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quinta-feira, 26 maio, 2022

Quarenta anos sem Elis

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Quarenta anos sem Elis

Mal entrei no táxi, o motorista foi falando: viu que a Elis Regina morreu ? Eu ri e respondi – moço, todo ano “matam” o Roberto Carlos, as pessoas adoram espalhar boatos sobre artistas-. Ele insistiu e ligou o rádio bem na hora em que o locutor confirmava: Elis estava morta.

Não lembro quando a ouvi cantar pela primeira vez, mas as imagens do seu início de carreira são bem nítidas na minha memória. Elis, de vestido curto prateado, cabelos presos em grande coque, gesticulando os braços com tanta energia que ganhou o apelido de ” eliscóptero”. Exageros de coreografia à parte, estava ali uma cantora de personalidade marcante. E a voz? Ah, a voz, não tenho como descrever a limpidez, afinação, emoção que saía da garganta daquela baixinha de sorriso largo.

Fui chorando no táxi que me levava para a emissora de TV em que eu trabalhava e lembrando das vezes em que estive perto da minha cantora favorita. Primeiro é preciso falar de Zeca Kiechaloski, meu amigo dos tempos de faculdade. Não existia ninguém no mundo mais fã de Elis Regina que ele. Nem eu. Essa paixão era tão notória que uma querida colega do Curso de Jornalismo, a Lourdes Daudt, convidou-o a ir ao camarim de Elis depois do show que ela faria no Teatro Leopoldina, em Porto Alegre. Lourdes havia estudado com Elis e a simpatia dos tempos de escola permaneceu. Como Zeca e eu éramos “unha e carne”, fui automaticamente convidada. Era a estreia nacional do show “Transversal do Tempo”.

Terminado o espetáculo, emoções à flor da pele, fomos ao camarim: Lourdes, Zeca, eu, outra ex-colega de Elis, com o marido e um amigo deles. Elis e o então marido, o grande músico e arranjador, Cesar Camargo Mariano nos receberam com muita simpatia. Conversamos, ou melhor, eu só ouvia e segurava o braço do Zeca que estava prestes a desmaiar . Elis contou uma história ruim dos tempos de colégio: uma professora insinuou que ser cantora era o mesmo que ser puta, ou algo assim.  -Sentei a mão na cara dela , contou aquela que, não por acaso, tinha o apelido de “Pimentinha”. Rimos muito, conversamos mais um pouco, tiramos um foto com ela e partimos, o Zeca ainda choque.

Apesar da dureza dos tempos de estudante, assisti a praticamente todos os shows de Elis. Só não pude ver talvez o melhor deles: “Falso Brilhante”, mesmo com mil e duzentas apresentações pelo Brasil.

 

A segunda vez

Passaram-se muitos anos até estar pertinho de Elis outra vez. Viajei  a São Paulo, com o Zeca, claro, para ver a estreia de “Trem Azul”. Nosso querido amigo, o músico gaúcho Fernando Ribeiro, nos recebeu em Sampa e foi o guia daquela noite inesquecível. Fomos os primeiros a chegar e, não sei como, entramos no Canecão enquanto Elis ensaiava. Fernando murmurava algo com o garçom, quando ouvimos aquele “psiiiu”bem alto. Era ela, pedindo silêncio. O espetáculo tinha canções bem diversas, pois embora quase ninguém mencione, Elis iniciou o ecletismo no repertório  tão adotado pelas cantoras atuais.

Depois do show maravilhoso, fomos ao camarim. Zeca já encontrara com Elis outras vezes após aquela no Teatro Leopoldina, inclusive para almoçarem juntos. Ela o chamava  brincando de “Seu Zeca”. Havia fila na porta e esperamos um bom tempo. Quando finalmente conseguimos entrar, a Elis que encontramos era bem diferente daquela do camarim de Porto Alegre. Ela parecia uma fera enjaulada e dizia a um homem próximo a ela, que não consegui saber quem era – me tira daqui,  quero sair daqui.  Mal falou com o Zeca e, eu percebendo tudo isso, nem me aproximei. Ela parecia exausta. Ao sairmos, a fila na porta continuava enorme. Era o dia 22 de julho de 1981. Não imaginava que era a última vez que veria Elis com vida. Depois de São Paulo, ela excursionou com o “Trem Azul” pelo Brasil. Em  11 de dezembro, no Rio de Janeiro, fez sua derradeira apresentação.

Em 19 de janeiro de 1982,  aquele mesmo dia em que eu entrei num táxi para ir trabalhar normalmente, Elis foi encontrada caída no chão do quarto pelo namorado, o advogado Samuel McDowell. O atestado de óbito fala em morte por overdose de medicamentos, cocaína e álcool. Elis nos deixara, aos trinta e seis anos. Desci do carro chorando, mal consegui trabalhar.  A primeira pessoa de quem lembrei foi do Zeca. Tentei ligar, mas ele estava incomunicável. Depois pensei em João Marcelo, Pedro e Maria Rita, os filhinhos de Elis. Todos nós, seus fãs, de certa forma também tínhamos ficado um pouco órfãos.

Vi pela TV o funeral de Elis, o caixão sendo levado do Teatro Bandeirantes, São Paulo, onde foi velada, até o Cemitério do Morumbi. Uma multidão caminhava ao lado.

Meus tantos discos dela, a maioria em vinil, ficaram mudos por muito tempo. Demorei anos para ter coragem de ouvi-la de novo. Até hoje, tantos anos depois, sua morte ainda me dói. Ouvi-la só reforça que ela continua sendo a maior cantora deste país. Penso no que ela estaria gravando e entendo perfeitamente quando Milton Nascimento, o Bituca como ela o chamava o grande amigo, diz que ainda compõe imaginando a voz de Elis na nova canção. 

Acho graça quando lembro que alguns diziam que Elis tinha técnica, mas faltava emoção. Preferiam Gal Costa. Nada mais equivocado, Elis cantava de acordo com seu mantra– a gente tem que fazer das tripas, sentimento.

E ela fazia. No palco e na vida.

Saudades imensas, querida Elis.

(Crônica originalmente publicada no meu livro “As Mulheres da minha vida” – Editora Insular – 2019)

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Agora, eu sou uma estrela

Hoje, no espaço do microconto, permito-me colocar a imagem daquele encontro inesquecível, no Teatro Leopoldina, de Porto Alegre.  Na foto, Zeca entre Lourdes e Elis;  acima do Zeca, eu, de verde ; na fileira ao alto, os outros ex-colegas.

“(…) Agora retiram de mim a cobertura da carne, escorrem todo o sangue, afinando os ossos em fios luminosos – e aí estou pelo salão, pelas casas, pelas cidades, parecida comigo. Um rascunho. Uma forma nebulosa, feita de luz e sombra. Como uma estrela. Agora eu sou uma estrela”  (Trecho do poema que Elis recitava no seu último show, o Trem Azul, e que virou uma espécie de testamento).

 

Brígida Poli
Jornalista, cinéfila desde criancinha e maníaca por séries de TV desde "Os Sopranos". Não se considera crítica de cinema, pois não consegue deixar o coração de lado na hora de avaliar um filme. Adora falar e escrever sobre o assunto e tenta chamar a atenção para as grandes obras cinematográficas que as novas gerações desconhecem. Concorda com o mestre Federico Fellini quando ele disse que "o cinema é um modo divino de contar a vida".
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