela história, numa situação desconfortável alguém passa ser o credor e outro o devedor, simples assim.

 

A.PRADA – Pelo que a senhora relata, a atual fase nas relações abertas ainda é de muita experimentação?

Dra.REGINA – Eu ouço muito das mulheres a pergunta sobre como dizer ao marido que elas desejam abrir a relação. Eu respondo não sei, mas a primeira coisa que me ocorre é dizer que deve de haver uma conversa muito franca. As coisas tendem a mudar e quem sabe daqui a pouco teremos formatos de relações abertas mais definidos. O que acho é que os casais precisam se informar, buscar ler ao máximo sobre o assunto. Eu mesmo, devido à imensa procura por orientações sobre abrir ou não a relação, com o relato das pessoas e as minhas pesquisas, escrevi o livro “As Formas de Amar”. E seja qual for a leitura escolhida pelos casais, é importante que leiam juntos, discutam e encontrem o melhor caminho. Eu entendo que as pessoas precisam se aprofundar, entender e cada um achar a sua atuação. Se um casal viveu grande parte da vida com tesão e isso era bom, porque não pode procurar esse tesão de outra maneira, isso é o que cada um tem que responder para si mesmo. É a tal coisa, hoje muita gente pode achar a relação aberta putaria, tudo bem, cada um pensa como quiser, mas daqui a pouco muda e não vão pensar mais assim, as coisas evoluem para um novo pensamento.

 

A.PRADA  –  A senhora é uma das poucas vozes no Brasil de hoje que fala abertamente sobre a revisão dos modelos de relacionamentos tradicionais e outros temas que muitas vezes chocam. Como a senhora se sente?

Dra.REGINA – Tudo se resume à questão de acreditar ou não no que te ensinaram desde cedo. Eu vivi uma época em que a grande preocupação das mães era com a virgindade das filhas. Eu não tinha essa cobrança e também não recebia influências religiosas, o que já me ajudou muito. Mas sim, pelo jeito de pensar e defender determinados temas, eu já fui muito criticada, atacada mesmo, hoje menos. Mas eu acredito numa coisa, o dia em que isso parar é porque todo mundo já concordou com as coisas que defendo e isso seria muito bom para todos. Eu lamento que existem no Brasil poucas pessoas da minha área que pensam como eu, lutar para quebrar preconceitos. Mas é importante dizer, não é substituir um modelo por outro, cada pessoa tem o direito de escolher o seu jeito de viver. Se alguém quiser ficar casado com uma pessoa quarenta anos e só fazer sexo com aquela pessoa, tudo certo. Se alguém quiser três parceiros ou mais, tudo bem, cada um tem o direito a escolher e deve respeitar a escolha do outro. Eu acho que os psicanalistas, psicólogos e terapeutas precisam se aprofundar mais nesses temas da sexualidade em geral, porque a tendência é que cada vez mais pessoas procurem atendimento para tirar dúvidas sobre como tentar viver plenamente seus desejos e as questões da sexualidade. Quanto mais gente deixar de ser preconceituosa melhor, precisamos desconstruir para construir uma humanidade mais feliz.

Alguns dos livros da escritora REGINA NAVARRO LINS:

Sobre suas publicações, perguntas e respostas e cursos relacionados aos temas da entrevista no Instagram @reginanavarrolins.
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Fechada a temporada de verão, encerramos por ora a série de colunas especiais. A partir da próxima semana voltamos aos temas do dia a dia, com acontecimentos, gente e lugares em destaque.

Em tempo, se algum ucraniano precisar de acolhimento, não deixe de ajudar. Na real, o mundo já é uma grande guerra e todos vivemos no risco.

Obrigado pela companhia, críticas e sugestões.

@anselmoprada

Anselmo Prada
Jornalista, produtor e gestor de conteúdo, pessoas e eventos. Foi repórter, editor, coordenador de reportagem, editor-chefe do Jornal do Almoço, chefe de redação da RBS TV e gerente de programação NSC/Globo em Santa Catarina. Além do jornalismo, desenvolveu e dirigiu diversos projetos de entretenimento para a televisão. Com carreira destacada na comunicação catarinense, se interessa com mais profundidade sobre o que fazem as pessoas, em todas as áreas, como elas mostram suas particularidades, desenvolvem seus projetos, criam oportunidades, oferecem ajuda aos outros e como estão inseridas dentro da imensa diversidade de um mundo cada vez mais plural. Um observador da vida, buscando histórias e percebendo o que existe de único e inspirador em cada pessoa ou lugar. No Portal Making Of traz semanalmente os destaques de gente e lugares que estão em conexão com o tempo e preparando o futuro. Contato: e-mail pradafloripa1@gmail.com, WhatsApp (48)99163-6710 e Instagram @anselmoprada.
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