Fevereiro 26, 2021

A ratazana que ruge

A ratazana que ruge

Durante dois anos esta coluna só falou de filmes, séries e tudo que envolvia o Cinema. A cada semana, películas sobre um tema:  futebol, racismo, viagens, medicina, jornalismo, política... (estão todas em arquivo para quem quiser ler). Em março de 2020, com a chegada da Peste senti necessidade de escrever  sobre ela e suas conseqüências. Nasceram as “Crônicas em Quarentena”. Achei que iam durar pouco, mas a pandemia se estendeu.  Hoje, as crônicas falam de tudo e, desconfio, vieram para ficar. Mas, a coluna não perdeu sua essência que é a de falar sobre a Sétima Arte e seus afluentes. Boa leitura!

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A ratazana que ruge

Quem nunca sentiu medo de ser uma fraude e acabar desmascarado? O sentimento é mais comum do que se pensa, mais a maioria não abre o jogo. Ao receber um elogio vem aquela vozinha interna: “Vão perceber que você não tem talento, só engana bem”. Sei bem como é. Era pior antes de saber que ela tem um nome e não é exclusividade minha. Chama-se “ Síndrome do Impostor”. Até brilhantes autores e artistas, às vezes, têm essa suspeita sobre o próprio trabalho. Imaginem eu!  A síndrome torna o portador  incapaz de aceitar o próprio sucesso. Invejo quem tem autoestima elevada e um ego, digamos, portentoso. Na próxima encarnação quero vir assim!

Mas nada é tão simples. Ser autoconfiante sem perder a autocrítica, tudo bem, mas existe  também o chamado Efeito Dunning-Kruger . Vou ser didática sobre os sintomas: “indivíduos pouco capacitados ou com baixo nível de conhecimento sobre determinado assunto enxergam-se superiores aos demais. Com isso, tomam decisões mal-informadas, resultando em falhas. É a própria incompetência do indivíduo, aliada à arrogância, que borra sua visão sobre as próprias capacidades”. (*)

“Hum, por que a colunista está puxando esse assunto”? Porque é inacreditável a quantidade de pessoas no comando da nossa vida e da nossa saúde parecendo sofrer do Efeito Dunning-Kruger! É como outra epidemia dentro da pandemia.

Falam bobagens sobre medicação sem comprovação científica, mas são incapazes de providenciar vacinas, única forma real de nos livrar da Covid-19. E lançam bravatas como a de ameaçar guerrear contra um adversário infinitamente superior? Lembrei na hora de “O Exército de Brancaleone”, mas outros cinéfilos pensaram em “O rato que ruge”, filme de 1959, com Peter Sellers.  A trama: um pequeno país em grave crise financeira declara guerra aos Estados Unidos. Acham que perderão a guerra e assim receberão ajuda para reerguer a economia.Vinte homens armados de arco e flecha pegam uma barcaça, atravessam o oceano e chegam nos EUA, conforme o previsto. Mas um acontece um problema: eles ganham a guerra contra a poderosa América. E agora, o que fazer?

E SE ...

... o Brasil ganhasse a guerra e os Estados Unidos se tornasse uma colônia ? O que vocês sugerem? Tenho algumas ideias: encamparmos os estúdios Disney para produção de filmes brasileiros. Kleber Mendonça, diretor de “Bacurau” seria o presidente do projeto. O cinema merece respirar depois dos últimos anos. Revogarmos a pena de morte ainda existente em alguns estados americanos. O muro na fronteira com o México só serviria para grafiteiros  deixarem lá suas obras com o tema fraternidade.Não restaria uma única criança mexicana separada dos pais pelas leis anti-imigração. Supremacistas brancos seriam obrigados a ler James Baldwin, ouvir Billie Holiday e assistir a “O sol é para todos”.

Melhor parar por aqui. Esta crônica está ficando meio confusa. Estou sentindo alguns sintomas daquela síndrome...Tchau.

(*)Fonte: UFM!

(Brígida De Poli)

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O RATO QUE RUGE ( 1959) – direção Jack Arnold – 1959

Um pedacinho do filme com o grande Peter Sellers!

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DICAS & DICAS

Filmes

Ethel & Ernest – Animação – realização:Roger Mainwood- Netflix

Sugestão e comentário da pedagoga e escritora, Edna Merola.

A animação  Ethel & Ernest é retrato de época pelo viés de memórias pessoais. Uma biografia de uma delicadeza pictórica  à altura do traçado do artista que compõe um retrato como um estudo psicossocial de seus pais, com metodologia longitudinal.

Traz como brinde a ironia fina sobre as medidas políticas inglesas narradas longe da família real, da nobreza britânica governante.

O filme  trata da convivência de Raymond Briggs- autor do livro de mesmo nome, lançado em 1998, no qual o filme se baseia - com a história de seus pais a partir do momento em que se conheceram até a morte de ambos. 

O narrador é onisciente. A narrativa é construída do ponto de vista do casal, na maior parte do tempo  E no final - doença e morte dos pais- do ângulo do filho.

Apaixonei-me pelo traçado do criador: as cores e formas, as caricaturas das emoções, os hábitos e sutilezas do cidadão inglês do partido popular,  a mulher conservadora. 

Não sou fã antiga de animação. Confesso que essa "me pegou"!

 

Eu me importo – direção: J.Blakeson – 2020- Netflix

Um filme que transita por vários gêneros. Não é uma comédia escancarada, mas tem seus momentos de humor ácido, tem ação e suspense. Rosamund Pike interpreta Marla, uma curadora de idosos que se aproveita dos clientes para ficar com as economias deles. Há toda uma rede envolvida no golpe, que vai da geriatra ao dono da clínica. Um dia ela interna uma senhora com muitas posses, mas dessa vez “ o buraco é mais embaixo. Ela não é quem diz ser e coisas ruins começam a acontecer em torno de Marla.  Rosamund já provou que é bem mais um rostinho bonito, mas o resto do elenco também é ótimo: Peter Dinklage ( de Game of Thrones) e Dianne Wiest, por exemplo. Um bom divertimento.

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Minisséries

Por trás de seus olhos – 6 episódios - Netflix

Sugestão do querido Aurélio Espíndola, do Arpoador Floripa, Praia da Armação

Esta produção britânica está “bombando” na Netflix. Gostei de algumas coisas, não gostei de outras. Mas, tem o suspense psicológico necessário para prender a atenção. Vou tentar não dar spoiler, mas acho que ela se estende demais nos episódios iniciais, apostando que as reviravoltas finais darão conta de tudo. A trama gira em torno de um triângulo ( ou quadrilátero) amoroso. Um psiquiatra atormentado, sua linda mulher e a secretária dele. As atitudes ingênuas da secretária - divorciada e com um filho pra criar- ao se envolver com o casal beira à burrice. Isso é muito irritante. Lá na frente somos surpreendidos pelo que “por trás dos seus olhos”do título realmente significa. O final...bem, melhor parar por aqui. Uma curiosidade: a atriz que interpreta Adele, a esposa misteriosa, é Ewe Hewson, filha de Bono Vox.

 

Allen versus Farrow – documentário - HBO

Essa série documental foi gravada quase em segredo. Ela procura esmiuçar a acusação de abuso sexual feita pela filha adotiva de Woody Allen, Dylan Farrow, contra o cineasta. Por enquanto, apenas o primeiro episódio está disponível, mas ele traz depoimentos importantes de Dylan, do irmão Ronan , de pessoas próximas à família e dos principais envolvidos: o diretor Woody Allen e a ex-mulher, Mia Farrow. Allen sempre negou as acusações. É difícil saber onde está a verdade nessa guerra que já se estende há décadas. O que depõe contra o brilhante cineasta foi ele ter casado com a filha adotiva mais velha de Mia, Soon-Yi, quando ela tinha 21 anos. Continuam casados até hoje. Vamos aguardar as cenas dos próximos capítulos.

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THE END

(*) Fotos reprodução/divulgação

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Brígida Poli

Brígida Poli

Jornalista, cinéfila desde criancinha e maníaca por séries de TV desde "Os Sopranos". Não se considera crítica de cinema, pois não consegue deixar o coração de lado na hora de avaliar um filme. Adora falar e escrever sobre o assunto e tenta chamar a atenção para as grandes obras cinematográficas que as novas gerações desconhecem. Concorda com o mestre Federico Fellini quando ele disse que "o cinema é um modo divino de contar a vida".

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