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terça-feira, 5 julho, 2022

Arsenal de cultura nas imagens de Cristiano Prim

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Muito rara a chance de aprendizagem no campo da fotografia, em especial quando se trata de uma especialidade como a das imagens das artes cênicas, na qual o artista fotógrafo Cristiano Prim tem expertise. Profissional com larga experiência no registro de espetáculos, shows, trajetórias e ações de artistas da dança, do teatro e da música, ele dá a oficina “Atrás das Lentes Fotografia para Artes Cênicas – Movimento” entre os dias 4 e 8 de abril, na Escola Câmera Criativa, no centro de Florianópolis (SC).

Em duas turmas, os encontros presenciais são direcionados a fotógrafos não iniciantes. Gratuito, com inscrições já encerradas, o projeto cultural legitimado pelo Edital Aldir Blanc Santa Catarina – 2021, prevê cinco aulas expositivas e dialogadas, com exercícios práticos diante de variações de qualidade para pouca luz e movimento, bem como análise produção porque a oficina termina numa mostra dentro da Escola Câmera Criativa. A intenção é construir uma oportunidade de ampliação de domínio técnico e teórico, apontar questões poéticas, históricas, sociais, tecnológicas e econômicas e, quem sabe, diminuir a lacuna neste campo de conhecimento e a escassez de profissionais voltados à documentação cultural.

Autor de fotos icônicas, Prim atende companhias de dança e de teatro, acompanha festivais e integra desde a sua criação em 2006 a equipe técnica do Múltipla Dança – Festival Internacional de Dança Contemporânea. Assim, circunscreve seu nome na história cultural de Santa Catarina. Numa entrevista rara, assim como a oficina, ele desvenda um pouco de suas concepções, conta sobre a decisão de compartilhar conhecimento, aponta quais os principais atributos de um bom fotógrafo e uma boa imagem.

“O artista, seja lá de qual área for, gosta da criação. De ver sua ‘criatura’ solta no mundo e ela trazendo de volta mais vida, informação ou qualquer outra coisa que se tenha plantado naquela obra. Ela carrega a maneira como se vê o mundo e o que gostaríamos de transformar”, diz ele.

Com ponte construída pela jornalista Néri Pedroso (autora da foto abaixo), trazemos um bate papo exclusivo com esse fotógrafo, que, através de suas lentes, contribui imensamente com o acervo cultural de Santa Catarina.

Você vai ministrar para alunos não iniciantes a oficina “Atrás das Lentes – Fotografia para Artes Cênicas –Movimento”. A que se deve o desejo de partilha de conhecimento nesta área?

Cristiano Prim – A oficina será para pessoas com uma noção mínima de conhecimento da técnica fotográfica. Também penso nos produtores de grupos artísticos ou até mesmo os próprios artistas que muitas vezes não têm verba para contratar um fotógrafo para divulgar o trabalho, boas imagens e prestar contas de projetos. A primeira parte terá uma abordagem teórica dos parâmetros controláveis de uma câmera, as funcionalidades manuais do equipamento e dos recursos que cada pessoa tem e o que se pode fazer com isso. Mas meu objetivo principal é partilhar de onde eu vim e como cheguei até aqui.

Não tanto o foco na qualidade técnica, mas sim no que te leva e move a apertar o “gatilho” em um movimento voluntário e involuntário. Esse desejo de partilhar nem sempre esteve presente na minha vida. Sempre fiquei preocupado no que eu ia dizer na frente das pessoas porque não sou uma pessoa que sabe usar o verbo e ainda sem didática e objetividade.  Mas, depois de muitas conversas com amigos, alguns deles professores, me convenci de que não são apenas os alunos que saem ganhando com o conhecimento. Na verdade, comecei a acreditar que estou entrando numa outra fase da minha vida ou numa transformação. Renascer de certa forma. Ainda mais depois desta pandemia.

 

Por que levou tanto tempo para oferecer uma oficina de conhecimento?

Prim – Como já disse, preocupações de como iria partilhar sem didática. Mas também há o motivo de que lembro quando eu era aluno, sentado numa carteira diante de um professor pouco comunicativo, falando chatices, eu sem vontade de estar ali. Então claro, tenho medo de ser esse professor mala, embora saiba que naquele tempo provavelmente era também um aluno mala.

 

Quais são as suas expectativas, o que espera deste momento de trabalho na Câmera Criativa – Escola de Fotografia e Arte?

Prim – Antes a minha ansiedade criava bloqueios, agora sinto um novo momento na minha vida, uma reciclagem e uma nova construção de pensamento a respeito do que é a essência do trabalho fotográfico. Na era digital, nós fotógrafos temos muitos “clics” disponíveis, ao mesmo tempo que diminuiu muito a probabilidade de obter uma foto boa. Se não gostamos, deletamos. Damos espaço ao “erro”, ao disparo aleatório. Perdeu-se aquela expectativa, aquela tensão antes do clic. Por que o filme tinha 36 poses e o “tiro” tinha que ser certeiro.  A Luila e o Radilson, os proprietários da Escola Câmera Criativa, me convenceram numa conversa rápida que precisamos cultivar as nossas raízes, os valores analógicos em tempos digitais.

 

O que é mais difícil fotografar: dança, teatro, show de música? Ou não há uma diferença, apesar das questões do movimento e da luz?

Prim – O mais difícil não é o que se fotografa, mas o como se faz. Nosso senso estético tende a ser padronizado. As pessoas acham linda uma foto de bebezinho numa cesta de pão com a mãozinhas apoiando a cabeça pelo queixo. É lindo, mas é um padrão. Para o fotógrafo isso dá dinheiro, porque se cria uma logística para fazer aquela foto mil vezes com mil clientes diferentes que provavelmente pagarão bem o profissional. É uma indústria. Neste caso, o olhar está domesticado. Tudo cada vez mais segue o formato padrão, cartesiano, militar e domesticado. Há técnicas que devemos dominar, mas por uma questão de linguagem. Quando criamos uma linguagem própria as pessoas já reconhecem você (fotógrafo) na imagem, algo que também depende do respeito do tempo e do espaço do fotografado. Isso é único e mágico. Você e o fotografado se reconhecem e se redescobrem. É uma troca.

 

O que é uma boa imagem?

Prim – É domínio da técnica. Saber o que o seu equipamento pode fazer e transformar isso em linguagem. A linguagem se cria quando você e o fotografado se identificam. Tirar fotos não te torna um fotógrafo. Costumo dizer que a boa imagem acontece quando esqueço que sou Cristiano Prim e quando o músico, ator, bailarino ou qualquer outra pessoa esquece que tem nome próprio. Estamos todos tão mergulhados em nossas tarefas e nos acontecimentos que entramos numa dimensão de paridade de frequências, é quando acontecem os bons disparos.

 

Quais os principais atributos que um fotógrafo das artes cênicas precisa ter?

Prim – Precisa entender um pouco das técnicas dos atores, bailarinos e músico. Não precisa gostar do que está vendo. Porque também tem isso, às vezes vou fotografar para clientes artistas com os quais não me identifico muito. Aí o desafio é maior, porque é preciso tirar leite de pedra, se esforçar para encontrar pelo menos um momentozinho de generosidade naquele trabalho. As artes cênicas, a dança, a música e o teatro, precisam de ensaios e quanto mais preocupações que o artista tem com a qualidade das informações, quanto mais generosidade está envolvida, mais fácil se torna o meu trabalho. O dedo dispara com mais leveza.

 

Você é de Blumenau, um homem extremamente discreto. Esse modo de ser tem a ver com as características do povo germânico, quase sempre reservado, ou uma certa timidez? A que se deve tanta discrição?

Prim – Não tenho certeza se isso tem a ver com a genética germânica, pois tenho também ascendência polonesa, ucraniana e sabe lá mais o quê. Sim, sou contido. Se é bom ou não, não sei. Tem vantagens e desvantagens. Mas isso me deixa mais reativo. Sem me expor muito, protejo-me, as pessoas não ficam dando pitaco do que eu deveria ou não fazer. Gosto de decidir sozinho, ao mesmo tempo que demoro para decidir, o que gera ansiedade e uma certa solidão. Como o fotógrafo aperta o botão sozinho, o protocolo e o setup é todo meu. Hoje já não curto muito isso, acho que posso melhorar.

 

Como se constituiu um artista fotógrafo?

Prim – O artista, seja lá de qual área for, gosta da criação. De ver sua “criatura” solta no mundo e ela trazendo de volta mais vida, informação ou qualquer outra coisa que se tenha plantado naquela obra. Ela carrega a maneira como se vê o mundo e o que gostaríamos de transformar.

 

Quais suas principais referências na fotografia?

Prim – Não tenho muitas referências fotográficas, mas admiro o trabalho da norte-americana Cindy Sherman. É uma referência.

 

Quem admira na fotografia de Santa Catarina?

Prim – Álvaro Dias, Guilherme Ternes, Zé Paiva, Yan Boechat, que está cobrindo a guerra na Ucrânia neste momento.

 

Por fim, se tivesse que apontar uma fotografia marcante de sua autoria, aquela que é – a foto! Se possível, explique a singularidade da imagem, as dificuldades e os seus resultados.

Prim – Uma foto feita para o espetáculo “In/Perfeito” do Cena 11. Uma foto PB feita em filme e que eu mesmo revelei e ampliei. Tudo do começo ao fim num processo artesanal. Nela estão os bailarinos Elke Siedler e Alex Guerra na perna-de-pau. A foto fiz por conta, fora do esperado do briefing no set de estúdio. Um flash não estourou direito e ela ficou perfeita. Foi a primeira vez que vi uma foto de minha autoria ir para jornais e revistas brasileiras, assinando termos para uso da imagem.

O que você não fica sem: alguma bebida

O que mais admira: pessoas decididas

O que abomina: fascistas

Um lugar no mundo: Berlim

Uma saudade: da minha infância

Uma bebida: cerveja

Uma comida: feijoada

Palavra: Freiheit (liberdade em alemão)

Uma frase: “Tu te tornas eternamente responsável por aquilo que cativas”, do livro “O Pequeno Príncipe”, de Saint Exupéry

Um ídolo: meu amigo Alejandro Ahmed, diretor do Grupo Cena 11 Cia. de Dança

Um livro: me pegou

Melhor viagem: Berlim

Sonho: morar pelo menos por algum tempo na Alemanha com minha família.

Na pandemia eu bebi muito e me concentrei para manter a sanidade mental

 

Tim-tim! Ao trabalho e ensinamento de Cristiano Prim!!!

 

SERVIÇO

Oficina

O quê: Oficina teórico-prática Atrás das Lentes – Fotografia para Artes Cênicas – Movimento, com Cristiano Prim

Quando: 4 a 8.4.2022. Turma 1 – 9h30 às 11h; turma 2 – 19h às 20h30

Onde: Escola Câmera Criativa, praça Getúlio Vargas, 158, centro, Florianópolis (SC)

Yula Jorge
Jornalista graduada pela UFSC. Antes disso estudou e viveu quatro anos entre o Canadá e os Estados Unidos e quando retornou a sua terra natal, Goiânia, graduou-se pela PUC em Secretariado Bilíngue. Logo mudou-se para Florianópolis, ingressou na Universidade Federal, e da ilha não saiu mais. Atua como colunista desde 2012, assinou uma coluna diária no jornal Notícias do Dia por alguns anos, e, paralelamente, foi repórter da RICTV Record e Record News. Traz todos os dias o que rola de especial em Floripa e Santa Catarina: sobre quem acontece, empreende, se engaja em causas legais. O que inaugura, as festas bombásticas, as melhores casas, restaurantes, os shows, as ações bacanas e o voluntariado.
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