Novembro 29, 2020

Vai encarar?

Vai encarar?
Reprodução Assejur/Internet

Dando um tempo no formato temático de Cine & Séries, mas garantindo a leitura semanal para quem segue a coluna. Toda sexta-feira,  uma nova "Crônica em Quarentena" e, claro, dicas de filmes e séries para amenizar esses tempos difíceis de pandemia e isolamento social. Fiquem bem!

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Vai encarar ?

Senta que lá vem papo sério ! Precisamos continuar falando sobre o racismo, um assunto que não se esgota na intensa cobertura televisiva sobre a morte do homem negro assassinado por seguranças num supermercado, nem pelos ataques à vereadora negra eleita em Joinville. O Brasil é o segundo país com a maior população negra do mundo. Oitenta e seis milhões de brasileiros descendem de povos africanos. Só perdemos em número para a Nigéria.

Algum extraterrestre ou mesmo um estrangeiro desavisado ao ler  essa estatística pensaria que o Brasil é um bom lugar para negros viverem.  Refugiados do Haiti, Congo e Senegal escolheram nosso país com essa perspectiva. Chegando aqui se depararam com algo que insistimos em negar ao longo dos séculos: o preconceito racial.

Costumávamos varrer o racismo para baixo do tapete. "Até tenho uma amiga negra" , "fulano é negro de alma branca", ou" não tenho nada contra, só não gostaria que minha filha casasse com um negro" eram frases ditas com a maior naturalidade.

Gerações que nos antecederam tapavam o sol com a peneira e engavetavam um debate que só agora está na berlinda. Ele chega num momento em que se contrapõem a maior conscientização sobre o problema e a insatisfação de quem acha que é só mimimi ou um "caso importado", como declarou o vice-presidente, Hamilton Mourão.

É quase inacreditável que justo agora quando abriram as portas do inferno e hackers invadem lives de ativistas para usarem palavras de ódio, quando qualquer um se acha no direito de chamar o outro de "macaco", quando manifestações claras de racismo proliferam sem qualquer pudor, ainda haja a negação do preconceito.

Digo QUASE porque, infelizmente, estamos vivendo a era do negacionismo . Nega-se não só racismo, como o machismo, o aquecimento global, as queimadas, o desmatamento e até a doença  que já matou mais de 170 mil brasileiros.

Quando eu era criança e pensava enxergar fantasmas no escuro, fechava bem os olhos durante alguns minutos para eles desaparecerem. Nossos governantes têm fechado os olhos, mas tenho uma má notícia: nossos males são concretos. Não adianta fingir que não existem. As manifestações de ódio racial estão aí cotidianamente para quem tem um mínimo de informação. Sua negação é alimento para a violência contra os negros.

Não quero dar lição de moral a ninguém, mas precisamos admitir o racismo. É um assunto incômodo ? Sim, é, mas James Baldwin, escritor negro norte-americano, cujos livros me ensinaram muito sobre preconceito racial, resumiu numa frase o que estou tentando dizer: "você não consegue mudar o que não consegue encarar."

Vai encarar?

(Brígida De Poli)

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O CINEMA E O RACISMO

Em janeiro de 2018 dediquei à edição da coluna a filmes que abordavam o racismo. Incluí também uma homenagem a um dos meus atores favoritos, Sidney Poitier. Ele foi o primeiro negro a ganhar o Oscar de Melhor Ator , em 1963, abrindo espaço para outros artistas afro-americanos. Se quiser saber mais, leia aqui.

https://portalmakingof.com.br/o_cinema_e_a_falta_de_igualdade_racial

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DICAS & DICAS

FILMES

Três vezes Sophia Loren ( Netflix)

Na última edição mencionei " Rosa e Momo", o mais recente filme de Sophia Loren, dirigido pelo filho dela. No rastro do lançamento, a Netflix inseriu mais dois filmes com a diva: O Signo de Vênus ( 1953) e Pão, Amor e ..(1955), ambos dirigidos por Dino Risi. Uma chance para conhecer não só o trabalho de La Loren, como o bom e clássico cinema italiano dos anos 50.

 

Oito vezes Harry Potter  (HBO/Now)

Para os fãs da série reverem ou para quem quer conhecer as histórias que fascinaram uma geração, a HBO programou oito filmes do bruxinho mais amado da literatura e do cinema.

 

Uma vida oculta – direção:Terrence Malick -2019 (Telecine)

Quem já assistiu "A árvore da vida" ou "Atrás da linha vermelha" sabe que Terrence Malick não costuma fazer filmes "fáceis". Aqui, ele conta uma história ambientada na 2ª Guerra Mundial, mas sem mostrar tiros ou bombardeios. É a história de Franz Jagerstater , personagem real que se recusou a participar das forças nazistas por uma questão de consciência.  Julgado como traidor acabou condenado à morte. Em 2007,  Franz foi considerado mártir pela Igreja Católica.

 

Era uma vez um sonho – direção: Ron Howard – 2020 (Netflix)

A Netflix investiu muito nessa produção, mas os críticos caíram de pau no drama  baseado no livro "Hillbilly Elegy" de  J. D. Vance. A reação dos críticos talvez enterre a esperança de Glenn Close e Amy Adams ( na foto), duas injustiçadas em outras edições, de ganharem um Oscar em 2021. Achei que o filme peca pela falta de ritmo da metade para o fim. Quando a gente se pega pensando "falta muito?" é porque deu ruim!

Seja como for, um filme que traz essas duas atrizes merece ser conferido. E, eu garanto, elas estão mesmo ótimas!

Sinopse: Em Era Uma Vez um Sonho, a família Vance se muda para Ohio na esperança de viver longe da pobreza em um período pós-guerra. Quando o membro mais jovem da família cresce e se torna um estudante de direito na universidade de Yale, ele é obrigado a retornar à sua cidade natal, se deparando com o tão famoso sonho americano. Porém, ao perceber a luta de sua família contra o racismo, abusos, alcoolismo e pobreza, o jovem logo descobre que esse estereótipo americano é superficial e está longe de parecer um sonho.(Adoro Cinema)

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SÉRIES

Penny Dreadfull-City of Angels – 10 episódios - Prime Vídeo

Se você viu a série original da HBO vai gostar muito dessa produção derivada de "Penny Dreadfull", ambientada em Los Angeles, no ano de 1938. Misturando história com sobrenatural, a produção acompanha a história do detetive Tiago Vega, que investiga um assassinato brutal que chocou a cidade. Durante as investigações, Vega se depara com seguidores da Santa Muerte - um culto mexicano que idolatra a Morte -, construções de autoestradas, personagens da mitologia latino-americana e perigosas ações de espionagens que envolvem nazistas infiltrados em solo norte-americano .Antes que perceba, Tiago e sua família estarão lutando com forças poderosas que ameaçam separá-los.(dados: Giro S.A)

Aproveitem porque a Prime não vai produzir uma segunda temporada e o elenco é super bacana:  Natalie Dormer, Daniel Zovatto, Adriana Barraza, Jessica Garza, Johnathan Nieves e o ótimo Nathan Lane.

 

Voices of Fire -  série documental - Netflix

Para quem gosta de realities musicais esse mostra a formação de um coral gospel, ideia do pastor  Bispo Ezekiel Williams, tio de Pharrell Wiliams que participa do projeto como diretor executivo. Mesmo se você não curte gospel, as lindas vozes descobertas durante a seleção já fazem valer a pena acompanhar. Espia o trailer...

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BÔNUS – ADIÓS, DIEGUITO!

Como escreveu um jornalista: E a mão foi se encontrar com Deus !

Armando Diego Maradona foi mais que apenas um jogador extraordinário. Foi um personagem que viveu tudo de melhor e pior nesta vida. Nascido numa família argentina muito pobre, não fez como a maioria dos que enriquecem na profissão e esquecem a desigualdade social. Maradona sempre fez questão de se posicionar politicamente a favor dos que tem menos. Essa é apenas uma faceta do homem, mais que do personagem, que partiu na última quarta-feira, aos 60 anos. Decididamente, 2020 não está para brincadeira.

 

Maradona, por Kusturica – documentário – 2008

Tal personagem rendeu vários documentários, mas escolhi esse de um diretor que respeito muito (*).

(Sinopse) Emir Kusturica celebra neste filme a incrível história de Diego Maradona: herói desportivo, o deus vivo do futebol, artista brilhante, campeão do povo, ídolo caído e inspiração para milhões por todo o mundo.
De Buenos Aires a Nápoles, passando por Cuba, Kusturica traça o retrato de vida deste homem extraordinário, desde as suas origens humildes até à fama mundial, desde a mais espetacular ascensão até à trágica queda.
Um documentário único acerca do "Jogador do Século", filmado pelo seu maior fã.

Assista aqui.

 

(*)Uma lembrança

Descobri Emir Kusturica, o diretor, roteirista e músico sérvio, num pequeno Cineclube de São José, SC, onde passava as férias. O cinema ficava a uns 10 quilômetros da casa onde eu estava hospedada, trajeto que  a gente fazia a pé – não havia transporte coletivo à noite - para não perder os filmes. O título era " Você se lembra de Dolly Bell" (1981). A descoberta valeu as férias inteiras. Nunca mais deixei de acompanhar a obra de Kusturica.

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ADIÓS

(*) Fotos reprodução/divulgação

Tags:
cinema séries beijos de cinema arte cultura séries de TV netflix
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Brígida Poli

Brígida Poli

Jornalista, cinéfila desde criancinha e maníaca por séries de TV desde "Os Sopranos". Não se considera crítica de cinema, pois não consegue deixar o coração de lado na hora de avaliar um filme. Adora falar e escrever sobre o assunto e tenta chamar a atenção para as grandes obras cinematográficas que as novas gerações desconhecem. Concorda com o mestre Federico Fellini quando ele disse que "o cinema é um modo divino de contar a vida".

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